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O coordenador em Portugal do projeto europeu FAMA alertou esta quarta-feira que a crescente capacidade da Inteligência Artificial (IA) para criar conteúdos falsos está a agravar um cenário de “sobreinformação”, dificultando a distinção entre conteúdos credíveis e manipulados.
“Combater a desinformação exige mais do que verificar factos. Exige formar cidadãos críticos, conscientes e capazes de compreender os mecanismos invisíveis que moldam a informação que consomem”, afirmou Tiago Lapa.
O investigador do CIES-Iscte, citado pela agência Lusa, considerou que a IA e os algoritmos aumentaram “a velocidade, a sofisticação e a escala da desinformação”.
“Hoje é possível criar conteúdos falsos muito convincentes em texto, imagem, áudio ou vídeo, e disseminá-los de forma extremamente rápida através das plataformas digitais”, salientou.
Apesar disso, Tiago Lapa defendeu que o combate à desinformação deve centrar-se sobretudo nas pessoas e na educação digital, e não apenas na tecnologia.
Segundo o responsável, o objetivo do projeto FAMA passa por promover programas de literacia mediática e digital que ajudem os cidadãos a compreender o funcionamento dos algoritmos, das plataformas digitais e dos mecanismos cognitivos associados à manipulação da informação.
“Acreditamos que quando as pessoas compreendem melhor o ecossistema digital onde circula e é produzida a informação, tornam-se mais críticas, mais autónomas e mais resistentes à manipulação”, explicou.
O investigador alertou ainda para o fenómeno da “sobreinformação”, caracterizado pelo excesso de conteúdos no ambiente digital.
“O principal problema já não é apenas a existência de informação falsa, mas sobretudo a enorme abundância e velocidade de circulação de conteúdos”, afirmou.
Na sua perspetiva, a IA agravou esse fenómeno ao permitir criar conteúdos “cada vez mais sofisticados, personalizados e difíceis de distinguir da realidade”.
Tiago Lapa considera que o maior risco da desinformação reside na erosão da confiança pública em instituições, especialistas, meios de comunicação social e até na própria ideia de verdade partilhada.
“Quando os cidadãos passam a viver num ambiente marcado pela dúvida permanente e pela sensação de que ‘já não se pode acreditar em nada’, cria-se um terreno vulnerável à manipulação, ao extremismo e à radicalização”, defendeu.
O investigador criticou ainda o modelo de funcionamento das plataformas digitais, argumentando que tendem a privilegiar conteúdos mais emocionais, polarizadores ou sensacionalistas por gerarem maior interação e tempo de permanência ‘online’.
Sobre a resposta europeia, Tiago Lapa destacou iniciativas da União Europeia como o Digital Services Act e o Digital Markets Act, embora considere que a velocidade da transformação tecnológica continua a superar a capacidade de regulação.
O projeto FAMA arrancou oficialmente esta quarta-feira em Portugal com o seminário “Desinformação na Nova Era Digital”, realizado no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
Financiada pela União Europeia, a iniciativa junta parceiros de Portugal, Itália e Grécia e prevê a realização de ‘workshops’, ‘webinars’, debates públicos e uma conferência final nos três países participantes.