Estava numa esplanada com a sua mãe, quando uma senhora – que a observava há algum tempo –, lhe pediu para se levantar para olhar melhor para si. Acabou por entrar assim no universo da moda. Para uma menina de 14 anos, o que é que isso significou?
Na altura foi motivo de muita vergonha! Nunca quis ser modelo e não era muito feminina... Era mesmo uma “maria-rapaz” e muito tímida também. Portanto, para mim, era um sacrifício... Mas ainda bem que a minha mãe insistiu, e a agência não desistiu!
Atualmente fala muito sobre a pressão que as mulheres carregam… A imagem, o envelhecimento… De que forma lidou com isso ao longo da carreira? E hoje?
Acho que vivemos numa sociedade que é muito cruel com as mulheres. Há uma pressão gigante para ser bonita, nova, magra, e quem foge a estes padrões está sempre a ir atrás deles. É uma luta inglória. Nunca me achei bonita. Sei que tenho uns olhos bonitos porque toda a gente me diz, mas sempre tive uma autoestima fraquinha. Ao longo dos anos fui aprendendo a gostar de mim e a olhar para as mulheres como seres lindos. Tenham rugas ou celulite.
A sua booker sugeriu depois que tirasse um curso de atriz. Os castings não correram bem, mas antes de ir embora, pediram-lhe que fizesse um exercício de improvisação com uma cadeira amarela. Foi um sucesso, e foi a primeira vez que sentiu o bichinho pela representação… O que é que a atraiu?
Até hoje não sei bem explicar, mas é uma sensação que tenho sempre que represento. Quase como um escape... Uma fuga a mim e à minha timidez. Quando estou a fazer uma personagem não sou eu. Todos os dias são diferentes e todas as personagens me ensinam alguma coisa.
Começou rapidamente a explorar o humor. Já disse noutras entrevistas que, no primeiro curso que fez, os exercícios iam sempre para esse caminho… Sempre foi uma pessoa bem disposta?
Sou bem disposta por norma, sim! Venho de uma família com grande sentido de humor, em que fazemos muito bullying uns aos outros de forma saudável. Para mim é muito importante não nos levarmos demasiado a sério. As pessoas que se levam muito a sério são uma seca.
A personagem, Lucinda, que fez nos ‘Batanetes’, marcou uma geração. Já disse que se divertiu muito, que ganhou muito bem, que fez amigos para a vida, mas que ninguém queria fazê-la. Era muito arriscado… Sentiu que ficou de alguma forma rotulada? As coisas já estão a mudar um bocado nesse sentido?
Fiquei rotulada, sim! O mercado mudou muito desde então. E agora, com o digital, parece que tudo é possível. Mas passei por muitos desafios no início... Não me levavam muito a sério e eu era muito fraquinha também!(risos) Curiosamente, acho que fiz muito bem essa personagem. E não há um dia que não me falem dela.
Que desafios encontrou nos primeiros anos da profissão? Sempre apostou muito na formação. Chegou mesmo a ir para a terapia da fala para limpar o seu sotaque ‘beto’ com medo que isso a castrasse enquanto atriz, por exemplo…
Sou muito competitiva, principalmente comigo própria. Gosto de bater recordes e tudo aquilo que me dizem que não consigo é o que eu vou fazer. Seja deixar de falar à beta, cantar, fazer teatro... Sempre olhei para o futuro com muita pica. ‘Vou conseguir chegar ali’. Tenho muito orgulho de estar onde estou... Deu muito trabalho.
O que recorda da infância? A sua mãe já disse que era uma criança muito sossegada e que, às vezes, tinha de ir ao quarto ver se estava viva… Mas adorava saltar muros e andar de patins…
A fase dos muros e patins foi mais na adolescência (risos). Também queria ir para a tropa. Acho que parte era para chamar a atenção e a outra parte era rebeldia pura. Mas as minhas recordações são maravilhosas. Sempre com os meus irmãos, a casa da minha mãe cheia de amigos... Às vezes éramos 15 a dormir lá. Havia sempre lugar para mais um. Sempre tive liberdade e sempre fui responsável. Tive uma infância feliz. Tirando o divórcio dos meus pais, nada de grave aconteceu.
Como é que a família viu a escolha de profissão? Quando frequentava o 9º ano e fez os testes psicotécnicos revelou apetência para o teatro…
Acho que foi uma surpresa para todos! (risos) Mas ninguém me tentou demover.
Também nunca teve muita dificuldade em mudar de look e a ser mais irreverente…
Adoro (risos). Adoro mudar para vestir uma personagem. Ajuda-me na construção e é divertido na vida pessoal. Consigo olhar para fotos antigas e saber exatamente o ano pelo cabelo com que estou. Já tive de tudo.
Diz gostar do caos da cidade. Também tem uma casa no Alentejo… Precisa dos dois? Encontra-se nesses dois lugares?
Não só preciso do campo como vou acabar a viver no campo. Mais uns oito anos de cidade e estou pronta para ir ter uma horta e galinhas. (risos) Sempre gostei de viver em Lisboa, é a cidade mais bonita do mundo, mas cada vez mais tenho a necessidade de viver mais devagar. Ler, dormir sestas, passear na natureza... Talvez esteja a envelhecer e seja o rumo normal.
‘Uma Aventura’, o ‘Teorema de Pitágoras’, ‘O Bairro da Fonte’, ‘Morangos com Açúcar’, ‘Doce Fugitiva’… Rapidamente começou a ter mais e mais papéis, e ficar cada vez mais conhecida… Não gosta de exposição e também já admitiu que, no princípio, sofreu um bocadinho com isso. É o pior lado do meio artístico?
Acho que ninguém está preparado para essa exposição quando se é novo e não se sabe bem se é aquilo que queremos. Na altura os Media eram muito mais agressivos e eu sofria muito com isso. Mas nunca me incomodaram as abordagens das pessoas na rua. Adoro, e faço questão de ser simpática. Claro que tenho dias maus, mas tento sempre tratar bem toda a gente.
Faz também muito teatro, e também a vemos nos grandes ecrãs. O que é que vai buscar a cada um desses «lugares»? Considera-se uma atriz cada vez mais versátil?
Acho estranho ser eu a responder a essa questão (risos). Sei que continuo a querer provar a mim mesma que consigo fazer tudo. E isso implica alguma versatilidade porque são linguagens muito diferentes. Mas às vezes corre mal.
As novelas continuam a ser, por vezes, vistas com preconceito em certos meios. Como olha para essa questão? Acredita que a rapidez de produção das novelas tornou-a uma atriz mais intuitiva?
Sinto que as pessoas não têm a noção da dificuldade que é fazer uma novela. E por isso têm tendência a diminui-la. É muito difícil fazer bem. E depois não há mal nenhum em apontar a diferença entre entretenimento e arte. Eu quero fazer os dois portanto não tenho preconceitos. Acho muito redutor ser preconceituoso.
Como é que se dão os seus processos criativos e o encontro com as suas personagens? Tem algum método?
Gosto muito de fazer longas caminhadas a pensar em como vou fazer. Atribuir um disco à personagem. Aprender a fazer alguma coisa que a personagem faça. E muita coisa encontro no plateau.
Qual a relação que tem com elas? Consegue libertar-se facilmente?
Completamente. No dia em que acabo, morrem para mim. Vivo intensamente com elas e depois digo-lhes adeus. É bastante saudável.
Como protege a sua saúde emocional quando trabalha personagens mais intensas?
Aviso as minhas pessoas que preciso de mimos, que estou frágil ou cansada e durmo mais. Faço uma vida mais saudável.
Houve alguma personagem que mais a surpreendeu durante o processo? Que mais tenha gostado de interpretar? Porquê?
Não consigo escolher uma! (risos) Todas elas me trouxeram coisas lindas.
O que a assusta mais hoje do que a assustava há dez anos?
A inteligência artificial e a forma como isso nos pode estupidificar.
Como recebeu o convite para ser a protagonista da novela ‘A Madrasta’? O que é que mais a cativou na história?
O facto de ser um policial. E adoro a personagem, porque é uma protagonista, mas com uma vingança.
Como foi o encontro com a Diana? O que é que está a ser mais desafiante?
O mais desafiante foi a carga horária e o facto de não ter um núcleo fixo. É uma personagem muito solitária e isso refletiu-se também a nível social. Não tinha muito tempo para conviver com os meus colegas. E tenho pena. Mas gostei muito de fazer a Diana.
Também tem um curso de realização, mas não é uma área que tenha explorado muito. Porquê?
Síndrome de impostor. Acho que vai ser uma porcaria! (risos)
Como olha para o futuro?
Com esperança! Quero ver o meu filho a transformar-se num homem bom enquanto dou nomes às galinhas! (risos) Quero ter a minha família e espalhar amor!