quinta-feira, 11 jun. 2026

Igreja expulsa padre, mas poupa arcebispo

O acontecimento é inédito: Albino Meireles é o 1.º padre de Braga a ser expulso pelo Vaticano por prática de abusos sexuais. Jorge Ortiga, o arcebispo que o encobriu, escapou a qualquer sanção.
Igreja expulsa padre, mas poupa arcebispo

A decisão é definitiva, uma vez que o antigo padre, condenado em novembro de 2025, em tribunal civil, a dois anos e dez meses de prisão por abuso sexual de três menores e um crime de pornografia infantil, nem apresentou recurso da decisão – apurou o Nascer do SOL.

A sua implicação nestes crimes tinha sido revelada por uma reportagem do SOL, em setembro de 2022. A mãe de três das vítimas havia denunciado, em 2019, os abusos do padre aos seus filhos. A denúncia fora feita ao então arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, que a terá ignorado. Só três anos depois, a dias de ser substituído por José Cordeiro, é que o arcebispo chamou a mulher para lhe fazer uma proposta sui generis: «Queria que eu dissesse, no caso de alguém me questionar, que sempre tinha tido o seu apoio, o que não é verdade».

A mulher, ignorada pela Igreja, não baixou os braços, levou a cabo uma investigação por conta própria e descobriu outra vítima numa das paróquias minhotas por onde o sacerdote passara. O silêncio de Jorge Ortiga permitiu que, pelo menos durante três anos, Albino Meireles desse continuidade aos seus crimes. Só com a chegada de José Cordeiro o caso de Albino Meireles ganhou outro fôlego. O sucessor de Ortiga encaminhou de imediato o caso para o MP e a PJ de Braga desencadeou buscas à casa paroquial onde residia o sacerdote, tendo aí encontrado registos informáticos de conteúdo pornográfico que ligavam Albino Meireles ao outro menor. Mas o rapaz, entretanto, atingira a maioridade e recusou apresentar queixa contra o sacerdote, que acabaria por assumir os abusos, mas passando o ónus para a vítima: «Foi ele que tomou a iniciativa de falar comigo e depois acabámos por nos envolvermos sexualmente».

No comunicado desta semana, a arquidiocese de Braga, que revelou a decisão canónica em relação a Albino Meireles, nada se indica sobre se o seu responsável hierárquico, Jorge Ortiga, que ocultou os seus crimes durante três anos, foi alvo de alguma sanção do Vaticano como tem acontecido noutros países europeus. O SOL colocou a questão ao Núncio Apostólico, Andrés Carrascosa, representante da Santa Sé em Portugal, mas até à hora do fecho desta edição não obteve qualquer resposta.

Colocada a questão ao atual arcebispo de Braga, José Cordeiro, a resposta chegou pelo seu porta-voz: «Relativamente à questão que coloca, a Arquidiocese de Braga reafirma que todas as denúncias relativas a abusos sexuais são tratadas de acordo com a legislação canónica em vigor e em articulação com as autoridades competentes, procurando assegurar o apuramento rigoroso dos factos, o respeito devido às vítimas e o cumprimento dos procedimentos previstos pela Igreja nestas matérias».

No entanto, a 4 de abril de 2023, dois anos após ter tomado posse como arcebispo de Braga, José Cordeiro foi confrontado pelo SOL com o encobrimento destes crimes pelo seu antecessor e foi mais claro: «Em relação a casos em concreto, e como o processo ainda decorre, não lhe posso falar. Mas a Igreja tem de retirar todas as consequências que daí advierem e de ser coerente, ou então não faria sentido».