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Quando André Ventura apareceu no domingo de Páscoa com um hematoma carregado no olho esquerdo, a explicação que deu foi curta: «um pequeno contratempo». O silêncio sobre os detalhes foi suficiente para desencadear o que sempre acontece quando uma figura pública surge com o olho negro sem explicação convincente: o ressurgimento de uma das teorias da conspiração mais persistentes da internet.
Chama-se Black Eye Club. Em português, clube do olho negro. E, segundo quem acredita nela, André Ventura acaba de se tornar o mais recente membro.
O que é, afinal, o clube do olho negro
A teoria surgiu em comunidades de internet anglófonas, em fóruns como o Reddit e mais tarde no X/Twitter, e assenta numa premissa simples: o aparecimento de figuras poderosas (políticos, celebridades, empresários, líderes religiosos) com um hematoma no olho esquerdo não é coincidência. Seria, pelo contrário, a marca visível de um ritual de iniciação numa sociedade secreta de alcance global.
De acordo com a narrativa, qualquer pessoa que queira aceder aos círculos mais elevados do poder mundial teria de passar por esse processo, uma espécie de «preço de entrada» que ficaria registado no rosto durante alguns dias, à vista de todos. O olho esquerdo seria o escolhido por razões simbólicas ligadas ao ocultismo.
Os Illuminati, o Olho de Hórus e o poder oculto
A teoria bebe de referências que os adeptos das conspirações conhecem bem. O principal enquadramento é o dos Illuminati, a suposta organização secreta que controlaria governos, economia e meios de comunicação social em todo o mundo. O olho negro seria, assim, uma forma de os iniciados se identificarem publicamente sem o dizer abertamente.
O simbolismo vai buscar referências ao Olho de Hórus, da mitologia egípcia, que representa proteção e poder divino, e ao chamado Olho da Providência, o olho inserido numa pirâmide que figura na nota de dólar norte-americana e que é frequentemente associado, nas teorias conspiracionistas, aos Illuminati e à elite global.
A lista de alegados membros é longa e improvável
O «clube» acumula uma lista de membros que mistura nomes de espetros políticos, religiosos e culturais completamente opostos, o que por si só deveria levantar questões a qualquer observador atento.
George Bush, Papa Francisco, Kanye West, Lady Gaga, Adam Sandler e Elon Musk são alguns dos nomes mais citados. Em maio de 2025, quando Musk apareceu de olho roxo numa conferência de imprensa na Casa Branca ao lado de Donald Trump, a teoria ressurgiu com força total. O próprio Musk explicou que o filho de cinco anos lhe tinha dado um soco numa brincadeira. Para os céticos, foi apenas mais uma «desculpa conveniente». O Papa Francisco disse que bateu com o rosto ao entrar no papamóvel. Harry Reid, antigo líder da maioria no Senado norte-americano, sofreu uma queda enquanto se exercitava. Para quem acredita na teoria, estas explicações são precisamente isso: explicações fabricadas.
As versões mais extremas: almas roubadas e répteis extraterrestres
Como acontece com a maioria das teorias da conspiração, o Black Eye Club tem ramificações que se tornam progressivamente mais elaboradas. Uma das vertentes mais radicais envolve um processo designado «escalpelamento de almas»: a alma humana seria retirada do corpo da celebridade ou político através dos olhos, sendo substituída por uma entidade reptiliana ou extraterrestre, tornando o indivíduo num fantoche ao serviço de forças ocultas.
Outras variantes apontam para abduções alienígenas como origem dos hematomas, enquanto versões mais «moderadas» se limitam a associar o fenómeno a rituais de submissão dentro de sociedades secretas como a Maçonaria ou o Skull and Bones, a fraternidade da Universidade de Yale à qual pertenceram vários presidentes norte-americanos.
Porque é que estas teorias persistem
A psicologia por detrás do fenómeno é mais simples do que parece. O cérebro humano está biologicamente programado para identificar padrões, mesmo onde não existem. Quando várias figuras públicas aparecem com o mesmo tipo de lesão ao longo de meses ou anos, a tendência natural é procurar uma ligação. As redes sociais amplificam esse processo porque filtram e agregam os casos que confirmam a narrativa, ignorando os milhares de pessoas anónimas que surgem diariamente com olhos negros sem que ninguém veja nisso qualquer significado.
O que dizem os factos
Não existe qualquer evidência que suporte a existência do Black Eye Club enquanto organização real. Os casos mais citados têm explicações médicas, desportivas ou acidentais verificáveis. Os hematomas periorbitais, nome clínico para o olho negro, são uma das lesões mais comuns em adultos e resultam de causas tão prosaicas como uma queda, um procedimento cirúrgico, uma sinusite severa ou um simples embate acidental.
Quanto a André Ventura, a causa continua por revelar. O líder do Chega não prestou mais esclarecimentos além do vago «contratempo» referido no vídeo que publicou nas redes sociais no domingo de Páscoa. Se foi um acidente, uma queda ou outra coisa qualquer, só ele sabe. O que é certo é que, enquanto não falar, o clube do olho negro continuará a ter um novo alegado membro português.