quarta-feira, 13 mai. 2026

Hantavírus. Conheça a doença que matou três pessoas num cruzeiro no Atlântico: o que é, como se apanha e o que deve saber

Um surto a bordo do navio MV Hondius, com um tripulante português entre os cerca de 147 a bordo, colocou o hantavírus nas manchetes mundiais. É raro, não tem cura e pode ser confundido com uma gripe simples até ser tarde demais. Guia completo sobre o vírus que poucos conhecem mas que todos deviam entender.
Hantavírus. Conheça a doença que matou três pessoas num cruzeiro no Atlântico: o que é, como se apanha e o que deve saber

O nome era praticamente desconhecido para a maioria das pessoas até este fim de semana. O hantavírus voltou a surgir nas manchetes mundiais depois de três passageiros terem morrido a bordo do cruzeiro MV Hondius, navio de bandeira neerlandesa retido ao largo de Cabo Verde, sem autorização para atracar. A bordo estão cerca de 147 pessoas, entre as quais um tripulante de nacionalidade portuguesa, membro da tripulação.

Segundo declarações do Ministério dos Negócios Estrangeiros, à agência Lusa, até ao momento, o Governo português não recebeu qualquer pedido de apoio.

O surto reacendeu questões que raramente chegam ao grande público sobre um vírus que existe há séculos, mata em mais de um terço dos casos graves e para o qual não existe tratamento específico. Eis o que precisa de saber.

O que é o hantavírus?

Trata-se de uma família de vírus transmitidos por roedores, identificada cientificamente no século XX mas com surtos documentados na Ásia e na Europa há muito mais tempo. Segundo a OMS, o vírus pode causar duas doenças distintas e graves nos humanos:

  • Síndrome pulmonar por hantavírus (SPH): ataca os pulmões e pode evoluir para insuficiência respiratória grave. É a forma mais mortífera.

  • Febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR): afeta os rins, podendo causar hemorragias internas e insuficiência renal. Menos fatal, mas igualmente grave.

O vírus pertence à família Bunyaviridae e tem dezenas de estirpes diferentes, cada uma associada a um tipo específico de roedor hospedeiro.

Como se dá o contágio?

O principal mecanismo de transmissão é a inalação de partículas contaminadas. Quando os dejetos de roedores infetados (urina, fezes ou saliva) são perturbados, libertam micropartículas no ar que, ao serem respiradas, podem infetar quem estiver no espaço. O contacto direto com animais infetados ou com superfícies contaminadas é também uma via de risco.

De acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, a exposição acontece sobretudo em espaços fechados ou mal ventilados com presença de roedores: casas, armazéns, cabanas ou qualquer estrutura onde haja atividade de ratos ou ratazanas.

Há, contudo, uma exceção que está precisamente no centro das preocupações do surto atual: o vírus Andes, endémico no Chile e na Argentina (de onde o MV Hondius partiu, há cerca de sete semanas), é o único tipo de hantavírus com transmissão comprovada entre humanos, ainda que rara. O investigador australiano Paul Griffin, citado pela agência de notícias australiana, alertou que "num navio, o ambiente é propício à transmissão de infeções entre pessoas, porque muitas permanecem na mesma área durante longos períodos de tempo", considerando que os casos a bordo levantam suspeitas de transmissão subsequente.

Quais são os sintomas e porque é difícil detetá-lo a tempo?

Este é um dos aspetos mais perigosos do hantavírus: os primeiros sinais são quase indistinguíveis de uma gripe comum. Febre, arrepios, dores musculares, dores de cabeça, náuseas e fadiga marcam o início da doença. A médica Sonja Bartolome, do UT Southwestern Medical Center, em Dallas, resume o problema: "No início da doença, pode não ser possível distinguir entre hantavírus e gripe."

No caso da síndrome pulmonar, os sintomas surgem entre uma a oito semanas após a exposição e podem deteriorar-se rapidamente, com os pulmões a encherem-se de líquido e a provocar dificuldades respiratórias graves. Na febre hemorrágica com síndrome renal, o quadro evolui com tensão arterial baixa, hemorragias e falência renal.

Qual é a taxa de mortalidade real?

Depende da estirpe. A síndrome pulmonar por hantavírus apresenta uma taxa de mortalidade que pode atingir os 35%, segundo os CDC. A febre hemorrágica com síndrome renal é menos fatal, com taxas entre 1% e 15%. No cruzeiro MV Hondius, dos seis casos identificados, apenas um foi confirmado laboratorialmente até ao momento: um britânico de 69 anos em estado crítico num hospital privado em Joanesburgo, na África do Sul. Os restantes cinco são casos suspeitos.

As três vítimas mortais incluem um casal holandês (o marido morreu a bordo, em Santa Helena, a mulher colapsou no aeroporto de Joanesburgo quando tentava regressar aos Países Baixos) e um cidadão alemão cuja causa de morte ainda aguarda confirmação.

Existe tratamento ou cura?

Não. A OMS confirma que não existe tratamento específico nem vacina disponível para uso geral. O que os médicos podem fazer é estabilizar o doente com cuidados de suporte:

  • Oxigenoterapia

  • Ventilação mecânica

  • Diálise em casos de falência renal

  • Monitorização hemodinâmica intensiva

A assistência médica precoce é determinante: quanto mais cedo for identificado, maiores as hipóteses de sobrevivência.

Como se proteger?

A prevenção passa, acima de tudo, por evitar o contacto com roedores e com os locais onde vivem. Há regras práticas que a maioria das pessoas desconhece:

  • Nunca varrer nem aspirar espaços com dejetos de roedores: estas ações libertam partículas virais no ar.

  • Usar sempre luvas e máscara ao limpar áreas contaminadas, e desinfetar com lixívia antes de qualquer limpeza.

  • Ventilar bem espaços fechados (garagens, arrecadações, cabanas) antes de entrar, especialmente depois de períodos de inatividade.

  • Selar fendas e buracos em casas ou armazéns que possam servir de entrada a roedores.

Há risco para a população em geral?

A mensagem das autoridades é tranquilizadora. Hans Kluge, diretor regional da OMS para a Europa, foi direto: "Não há razão para pânico nem para restrições de viagem." O risco de transmissão para a população em geral é considerado baixo, uma vez que o vírus não se propaga pelo ar de forma livre como a gripe sazonal ou o SARS-CoV-2.

São registadas entre 150 000 e 200 000 infeções por hantavírus em todo o mundo por ano, de acordo com estimativas de investigadores especializados. Nos EUA, desde o início da monitorização em 1993 até ao final de 2023, foram confirmados apenas 890 casos, o que ilustra a raridade da doença mesmo nos países com maior vigilância epidemiológica.

Curiosidades que provavelmente não sabia

  • O hantavírus tem o nome da região coreana de Hantan, onde o vírus foi isolado pela primeira vez em 1976, durante a Guerra da Coreia, após soldados americanos adoecerem misteriosamente.

  • Em fevereiro de 2025, Betsy Arakawa, mulher do ator Gene Hackman, morreu de síndrome pulmonar por hantavírus na sua residência em Santa Fé, no Novo México. Foram encontrados roedores mortos e ninhos em várias estruturas da propriedade.

  • O Novo México, estado onde Arakawa morreu, é também o estado norte-americano com maior número histórico de casos, precisamente pela sua geografia e presença de roedores silvestres.

  • Há relatos históricos que sugerem que o hantavírus pode ter causado epidemias misteriosas na China há mais de mil anos, muito antes de ser identificado como vírus.