Nos últimos anos, foi candidata a eurodeputada, a deputada da Assembleia da República e teve uma tentativa falhada de concorrer à Presidência da República, sempre com o apoio do ADN. O que falhou para não ser eleita, nem ser candidata a Belém?
Não falhou nada porque já sei o que a casa gasta - o sistema político português não é permeável ao dissenso real. Funciona mais como um clube selecto de condómino fechado de endogamia de elites e clichés do que como uma sã arena de confronto de ideias. Quem não pertence à gramática dominante — mediática, partidária e até afetiva — é rapidamente colocado na categoria do “desvio”. Sobrará ser como Ventura e fingir que se é contra o sistema quando, na verdade, se vive do e para sistema? Isso recuso!
Não me incomoda não ter sido eleita. Incomoda-me, isso sim, a facilidade com que tantos são eleitos sem nunca terem contribuído rigorosamente com nada, zero rasgo, com qualificações medíocres ou oratória de plasticina. Sempre levados ao colo pelos grandes interesses coniventes com os media.
Se no divã do seu consultório aparecesse alguém com o seu percurso político dos últimos anos, o que faria para a ajudar? Era capaz de lhe apontar cinco erros ‘fatais’?
Será difícil alguém ter um percurso político igual ao meu, mas ok. Ajudá-la-ia a perceber os erros fatais, cinco pecados capitais na política portuguesa: autonomia, frontalidade, défice de padrinhos, recusa de ‘lambe botismo’ e pensamento próprio. Ser mulher sem-vergonha-de-o-ser também não ajuda. Quem os comete, raramente é perdoado.
Estive a rever algumas entrevistas suas e fiquei com a ideia de que, em matéria de paz ou de guerra, como queira, o seu pensamento, e o do ADN, está em linha com o PCP. Fala em paz, não às armas, mas não explica, ou não percebi, como é que um povo enfrenta uma invasão de uma potência como a Rússia?
A função primeira da política é evitar cemitérios, não geri-los com superioridade moral.
Comecemos pelo óbvio, para pouparmos caricaturas preguiçosas: um povo invadido tem o direito de se defender. Ponto. O que eu recuso é a indigência intelectual de fingir que esta guerra nasceu por geração espontânea em fevereiro de 2022, como se a História tivesse começado naquela manhã porque deu jeito às redações e às chancelarias. O conflito vinha de 2014, com a queda de Yanukovych, a anexação da Crimeia e a guerra no Donbas. O Euromaidan começou em 2013 com interferências da Europa que, em vez de servir de ponte, em vez de criar condições para o diálogo, preferiu estar do lado da expansão da NATO. Preferiu prescindir do seus próprios interesses – nomeadamente uma arquitetura de segurança europeia que incluísse também a Rússia. Relembre-se a declaração de Bucareste, ainda de 2008, onde a NATO afirmou que a Ucrânia e a Geórgia se tornariam membros. Em geopolítica, isto não é detalhe — é dinamite.
Portanto, não: a invasão russa não é desculpável. Mas também não caiu do céu. Foi o pináculo de uma longa sucessão de erros, provocações, burrice estratégica e fanatismo atlanticista. E o mais trágico é que a Europa continua a comportar-se como se o seu papel fosse acicatar o conflito e não encerrá-lo. Muito heroísmo verbal, muita pose moral, muita bandeirinha na lapela — e muito pouca diplomacia corajosa.
Mandar os filhos dos outros morrerem ou mandar armas é fácil; difícil é fazer política.
Acha que conseguiu explicar bem a diferença entre avença e compensação salarial? O seu ordenado na clínica não lhe permite viver sem ajudas de custo do partido que dá a cara?
O ADN celebrou um acordo de prestação de serviços comigo, através da minha empresa, para dar formação, uma actividade que exerço há muitos anos. Qual o problema? Devia tê-lo feito à borla? É que não faltava mais nada.
E não, não dependo da política para subsistir economicamente, como é público. Talvez por isso não dependa dela para pensar.
É uma verdadeira ‘polipartidos’, permita-me o termo. Foi, pelo menos, deputada pelo BE, como independente, fez o Agir, esteve ligada ao Nós, Cidadãos, ‘está’ no ADN. Qual será o próximo passo?
Polipartidos é giro, soa assim a isolamento térmico e acústico de tubos em espuma de polietileno expandido. Vou adoptar. Mas porquê? Prefere aqueles políticos que se mantêm, por exemplo, no Chega, não obstante o cortejo de roubos e pedofilia, contradições flagrantes (como o caso do Bruno Mascarenhas ), Benficas, contratação de imigrantes para serem explorados, etc ?
Ou os que permanecem no PSD ou no PS depois de desfiles de promiscuidade, manipulação e captura do Estado por interesses instalados? Depois do Sócrates? Depois de Paulo Portas? Poupe-me! É isso que devemos admirar? A fidelidade cega? Em Portugal, a política transformou-se numa lógica de cliques e claques: escolhe-se uma camisola e fica-se lá, aconteça o que acontecer — jogue bem, jogue mal, com faltas porcas ou sem elas. Eu não faço política assim. Quando um partido como o Bloco de Esquerda passou defender que uma mulher leve porrada de um homem no ringue, já foi. Quando relativiza o superior interesse das crianças e defende a sua sexualização, há rutura. Quando abdica do combate aos grandes poderes — incluindo lobbies como a indústria farmacêutica — e, num momento como a covid, opta por um silêncio acrítico, é para esquecer.
Pois, recuso essas fileiras, a pertença acrítica, a normalização do inaceitável. A política não é futebol. É consciência. E quando os partidos se afastam dos princípios que dizem defender, a coerência não está em ficar. Está em sair. Quanto ao próximo passo: surpresa!
Tem sido um rosto contra o wokismo. Estaremos a viver uma ditadura do pensamento?
Ditamole ou demodura, conforme os dias. A linguagem é a casa do pensamento e estas pulsões totalitárias, no fundo, querem controlar o que pensamos e como nos comportamos, através de uma pseudo- superioridade moral e social. Funciona por intimidação difusa, censura reputacional, e uma vigilância constante do discurso. O paradoxo é fascinante: em nome da inclusão, produz-se exclusão; em nome da liberdade, restringe-se o pensamento. É o neófito puritanismo – só que com melhor marketing.
A Ordem dos Psicólogos abriu-lhe algum ‘processo disciplinar’ por a Joana a ter atacado na história das questões de género?
Sim, abriu. E apenas porque eu disse que a esfera das mulheres (desporto, cargos públicos dos direitos femininos, etc) devem ser apenas de mulheres biológicas XX. Quando uma ordem profissional se transforma num aparelho de regulação ideológica, deixa de cumprir a sua função científica e deontológica para passar a exercer uma função persecutória. Não fui alvo de um processo por má prática clínica. Não por violação ética. Mas por delito de opinião!
É extraordinário: durante décadas, a psicologia lutou para se afirmar como campo científico, livre de dogmas, chão do pensamento crítico e dos livres pensadores. E agora assiste-se à tentação de a reduzir a uma ortodoxia catequética. Quem não responde a argumentos… regula. Quem não convence… sanciona. Não é ciência. São tiques de poder – e, em certa medida, de fragilidade. Aliás, basta ver as poucas vergonhas que se têm passado com a sua presidência.
O Comité Olímpico vai proibir os trans de concorrerem na categoria feminina, o que tem irritado algumas mentes. O que acha das críticas a essa decisão do COI?
Acho que cada macaco no seu galho. Durante décadas, as mulheres lutaram por espaços protegidos. Prisões femininas, balneários separados, abrigos para vítimas de violência. Não por capricho, mas porque as diferenças físicas e cerebrais entre homens e mulheres existem e têm consequências muito concretas. Nestes últimos anos, porém, surgiram novos ataques às mulheres. Baseiam-se na fantasia de que basta uma declaração de identidade para alterar categorias biológicas: presos a dizerem que são presas, atletas biologicamente masculinos a dominar competições femininas, homens a entrar em balneários destinados a mulheres, quotas políticas criadas para aumentar a representação feminina ocupadas por pessoas que nasceram homens. Em Portugal, já nem são seguras alas para mães com os seus bebés porque metem lá homens biológicos violentos. Finamente, o Comité Olímpico deixou-se de delírios. Respeito por todas as pessoas. Mas não venham para cima das mulheres só porque são desportistas medíocres nas competições masculinas. Se quiserem criem a sua própria categoria, vulgo galho.
Teve experiências no cinema e no teatro. Pensa repeti-las?
Também já escrevi uma dezena de livros, fiz mestrados, doutoramentos e pós doutoramentos. Tenho um casamento feliz, três filhos e dois rafeiros, treino 10 horas por semana, tenho agora em mãos um projecto ambicioso. Mais arte e mais política? Sempre achei a vida curta demais e demasiado longa para fazer sempre a mesma coisa. Também acredito no valor insubstituível da experiência humana. Continuarei a busca.
Alguma vez voltou à terra onde nasceu, Luanda? Se sim, o que sentiu?
Podemos viver 100 anos que a nossa infância, que dura apenas 10, será sempre a fase mais longa das nossas vidas. Voltar a casa é sempre a melhor viagem de todas.