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A instituição ultra conservadora da Igreja Católica que ameaça desobedecer ao Papa e causar um cisma já na próxima quarta-feira está a crescer em Portugal e acaba de inaugurar uma nova igreja em Lisboa. No passado dia 10 junho, a Fraternidade Sacerdotal Pio X – é assim que se chama a instituição – abriu as portas de uma nova capela em Marvila, onde todos os dias há missas em latim e se reúnem os seguidores de Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que se tornou no símbolo da versão mais tradicionalista da Igreja e que se opõe às reformas do Concílio do Vaticano II.
Só fazem missas em latim, com o padre virado de costas para os fiéis, as mulheres cobrem as cabeça com um véu, preto ou branco, consoante sejam ou não casadas, contestam a abertura da Igreja em vários temas, rejeitam o Concílio do Vaticano II, incluindo a liberdade religiosa e o diálogo inter-religioso, e estão em rutura total com o Papa.
Agora, os lefebvrianos preparam-se para radicalizar as posições e romper com a Santa Sé, tendo anunciado que no dia 1 julho vão consagrar bispos sem autorização de Leão XIV. O que irá obrigar a respostas da Santa Sé que podem passar pela excomunhão, acentuando a divisão dentro da Igreja Católica.
Há poucos dias, o Sumo Pontífice fez um novo apelo à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), para que desistisse da consagração dos bispos, admitindo que as divisões «são dolorosas».
Também em Portugal a questão é vista com preocupação. O bispo auxiliar de Lisboa, D. Alexandre Palma, confessa, numa entrevista à CNN Portugal, que «evidentemente qualquer ordenação episcopal que aconteça por mecanismos paralelos da visível unidade com o Santo Padre é uma dor também para a Igreja, porque a Igreja sente-se com uma ferida nessa sua unidade». Para o bispo, que admite poder assistir-se ao «cavar de uma divisão», o problema está nas mãos dos seguidores de Lefebvre e não de Leão XIV. «A questão agora é saber o que a Fraternidade vai fazer», diz Alexandre Palma, notando que estão previstas «penas canónicas para atos de desobediência ao Papa».
Segundo o especialista em Direito Canónico Saturino Gomes, o cânone 751 é claro quando dá a definição de cisma. «Ocorre quando há recusa de submissão ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos». E a ordenação de bispos sem autorização, acrescenta, é um dos casos a que se destina este artigo do Código de Direito Canónico.
A ideia de que está em causa um cisma foi, aliás, visível no aviso que o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, deu aos responsáveis da Fraternidade quando estes, ao fim de reuniões e tentativas de acordo, anunciaram que vão mesmo consagrar quatro bispos sem terem aval papal. Lembrando que «as ordenações episcopais anunciadas não têm o correspondente mandato pontifício», o cardeal alertou que esse gesto será «um ato cismático» que pode acarretar «a excomunhão» – a pena mais grave, que implica o afastamento da Igreja,
Os membros da Fraternidade dizem ainda acreditar que o Papa possa decidir não os excomungar.
É essa a opinião de Ana Salguero, uma jovem de 22 anos que frequenta a Fraternidade Pio X com toda a sua família desde 2009. «Sinto que a Fraternidade se alinha com a forma como eu vivo a minha vida», diz.
Ana é a única que aceita falar. Todos os outros fiéis recusam falar com jornalistas. Dentro da Igreja, Ana usa sempre um véu branco, adereço das mulheres solteiras que assistem à missa. «Acredito na tradição e não concordo com algumas questões que saíram do Concílio Vaticano II».
A jovem garante que a Fraternidade tem crescido muito em Portugal nos últimos anos, onde tem à frente o padre espanhol Carlos Mestre. «Quando cheguei havia poucas crianças na missa. Hoje em dia já não as consigo contar, pois há muitas famílias com crianças», conta Ana Salguero.
Foi o aumento de fiéis que levou a Fraternidade a inaugurar esta nova capela em Lisboa. A outra igreja, segundo fonte ligada à instituição, era pequena e obrigava a fazer mais do que uma missa aos domingos. Aliás, segundo aquela fonte, a fraternidade em Portugal já pediu aos responsáveis máximos a nível internacional que enviem mais um padre para o país para ajudar os dois que atualmente celebram as cerimónias. Além de Lisboa, há templos no Porto e em Fátima.
Tensão crescente nos últimos anos
A tensão entre a Fraternidade e o Vaticano dura há longos anos. Criada em 1970 por Marcel Lefebvre, a organização sempre assumiu o objetivo de preservar a tradição, seja na formação de padres, seja na forma de dar a missa.
«As tensões entre a Santa Sé e a Fraternidade aumentaram progressivamente durante as décadas de 1970 e 1980. As divergências sobre a interpretação de determinados documentos, especialmente em matérias como a liberdade religiosa, o ecumenismo e a colegialidade episcopal, conduziram a um crescente afastamento», explica Eduardo Almeida, antigo membro da Fraternidade São Pio X e historiador. Notando que «o momento decisivo ocorreu em 1988, quando Dom Marcel Lefebvre, receando que a obra por si fundada pudesse perder continuidade após a sua morte, procedeu à sagração de quatro bispos sem mandato pontifício», Eduardo Almeida diz que tal marcou «profundamente as relações entre Roma e a FSSPX durante décadas».
O historiador explica ainda que «os anos seguintes testemunharam diversas tentativas de aproximação», como a de Bento XVI, que levantou as excomunhões dos quatro bispos, ou as de Francisco, que concedeu à Fraternidade «a possibilidade de administrar o sacramento da confissão e, em determinadas circunstâncias, assistir a matrimónios». Mas, «a questão do estatuto canónico da FSSPX permanece por resolver», sublinha ainda.
Além disso, a morte e a idade avançada dos atuais bispos da Fraternidade terão sido suficientes para voltarem a tentar repetir o que Lefebvre fez em 1988. E o conflito com Roma agudizou-se nos últimos meses, com tentativas de negociação falhadas.
«A FSSPX tem hoje em dia uma presença internacional consolidada», refere Eduardo Almeida. Os números indicam que, além de dois bispos, tem 733 sacerdotes, 265 seminaristas, 145 oblatos e 250 irmãs. Já os lugares de culto serão 798.