João Canijo morreu de forma súbita na quinta-feira, aos 68 anos, na casa onde vivia em Vila Viçosa. O corpo foi encontrado pela empregada doméstica depois do almoço. Os dois tinham trocado algumas palavras nessa mesma manhã. A morte ocorreu no território em que repartia a vida com Lisboa, no Alentejo que tantas vezes filmou como espaço de clausura e de resistência, de permanência e desgaste.
A sensação imediata não foi apenas a de perda, mas a de interrupção. Canijo encontrava-se no auge de um processo de maturação artística que demorara décadas a ganhar forma plena. Em 2023, Mal Viver recebera em Berlim o Urso de Prata do Júri, o reconhecimento internacional mais significativo da sua carreira, e o sinal inequívoco de que aquela obra, lenta a impor-se, tinha finalmente encontrado o seu lugar fora de portas. Não como consagração tardia, mas como confirmação de um método que se tornara cada vez mais rigoroso, mais pessoal e mais exposto ao risco.
Ficaram dois trabalhos integralmente rodados, ambos em pós-produção. Encenação acompanha uma companhia de teatro num momento terminal do seu percurso criativo. Um encenador, interpretado por Miguel Guilherme, enfrenta as atrizes com quem trabalhou e viveu – Rita Blanco, Anabela Moreira e Beatriz Batarda –, numa dinâmica onde o conflito profissional e o desgaste íntimo são indissociáveis. O filme transporta marcas biográficas do próprio Canijo, ao ponto de certos gestos que lhe eram próprios surgirem inscritos no corpo do ator. Deste processo nasceu ainda As Ucranianas, a peça criada pelas personagens, que se autonomizou como espetáculo teatral de 120 minutos, filmado posteriormente com duas câmaras.
Durante a rodagem, Anabela Moreira sintetizava o gesto do realizador com clareza desarmante: «Este filme é uma homenagem do João a três mulheres que fizeram parte da vida dele, três pessoas que o fizeram mover. Não deixam de ser relações tóxicas de um lado e de outro». Essa toxicidade partilhada, longe de ser um efeito dramatúrgico, constituía o próprio motor do trabalho. A fronteira entre vida e criação tornara-se quase invisível, e só uma história longa de cumplicidades permitia que um filme assim se sustentasse.
O percurso de Canijo não foi linear nem está isento de opções bastante duvidosas ou frágeis. Os primeiros filmes, marcados por um realismo áspero atravessado por uma dimensão fabular, deram lugar a um desvio prolongado para a televisão e para o teatro. Nos anos 90, experimentou formatos e linguagens, encenou autores como Beth Henley, David Mamet, Eugene O’Neill ou Christa Wolf, e deixara já, em Jogos de Praia (1987), um sinal inaugural: violência física e moral encenada num espaço quase ritual, com um quarteto de atores que viria a marcar o seu imaginário.
O regresso ao cinema com Sapatos Pretos (1998) trouxe consigo uma reputação incómoda. A crítica apontou-lhe uma fixação com a sordidez, o «mau gosto», na exposição de um subsolo português e de feridas escarafunchadas sem grande acerto. Canijo procurava adotar formas clássicas, entre a tragédia e o film noir, a um registo popular, televisivo, aproveitando aquela estética e corroendo-a simultaneamente, esticando-o até ao grotesco. Um gesto ambíguo, deliberadamente instável, que o próprio viria mais tarde a considerar falhado, mas que abriu caminho a uma reformulação profunda do seu cinema.
Essa reformulação começa a ganhar consistência a partir de Ganhar a Vida (2001). A influência de John Cassavetes torna-se estrutural: a câmara como instrumento de aproximação e recuo, os espaços fechados como dispositivos morais, a atenção obsessiva às margens da ação. A experiência como assistente de Manoel de Oliveira – a par de Wim Wenders, Alain Tanner ou Werner Schroeter – mostrou-se decisiva para a compreensão de uma ética autoral assente na intransigência consigo próprio e na recusa do compromisso fácil.
A partir daí, o método impõe-se: longos períodos de ensaio, improvisação sistemática, escrita do argumento em diálogo com os atores. Um processo próximo do de Mike Leigh, mas atravessado por uma brutalidade emocional que não admitia proteção. Sangue do Meu Sangue marca o momento em que esse método encontra uma forma plena. Consolida-se um núcleo de intérpretes – Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Cleia Almeida, Vera Barreto – a que se juntam atores como Nuno Lopes ou Rafael Morais.
Os filmes seguintes aprofundam essa via. Fátima (2017) e, sobretudo, o díptico Mal Viver/Viver Mal constituem um mesmo organismo visto de ângulos distintos. Em Mal Viver, a câmara parece omnipresente, absorvendo a cacofonia do quotidiano e expondo uma ferida que já não é sociológica, mas íntima. Essa atenção ao país real estende-se ao documentário. Em Fojos e Portugal – Um Dia de Cada Vez, realizados com Anabela Moreira, Canijo observa um mundo rural abandonado, sem nostalgia nem retórica, como quem regista um falhanço coletivo.
As reações institucionais sublinharam o lado precoce e trágico desta perda. Tiago Rodrigues escreveu: «Tempestuoso e lúcido, foi um artista extraordinário e viveu a sério. Travou um combate poético com o país que somos. Mostrou-nos um espelho que refletia doses iguais de violência e ternura.» A Presidência da República evocou um «meticuloso e destemido cronista de um país que nem sempre queremos ver». Marcelo Rebelo de Sousa lamentou ainda que a sua «morte precoce» prive o país de «uma voz forte e singular no momento da sua maior afirmação».