quinta-feira, 11 jun. 2026

Hospitais têm cada vez mais camas ocupadas por doentes com alta médica

O número de internamentos indevidos nos hospitais portugueses continua a aumentar e já supera as 2.800 camas identificadas em março. A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares alerta para uma situação "anormal" e defende reforço urgente dos cuidados domiciliários para libertar capacidade no Serviço Nacional de Saúde
Hospitais têm cada vez mais camas ocupadas por doentes com alta médica

O número de doentes que permanecem internados nos hospitais portugueses apesar de já terem recebido alta clínica está a aumentar e ultrapassa atualmente as estimativas realizadas no início do ano. O alerta é da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que pede medidas urgentes para aliviar a pressão sobre o sistema de saúde.

Durante uma audição na comissão parlamentar de saúde, o presidente da associação, Xavier Barreto, afirmou que a situação se agravou nos últimos meses. "Nos últimos dois meses, a situação dos internamentos inadequados agravou-se e as 2.800 camas que estimávamos em março é já bastante superior", afirmou,

Segundo o responsável, a evolução é particularmente preocupante porque contraria a tendência habitual observada nesta altura do ano. "Isto não é normal, pois normalmente tínhamos uma redução no verão, o que não está a acontecer", acrescentou, citado pela agência Lusa.

O mais recente Barómetro dos Internamentos Sociais da APAH, divulgado em março, contabilizava 2.807 pessoas internadas em hospitais apesar de terem recebido alta médica.

O estudo apontava para um aumento de 19% face ao período anterior e estimava um custo superior a 350 milhões de euros para o Estado. No entanto, Xavier Barreto, em audição na comissão parlamentar de saúde, considerou que esse valor financeiro está subavaliado.

Segundo explicou aos deputados, a estimativa baseia-se apenas nos custos diretos associados aos internamentos e utiliza tabelas de referência que já não refletem a realidade atual dos custos hospitalares. "O custo real será bastante superior", alertou.

Cuidados domiciliários apontados como solução

Face ao agravamento do problema, a APAH defende uma resposta mais rápida e estruturada na área dos cuidados continuados, sobretudo através do reforço do acompanhamento no domicílio.

Para Xavier Barreto, muitos dos doentes que permanecem nos hospitais poderiam ser acompanhados fora do ambiente hospitalar, libertando camas para casos agudos e reduzindo custos para o sistema.

O responsável defendeu uma mudança gradual do modelo atual de prestação de cuidados, com maior aposta nas equipas domiciliárias e nos cuidadores informais. "Estes passos devem ser sustentados com mais investimento e mais recursos. Só com o que temos não vamos lá", afirmou.

Os chamados internamentos sociais ocorrem quando um doente já não necessita de cuidados hospitalares, mas permanece internado por falta de resposta adequada na comunidade, em unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados ou em estruturas de apoio social.

Além do impacto financeiro, esta situação reduz a disponibilidade de camas hospitalares, dificultando a resposta a novos internamentos e aumentando a pressão sobre os serviços do Serviço Nacional de Saúde.

A APAH considera que o reforço dos cuidados continuados e dos apoios domiciliários deverá assumir um papel central nas políticas públicas de saúde, numa altura em que o envelhecimento da população e o aumento das doenças crónicas colocam desafios crescentes ao sistema de saúde português.