quinta-feira, 16 abr. 2026

Igreja Católica em várias frentes de batalha

A proibição do patriarca de Jerusalém de ler a missa num lugar ‘sagrado’ para os católicos foi apenas a última manifestação do divórcio entre o Vaticano e Israel. Alemães aproximam-se do cisma, o rito antigo regressa em força e o Papa vai ouvir os bispos do mundo.
Igreja Católica em várias frentes de batalha

A Páscoa, e a respetiva Semana Santa, representa muito para os católicos praticantes, e tudo o que gostariam nesta altura era de não ter de lidar com chatices, embora elas estejam presentes, para mal dos pecados dos crentes. Numa semana que se quer de alegria, apesar das privações, a Igreja Católica enfrentou e enfrenta desafios que só com a ajuda do Espírito Santo conseguirá ultrapassar. São muitos, mas centremo-nos em quatro: o ‘conflito’ com Israel, a rebeldia da Igreja alemã, o conservadorismo dos franceses e a reunião de outubro, onde o Papa se encontrará com todos os presidentes das Conferências Episcopais existentes no mundo.

 

A imagem de Nossa Senhora das dores

No passado domingo, quando a Polícia israelita não deixou o patriarca de Jerusalém, cardeal Pizzaballa, e o padre guardião da Terra Santa entrarem na Basílica do Santo Sepulcro, para lerem a missa do Domingo de Ramos, ficaram a nu as divergências que opõem o Vaticano a Israel, país que vive muito do turismo católico. O caso ganhou dimensão mundial, e alguns Presidentes da República, como o francês e o português, repudiaram a recusa do acesso à Basílica do Santo Sepulcro, onde, para os católicos, Jesus Cristo foi preso, crucificado e ressuscitou - no Monte do Calvário, o local onde se pode pôr a mão onde terá estado a cruz onde Cristo foi supliciado, existe uma imagem de Nossa Senhora das Dores, que foi oferecida pela Rainha D. Maria I, em 1778. O escândalo obrigou a Igreja, através do seu número dois, o cardeal Pietro Parolin, a chamar o embaixador de Israel junto do Vaticano, a quem deu conta do «lamentável incidente ocorrido no dia 29 de março, Domingo de Ramos, que envolveu o eminentíssimo cardeal Pierbattista Pizzaballa, OFM, patriarca de Jerusalém dos latinos, e o rev. pe. Francesco Ielpo, OFM, custódio da Terra Santa, a quem a polícia israelita impediu o acesso à Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém».

«Durante a conversa, foi expresso pesar pelo ocorrido, sobre o qual foram oferecidos esclarecimentos, e tomou-se nota do acordo alcançado entre o Patriarcado Latino de Jerusalém e as autoridades locais quanto à participação nas liturgias do Tríduo Pascal na Basílica do Santo Sepulcro», acrescentou o Vaticano.

«Neste momento, há uma linha muito fina, o que era um cordão grosso virou quase um fio dental, digamos, entre o sector católico de matriz judaica e Israel», diz ao Nascer do SOL um teólogo de origem judaica. «A influência dos ultra-ortodoxos, que não são, na sua maioria, de tradição sefardita, são ashkenazi, os haredis, provoca um divórcio com o Vaticano». Diga-se que o assunto é muito mais complexo do que o episódio de domingo. «Os colonos israelitas, que são todos ortodoxos, estão a ocupar as casas de muitos cristãos de origem árabe, a agredi-los, e isto está a tornar-se insuportável. E é isso que tem dado conta o cardeal Pizzaballa, e que tem desagradado ao Governo de Netanyahu», adianta um padre português que conhece bem a realidade local. «Repare que Jerusalém, supostamente, deve ser administrada pela ONU, mas isso não acontece», defende.

E se há palavra que Israel não quer ouvir é precisamente ONU, ou melhor dizendo, António Guterres. «Também é natural que os israelitas se indignem com alguém que se assume como católico e que nunca condenou veementemente os ataques do Hamas, e passa a vida a atacar Israel», mas «os cristãos estão no desespero na Terra Santa. Estão entalados entre o Estado de Israel e o islamismo radical. Em Gaza, por exemplo, não é fácil», reforça o teólogo. Ah! Algumas fontes contactadas pelo nosso jornal garantem que um rabino português teve influência no encontro entre Parolini e o embaixador de Israel no Vaticano.

 

O drama alemão

O Papa Leão XIV, que tem sido muito crítico das guerras - o que também não terá agradado a Israel -, não recebeu uma herança fácil de gerir e tem entre mãos o mais difícil de todos os dossiês: acalmar a Igreja alemã, que tem um novo presidente da Conferência Episcopal, o bispo Heiner Wilmer. São os alemães que mais força têm feito para a abertura da Igreja Católica de Rito Latino, nomeadamente com a luta pela legalização de padres casados - diga-se que a Igreja Católica aceita padres casados, por exemplo, na Igreja Oriental Ucraniana, estando alguns em Portugal -, a ordenação de mulheres como sacerdotisas, a bênção a casais recasados ou a homossexuais. Problema? A Igreja alemã não pára de perder fiéis e todos os anos são menos milhões de euros que entram nos seus cofres. É que, na Alemanha, para alguém ser católico, ou protestante, tem que o assumir na declaração de impostos, descontando um valor fixo todos os meses - a Igreja Católica é a terceira ou quarta empregadora do país e quem não é católico está ‘fora’.

«Os alemães estão a afastar-se cada vez mais de Roma. Quando constituem uma instância de leigos que supervisionam o trabalho dos bispos, onde é que isto vai parar? Os bispos são sucessores dos apóstolos e, portanto, não faz sentido este tipo de estrutura. Neste momento, é tudo uma incógnita sobre o que pode acontecer na Alemanha», explica um padre considerado da ala mais conservadora.

Já para um membro do Opus Dei, «é preciso sempre não esquecer que o que os motivou foi a perda anual de centenas de milhares de fiéis, que na sua declaração de impostos deixaram de dizer que são católicos e assim ficam libertos da obrigação de dedicar uma parte significativa dos seus impostos para financiar a Igreja Católica. É uma igreja muito burocrática, profissionalizada, com imensa gente, e portanto assim como seria dramático para um país ver diminuída significativamente a sua receita fiscal, também é dramático para a igreja alemã esta perda anual de tantos fiéis e portanto tantas receitas. O problema é que com estas aberturas não param de perder fiéis».

A pergunta para um milhão de dólares é se vai haver um novo cisma na Igreja Católica, e dos mais conservadores aos mais progressistas há a esperança de que tal não aconteça. «O Papa tem usado a mesma tática relativamente a outros temas complexos, que é deixar que a passagem do tempo permita baixar a temperatura do debate, da polémica. Por exemplo, vou dar-lhe um exemplo paralelo, recente, os bispos franceses tiveram uma reunião em França e ele escreveu-lhes uma carta apelando a que fossem mais generosos na aceitação da possibilidade de ser celebrada a missa segundo o rito antigo».

A história parece querer dar razão aos conservadores, pois na França, Reino Unido e Suíça são cada vez mais os adultos que pedem para ser batizados, e o número de católicos aumenta de ano para ano. E são cada vez mais os que vão à missa do rito antigo, o mesmo se passando em Lisboa.

 

Missa em latim

Leão XIV está a ser muito elogiado por alguns vaticanistas que concordam com algumas das suas decisões, mesmo aquelas que colocam em causa algumas determinações do Papa Francisco. O antigo Papa argentino tinha sublinhado que era contra o rito antigo, onde a missa é lida em latim e o padre está de costas para os fiéis, entre outros pormenores, mas Leão XIV pensa de outra forma. Segundo o vaticanista Andrea Gagliarducci, Leão XIV simultaneamente reformulou e relativizou a questão do uso do antigo rito. «Em mensagem aos bispos franceses reunidos em Lourdes para sua assembleia plenária periódica, o Papa expressou a sua esperança de que o Espírito Santo os inspirasse a encontrar ‘soluções concretas que permitam a inclusão generosa daqueles que aderem sinceramente ao Vetus Ordo’, ou seja, aos ritos mais antigos, ‘de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Concílio Vaticano II a respeito da liturgia’».

 

Recasados a comungar e contraceptivos

No meio do desafio de conseguir manter unida a Igreja Universal, apesar de todas as suas divergências, o Santo Pontífice marcou uma reunião para outubro, onde estarão todos os presidentes das Conferências episcopais existentes. O motivo é para refletir sobre o 10.º aniversário da Exortação Apostólica pós-sinodal ‘Amoris laetitia’.

«O grande ponto dessa cimeira vai ser certamente reafirmar o ensinamento sobre as famílias quando hoje a situação das famílias é muito delicada, muito frágil», defende um teólogo. «Embora o documento seja muito extenso e com coisas muito interessantes e valiosas para as situações normais da vida das famílias, tem uma reflexão num capítulo, que é o oitavo, sobre a possibilidade de aqueles que se divorciaram de um casamento católico e tiveram uma nova união, que tenham casado de segunda vez, coisa que em princípio não é admissível, se podem ou não, em algumas circunstâncias comungar». Vários padres ouvidos pelo SOL estão convictos de que este ponto será discutido, sendo que alguns também acreditam que a questão dos contracetivos também estará em cima da mesa. «O Papa quer conciliar as várias correntes, se o vai conseguir, acho muito difícil», termina o padre da ala conservadora.