Janala (janela), chabi (chave), balti (balde), almari (armário), baranda (varanda) ou saban (sabão) são apenas alguns dos vocábulos semelhantes entre o português e o bengali. Foi no século XVI, em plena época dos Descobrimentos, que os portugueses chegaram ao território de Bengala, atracando no porto de Chittagong. Por ali permaneceram e deixaram vestígios, não só na língua, mas também na arquitetura e na culinária. Aliás, o primeiro homem a escrever uma gramática bengali foi frade agostinho Manoel de Assumpção, já no século XVII. A obra, intitulada ‘Vocabulario em idioma Bengalla e Portuguez”, foi publicada em 1743.
Farid Patwary, 42 anos, jornalista bengali imigrante em Portugal, conhece bem a ligação entre os dois países. Por aqui, começou por investir num supermercado, mas o negócio não vingou. Tornou-se cozinheiro e hoje é tradutor e membro da associação Solidariedade Imigrante. O jornalismo continua, nas horas vagas, como correspondente de um jornal do Bangladesh, mas também com uma página de Facebook, para levar notícias gratuitas aos compatriotas residentes no nosso país. «Existe uma grande ligação entre o português e o bengali. O facto de a primeira gramática bengali ter sido escrita por um português demonstra bem essa ligação. Algumas pessoas dizem que há mais de 100 palavras portuguesas no bengali. Falamos igual!».
Na cozinha, os aromas das especiarias – que os portugueses trouxeram daquela região asiática – e as maneiras de confecionar os alimentos também se assemelham. «Não havia batatas no Bangladesh, foram os portugueses que as introduziram. E de lá trouxeram ingredientes como o arroz. A maneira de cozinhar é completamente igual, aqui e no Bangladesh: também temos o refogado, assado, grelhado. As diferenças estão no facto de os muçulmanos não comerem porco e os hindus não comerem vaca», revela Farid que, a viver há 11 anos em Portugal, tem dupla nacionalidade: bengali e portuguesa.
Do Bangladesh recorda outras influências portuguesas. «Há vários monumentos, do século XVI e XVII, como igrejas. Há um cemitério português e quase 500 famílias descendentes de portugueses. Chittagong, a nossa segunda cidade, foi batizada pelos portugueses de Porto Grande», revela, sem deixar de fazer referência à coincidência de cores entre as bandeiras dos dois países: verde e encarnado.
UM ARRANQUE DIFÍCIL
Farid Patway chegou a Portugal em 2015 para umas férias. «Vim com a minha mulher e a minha filha mais velha. Eram só férias, mas acabaram por se tornar muito longas», brinca. «Gostei muito de Lisboa. Sonhava com uma cidade perto do mar. Quem vive em Lisboa muitas vezes nem sabe o valor que a cidade tem. Depois de viajarmos do outro lado do mundo conseguimos reconhecer isso. A temperatura, a natureza, e, mais importante, as pessoas: é uma cidade muito acolhedora. Foi quando pensei que podia começar a minha vida cá e decidi ficar».
O jornalista acabou por ter as mesmas dificuldades que outros imigrantes do seu país. A primeira barreira foi a do trabalho. Apesar de ser qualificado teve de arranjar modo de sustentar-se numa área diferente da sua. «A vida não é fácil e a de um imigrante é ainda mais difícil. Comecei com um supermercado mas perdi o negócio. Então, surgiu uma oportunidade na cozinha e foi uma surpresa! Quando comecei era só para ajudar durante 15 dias mas acabei por ficar porque o chefe gostou do meu trabalho. O restaurante era no Bairro Alto. Depois trabalhei no Clube do Fado onde ainda gostei mais do ambiente, do chefe e dos meus colegas. Foi assim que comecei a minha vida por cá».
Em 2023, Farid mudou-se para o aeroporto de Lisboa, também como cozinheiro. Pouco depois, conseguiu colocação como tradutor e interprete. «Sou freelancer, trabalho com várias instituições». O jornalismo continua. «Aqui em Portugal trabalho de forma gratuita, para poder dar notícias aos meus compatriotas. Tenho uma página de Facebook, o ‘Portugal Today’, e também uso o Youtube».
O jornalista garante que não escolheu Portugal por razões económicas. «Todos pensam que os bengalis são pessoal do povo, aquele pessoal que não tem nível de vida, mas isso não é verdade. Há dois tipos de imigração. Há os que estudaram, têm nível de vida ou a família tem dinheiro. No meu caso, ganhava muito bem no Bangladesh porque trabalhava para uma grande empresa imobiliária. Mas apaixonei-me por este país».
‘ANIMAL’ E ‘PORCO’
Quando Farid chegou garante que ainda não se fazia sentir, como hoje, o discurso de ódio e xenofobia bastante visível sobretudo nas redes sociais. O cartaz de André Ventura, presidente do partido Chega, para as presidenciais, com a frase ‘Isto não é o Bangladesh’ também chocou, de acordo com o seu relato, a comunidade bengali. «Sinto tristeza e temos de lutar contra isso», assegura o imigrante bengali.
O jornalista enfatiza: «Eu agora também sou português. Para mim há três coisas muito importantes: a minha família, Portugal e o Bangladesh», refere o imigrante que já foi alvo de insultos por ser bengali. «Em todas as redes sociais estão sempre a insultar-me. Chamam-me animal, porco. E sei de outras pessoas que também já foram insultadas, nas redes ou na rua. No meu caso, consigo enfrentar quem me insulta. Na rua, deixo a pessoa a falar sozinha. E também já testemunhei casos de outros imigrantes a serem maltratados».
Mesmo assim, o bengali consegue manter a tolerância. «Não podemos dizer que todos os portugueses são maus. Para mim, os portugueses são uma nação orgulhosa. Esse tipo de políticos, com este populismo, é que mudaram a mentalidade de muita gente».
Farid Patway recorda o difícil percurso para conseguir legalizar-se em Portugal. «Sofri muito para receber o título de residência. Tenho visto, estou dentro da lei, cumpro a lei. As minhas filhas andam na escola. Eu estou a trabalhar e a contribuir para Portugal. E não vim por dinheiro, porque se pensasse nisso estava no Bangladesh onde, em 2015, já ganhava três mil euros por mês. Portanto, não foi o dinheiro que me trouxe aqui. Eu gosto, sinceramente, de Portugal. Apesar de tudo é um país muito tranquilo. Há muita qualidade de vida», garante o imigrante, que entretanto já foi pai, pela segunda vez, em Portugal.
No Bangladesh, a trabalhar no setor imobiliário, mal tinha tempo para a primeira filha. «Saía às oito da manhã e chegava a casa às 11 da noite. Ela estava sempre a dormir quando eu chegava. Falávamos por videochamada, no Skype. Agora não, é totalmente diferente, consigo ter tempo para a minha mulher e para as minhas filhas. A mais velha, que veio connosco nas férias em 2015, já tem 13 anos. A mais nova, que já nasceu em Portugal, tem oito», orgulha-se. A mulher de Farid faz parte da BANDIM, uma associação de 90 mulheres imigrantes, de 21 nacionalidades, que se dedicam a fazer trabalhos de costura e artesanato.
O jornalista mantém casa em Dhaka, a capital do Bangladesh, onde também ficou a família. Porém, não pensa voltar ao país de origem. «Não me arrependo de ter vindo para cá. Acredito que tudo o que se está a passar em Portugal, ao nível político e social, é temporário. Algum dia isto vai passar. Eu quero muito acreditar nisso».
AGRESSÕES FÍSICAS
Quem também quer acreditar nisso é Farhana Akter, 43 anos, mediadora sociocultural. «O racismo, o discurso de ódio, a propaganda, claro que tudo isso me incomoda», avança a bengali, que trabalha na Associação Renovar a Mouraria. «Acho que causa medo a ambos os lados: à comunidade anfitriã e à comunidade imigrante. Quando cheguei, em 2020, foi quando este movimento começou. Surgiu lentamente mas, de repente, mais recentemente, tornou-se muito rápido. Não nos podemos esquecer que o Chega é o segundo partido no Parlamento português», realça Farhana, que veio sozinha para Portugal.
«Eles [extrema-direita] trabalharam nisso por muito tempo para agora, politicamente, termos esta situação», observa a imigrante bengali. «Na verdade, socialmente temos problemas, apesar de eu nunca ter enfrentado nada desse género», garante. Mas há casos que ficam a burilar na cabeça. «Posso dar-lhe um exemplo: a senhora do café que eu frequento quase todos os dias, de repente, começou a dizer-me que as rendas da casa estavam a subir por causa dos imigrantes. Ela também está a sofrer com o contexto atual, mas este tipo de discurso deixa-nos exaustos».
A mediadora sociocultural, que apesar de ser muçulmana não usa o tradicional véu hijab, lembra-se, também, de um caso de discriminação. «Conheço outra senhora bengali que trabalha numa ONG. Ela cobre-se totalmente, sempre a vi assim. E um dia contou-me que lhe deram um empurrão, puxaram o hijab, ameaçaram-na e disseram-lhe para se ir embora para a terra dela, caso contrário teria problemas. Isto é uma ameaça!».
A mesma conhecida de Farhana terá tido, também, segundo o seu relato, problemas nos transportes públicos. «Noutra ocasião não a deixaram entrar no autocarro com as filhas. O motorista alegou que sem se ver a cara não podiam deixá-la entrar. Ela estava a regressar a casa, por volta das sete, mas era inverno e ela ficou na paragem à chuva, à espera de outro autocarro, até conseguir transporte».
Recentemente, na manhã de 24 de abril, aconteceu um episódio semelhante, em Lisboa. Mim Akter, de 26 anos, também bengali, regressava a casa depois de ter deixado os filhos na escola, junto ao Castelo de São Jorge. A mulher usava hijab e tinha uma máscara cirúrgica. Garantiu que se sentia mais descansada com a máscara, que usava sempre desde a pandemia de Covid 19. O motorista não ficou satisfeito com a explicação e, mesmo após Mim ter mostrado o rosto, não a deixou entrar no autocarro. O caso originou um processo interno na Carris e uma queixa na PSP.
Mesmo assim, Farhana, tal como Farid, não conta regressar ao Bangladesh. «Aqui todos me conhecem pelo que eu sou. No Bangladesh conhecem-me pelo meu pai, pelos membros da minha família. Aqui as pessoas conhecem a Farhana e o seu trabalho e isso faz-me sentir valorizada. E também não quero mudar-me para outro país europeu porque construí aqui a minha comunidade. Quero ficar em Portugal».
Os longos cabelos de Farhana estão impecavelmente penteados e soltos. «No Bangladesh algumas mulheres usam, outras não. O país está muito ocidentalizado. Muitos estudantes têm educação internacional. Eu não uso porque não gosto e a minha família nunca me ensinou a fazê-lo. É opcional», explica. «Prefiro não me expor com um código de vestimenta religioso. Prefiro usar um código cultural e a minha cultura é bengali e inclui todas as religiões: muçulmanos, hindus e cristãos. No Bangladesh, todas as religiões são bengalis», resume.
NEGÓCIOS SÃO SINAL DE SUCESSO
José Mapril, antropólogo e autor da tese de doutoramento ‘A “Modernidade” do Sacrifício Qurban, Lugares e Circuitos Transnacionais entre Bangladeshis em Lisboa’, conta à VERSA quando é que os bengalis começaram a chegar a Portugal. E não é de hoje. «A migração começa no final dos anos 80, início dos anos 90. Portugal, tal como Espanha, Itália e Grécia, sofre uma transformação significativa face às migrações globais, em virtude da sua integração europeia».
Ao chegarem, os primeiros bengalis instalam-se nos grandes centros urbanos, sobretudo em Lisboa. «É uma migração que vai crescendo ao longo da década de 90 e, no fundo, se vai sedimentando nas décadas seguintes. É uma migração em cadeia, com base em laços regionais e familiares. Primeiro vieram sobretudo homens, foram-se estabelecendo, foram ficando e reunificando as suas famílias», explica o professor da Universidade Nova de Lisboa.
Os bengalis eram, e continuam a ser em muitos casos, pessoas altamente qualificadas. «Há jornalistas, como o Farid, cientistas políticos, químicos. É uma migração com capital educacional e que tem um conjunto de expectativas e de aspirações face à sua vida, enquanto indivíduos e coletivo».
Os primeiros começaram por trabalhar na construção civil e também como vendedores ambulantes, em feiras. Poucos conseguiram colocação nas suas áreas de estudo. «Tenho o caso de um designer gráfico que enviou centenas de currículos e nunca foi chamado para uma entrevista».
Mas isto foi ultrapassado pelos negócios que conseguiram iniciar e consolidar no nosso país. «Para eles, conseguirem estabelecer-se com o seu próprio negócio é furar a bolha. Ser o seu próprio patrão é um sinal de êxito». É assim que começam a surgir as primeiras mercearias de bairro. Mais tarde o comércio grossista. No pós-Troika outros negócios, como as lojas de souvenirs, abertas em espaços que estavam abandonados devido a outros negócios falhados, muitos de portugueses. «Havia muitos espaços vazios, abandonados, na Baixa de Lisboa, que permitiam o desenvolvimento deste tipo de negócios».
Mais tarde abriram restaurantes «também virados para o turismo». Recentemente, os bengalis que chegam a Portugal encontram as primeiras oportunidades, muitas vezes, nas plataformas digitais, como entregadores de encomendas. Outros vão-se estabelecendo como empresários de TVDE. Quando conseguem juntar dinheiro, de acordo com o relato do professor José Mapril, compram casa própria mas «não são investidores».
OS NOVOS PORTUGUESES
Atualmente, os filhos dos primeiros imigrantes bengalis, já nascidos em Portugal, foram subindo no elevador social. «Muitos estudaram até tarde, fizeram cursos universitários. Há advogados, gestores de empresas, mas também há comerciantes, pessoas que mantiveram a atividade comercial, e há doutorados em várias áreas do conhecimento. Esta geração que tem, hoje, 25, 30 anos, estão bastante bem enquadrados no mercado de trabalho, constituíram família, casaram e alguns já têm filhos», descreve Mapril.
A comunidade bengali é aberta à sociedade e José Mapril dá conta de casamentos entre bengalis e nacionais de outros países. «Por exemplo, conheço um homem que casou com uma senhora colombiana, aqui em Portugal. É uma população que ajudou muito e tem contribuído imensamente para a transformação do tecido económico, social e cultural das cidades portuguesas».
O próprio comércio dos bengalis «não é exclusivamente dirigido aos conterrâneos do Bangladesh. É um comércio que se dirige a toda a gente. Ao mesmo tempo, a geração mais velha, os primeiros que chegaram – e mesmo aqueles que chegaram a partir de 2015, 2014 – há muitas pessoas muito ligadas à sociedade portuguesa a vários níveis. O Farid é um bom exemplo. Há pessoas que colaboram frequentemente com as instituições portuguesas», resume o antropólogo.
José Mapril aproveita para dar um exemplo: «Há bengladeshianos que criaram associações culturais que dinamizam uma série de atividades de interlocução com a sociedade portuguesa. Um exemplo seria a Associação de Amizade Portugal-Bangladesh, que é uma associação criada por um grupo de empresários do Bangladesh, que reúne uma série de figuras mais estabelecidas em Portugal, mas que tem como objetivo a organização de eventos culturais de ligação com a sociedade portuguesa».
A ligação entre bengalis e portugueses vai, de acordo com o relato do antropólogo, ainda mais longe. «Têm ligação à Comunidade Islâmica de Lisboa, às principais vozes do Islão português em Portugal. Têm ligações a vários partidos políticos em Portugal, tanto à Esquerda como à Direita».
No entanto, também José Mapril não esconde os problemas que estes imigrantes enfrentam, no Portugal de hoje. «Devido ao ambiente hostil, ao discurso de ódio, há pessoas que sentem receio nas coisas mais banais do quotidiano, como sair à rua ou ir ao supermercado. Têm medo de agressões verbais ou de serem agredidas na rua. Passaram a ter medo de andar de transportes públicos, porque já foram lá insultadas. Posso dizer-vos que conheço uma pessoa a quem cuspiram por estar a usar um lenço na cabeça. Há pessoas que foram ameaçadas no metro. As histórias são infindáveis», assume Mapril que reconhece que «o discurso de ódio se tem traduzido num aumento das agressões a estas populações, ou a pessoas que são vistas como sendo destas populações».
O antropólogo dá também o exemplo do cartaz do Chega e das suas repercussões. «Há um aumento do discurso de ódio, da xenofobia, a ideia de que a migração do Bangladesh é um problema e que até aparece visível em cartazes na rua, que dizem que ‘Isto não é o Bangladesh’. Todo este tipo de coisas transforma os bengalis em alvos de todo o tipo de agressões. E isto é um fenómeno que tem crescido exponencialmente. Os exemplos que vos estou a dar não são fruto da minha imaginação», remata o académico.