‘Há muita gente sedenta de espiritualidade’

O podcast+365, que ajuda a ler a Bíblia inteira num ano, tem sido um sucesso. O padre Miguel Vasconcelos, seu mentor, admite que é um projeto ‘grande’ mas também reconhece que ‘há muita gente a quem a proposta de uma coisa grande diz mais respeito do que uma espiritualidade light, de um Deus sem rosto e sem identidade’
‘Há muita gente sedenta de espiritualidade’

O podcast +365 tem sido um fenómeno. Como surgiu a ideia?

Sou assistente das equipas Jovem de Nossa Senhora e surgiu, muitas vezes, a ideia de fazer uma versão portuguesa do podcast americano Bible in the Mirror, que foi um sucesso do ponto de vista de ouvintes. A ideia era fazer isso em português, adaptado à nossa realidade e que tivesse uma dimensão familiar dada pelos comentários em cada episódio. Tínhamos inicialmente pensado em começar no ano do jubileu, em 2025, mas depois achámos que podíamos usar esse ano para tentar profissionalizar tanto quanto possível a ideia. Nessa altura, pedimos ajuda à Rádio Renascença, que disponibilizou os estúdios, propôs um sonoplasta e nesse contexto veio o convite ao Francisco Mendes, que por trabalhar na Megahits está habituado a usar a voz e já tinha experiência na preparação da Jornada Mundial da Juventude. A ideia nasceu nesse contexto e com uma certa visão de querermos propor coisas grandes, em contraste com um mundo onde o provisório é uma coisa de que nos queixamos, mas que, ao mesmo tempo, faz parte do nosso dia-a-dia, um mundo onde o compromisso e a capacidade de ser constante e perseverante muitas vezes fraqueja. Além disso, as grandes dimensões e as grandes proporções também são procuradas, desejadas e entusiasmam, e isso tem tudo a ver com a proposta cristã que aponta para coisas grandes, de viver de uma maneira grande e de estar disponível para querer coisas grandes na vida.

Daí a ideia de ler a Bíblia ao longo de 365 dias?

Por ser um ano inteiro e por ser a Bíblia inteira, não apenas partes. 

Se fosse apenas partes implicava que houvesse uma escolha?

É verdade e, em certo sentido, a vida da Igreja católica tem isso feito, porque se formos todos os dias à missa vamos ouvir leituras diferentes. Há sempre partes que não são ouvidas no contexto celebrativo na missa. Estes textos são absolutamente fundacionais do que é a nossa civilização, do que é o Ocidente, do que é esta noção de que sermos criados à imagem e semelhança de Deus, em que ajuda a esclarecer o que significa ser pessoa neste mundo e diante de Deus. Tem essa dimensão de origem e de identidade num sentido positivo, não é uma identidade combativa ou pensada por contraste, como muitas vezes acontece.

Quando estamos numa sociedade combativa...

A possibilidade de ler a Bíblia inteira e não haver um critério nosso a escolher umas partes ajuda a perceber com transparência que é daqui que nós vimos, é isto que nós somos no Ocidente, perguntando o que somos, como viemos aqui parar, o que significa ser pessoa e o que significa ser pessoa num contexto cristão. Essas respostas não ficam fechadas quando se lê a Bíblia inteira, mas dão-nos, claramente, um substrato de pensamento, de reflexão e de profundidade e é o que queremos. Ou seja, não queremos uma proposta light, não queremos uma proposta superficial, nem uma proposta fácil.

É o tal projeto em grande...

É uma espécie de Ironman espiritual, num tempo em que tanta gente se entusiasma com uma proposta ousada, difícil e arriscada como é o Ironman. Há espaço na dimensão espiritual para uma coisa desse género e sobretudo porque já chegou a altura de deixarmos de ser crianças e de pensarmos na vida cristã como uma coisa chata, maçadora e cansativa. Esse discurso já não pega e não tem a ver com a realidade. A proposta espiritual do cristianismo e da relação com Jesus Cristo é de grandeza, de viver à procura de apontar alto, de querer o máximo e de não nos contentarmos com pouco. Não é uma proposta de fazer umas coisinhas bem, umas coisinhas mal e viver com a culpa católica. Esse discurso não é para nós, não é aí que nos revelamos.

Como vê o facto de o podcast já ter sido o segundo mais ouvido?

Fizemos a nossa parte de tentar comunicar bem este projeto e chegámos a ser o número 2 dos podcasts mais ouvidos em Portugal durante os primeiros dias. Temos consciência de que as audiências vão oscilando, mas também não fazemos isto preocupados com as audiências, o que faz pensar que há muita gente sedenta de espiritualidade e há muita gente a quem a proposta de uma coisa grande diz mais respeito do que uma espiritualidade light, meio zen, de um Deus sem rosto e sem identidade.

E ajuda os episódios terem 20 minutos?

Sim, por norma, a leitura do texto bíblico demora cerca de 15 minutos e o comentário cerca de cinco minutos. Esse comentário não é sempre uma explicação muito teológica ou muito académica, é uma tentativa de atualização daquele texto. Não vamos mudar o texto, nem vamos inventar um sentido que lá não esteja, mas perceber que aqueles acontecimentos de há muitos anos, aquelas narrativas, aquelas histórias, aquelas aventuras, mesmo aqueles textos mais míticos trazem uma pertinência que hoje nos faz falta e o comentário serve sobretudo para ajudar nesse processo.

Disse que as pessoas estão sedentas de espiritualidade. O podcast pode colmatar essa deficiência?

Sim, temos a consciência que passámos alguns anos a olhar para a espiritualidade e também para a religião como uma coisa privada que cada um vive por si e que não tem espaço num lugar público. E não é assim que as pessoas querem viver, essa ideia não corresponde às expectativas dos nossos dias e a espiritualidade ganha por ter lugar no espaço público.

Pode ser ouvido por pessoas que não conheçam ou não estejam tão integradas com a religião?

Com certeza. Quem quiser conhecer é sempre muito bem-vindo, venha de onde vier. Parafraseando o Papa Francisco, a Bíblia é para todos, todos, todos. De qualquer maneira não me parece que a espiritualidade seja uma coisa alheia ao ser humano. Esta experiência de sabedoria acumulada que está na Bíblia é útil a qualquer pessoa que viva no mundo, diante dos outros, diante de si próprio e diante de Deus. Aqueles textos antigos sobreviveram a muitas modas, a muitas mudanças, a muitas transformações e a muitas reconfigurações do mundo – com certeza que é preciso saber interpretar e traduzir aquela tradição para os nossos dias.

Tem dito que este podcast é para ajudar a conhecer e não para pregar, é para perguntar e não para julgar. A ideia é não criar barreiras?

Não queremos criar barreiras e temos consciência de que quem está de fora, sobretudo, tem uma perceção da Igreja e de tudo o que tem a ver com a Bíblia de uma perspetiva excessivamente moralista. É evidente que a Bíblia propõe uma moral e uma maneira de viver, mas dá uma proposta de vida de viver desta maneira e não viver de outra forma. É uma perspetiva positiva sobre isso, não é dizer: ‘Se fizeres isso vais para o inferno’. Isso parece-me claramente uma linguagem errada, a moral entende-se como uma maneira de viver bem, uma maneira de viver de forma feliz . Além disso, a Bíblia tem muito mais profundidade, riqueza e mundo do que apenas uma dimensão moral. 

Quando chegar ao fim os 365 dias o que está previsto? Voltam a repetir? 

Temos algumas decisões para tomar e graças a Deus ainda temos 11 meses e meio para as tomar, mas vamos querer continuar, a ideia não é ser apenas 365 dias e depois acabar. Mas também não nos faz sentido estar a repetir a leitura. Há algumas coisas, tanto nos comentários, como nos episódios especiais, que ajudam a introduzir o que se vai ler a seguir que podem certamente melhorar. Por outro lado, queremos já este ano avançar com a proposta de que este podcast possa ser mais do que isso e possa incluir a criação de grupos de leitura. Este impacto comunitário tem muito a ver com a Bíblia, que tem sempre uma ideia de povo, de comunidade, de relação, de amizade social, para usar uma expressão do próprio Francisco. Não tem um sentido meramente individualista, em que de uma forma intimista oiço a minha bibliazinha.

Poderia ser ouvido em aulas de catequese?

A própria catequese é que tem que decidir isso, mas há alguns contextos bíblicos que não tenho certeza que sejam os mais apropriados para crianças, sobretudo para quem não tem ajuda para entender porque são textos complexos. Não é que faça mal a uma criança ouvir a Bíblia, no entanto não terá as chaves de leitura necessárias para conseguir perceber, da mesma maneira que não se propõe que uma criança de cinco anos leia o Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Tenho ideia de que até há pouco tempo as pessoas estavam distantes da religião, ou até mesmo de costas voltadas, mas parece que essa tendência tem estado a inverter-se...

Tem razão e houve dois fenómenos a acontecer ao mesmo tempo. O primeiro tem a ver um bocadinho com a história, com o Portugal dos anos 70 e pós-regime do Estado Novo, que é uma sociedade que associa muito rapidamente a Igreja ao regime do Estado Novo, uma associação em certo sentido legítima mas muito redutora porque a Igreja sempre foi mais do que isso. Mas o que se veio a perceber é que se tentou a recusa de uma religião institucional, não foi uma recusa de espiritualidade, porque começaram a surgir espiritualidades um bocadinho básicas demais, algumas muito centradas no eu e, nesse sentido, muito egoístas, muito fechadas, individualistas. Esse individualismo também farta porque se vivo uma vida em que sou a personagem principal, o realizador do filme, o produtor, quem cria os figurinos e quem pensa no fim da história, então a minha vida é muito aborrecida. Esta coisa da espiritualidade light, em que eu sou o centro da minha vida, esvazia a pessoa e começa-se a perceber que recorrer à grande sabedoria acumulada que está nos textos bíblicos possa ser útil, possa ser interessante e sobretudo pertinente para viver uma vida com sentido. Uma vida esvaziada de espiritualidade e de religião também se torna uma vida cinzenta e sem sentido e é preciso ir à procura dessa razão de ser da minha existência. Estou convencido que a espiritualidade traz isso, que a religião enraíza isso numa coisa maior do que eu. A grande diferença entre espiritualidade e religião é que a religião enraíza esta noção de que eu sou mais do que apenas esta matéria que me compõe e as células que fazem parte do meu corpo. Depois há outro fenómeno: é que a par disto havia também um certo catolicismo envergonhado porque no espaço público não era muito popular ser-se cristão, havia uma certa facilidade em cada um viver isto por si e de não se reconhecer na vida cristã um direito de cidadania. Estou convencido que o próprio Papa Francisco e de uma maneira muito clara a Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, mudou essa ideia porque de repente as nossas ruas foram invadidas por quase dois milhões de gente católica e feliz e percebeu-se que não eram macambúzios velhos e fechados em si próprios, o que contribuiu para um católico experimentar um certo direito de cidadania que se tenha tirado. Estamos a assistir a essa mudança, não sei no que vai dar.

Com a mudança de Papa poderá haver um recuo?

São pessoas com feitios muito diferentes e personalidades públicas muito diferentes, mas tenho muitas dúvidas que esse processo se inverta porque estou convencido de que esse processo não fica escravo ou refém da personalidade e do estilo do Papa Francisco. Esta ideia de direito de cidadania, de pertinência do cristianismo para o resto do mundo e para a minha própria vida pessoal já está e não fica refém do estilo de um Papa. O Papa Leão pode vivê-lo ao seu próprio estilo, é certamente mais discreto e ocupa menos espaço mediático, mas estou convencido que isso também tem as suas vantagens e de alguma maneira ajuda a Igreja a fazer um caminho de maturidade sem precisar de ter tanto espaço ocupado por um líder como foi o caso do Papa Francisco, que tinha um estilo absolutamente extraordinário. A Igreja tem maturidade depois de passar pela fortaleza intelectual do Papa Bento, pelo estilo ousado e para a frente no bom sentido do Papa Francisco passar para a simplicidade, discrição e serenidade do Papa Leão. A serenidade que vejo na maneira como o Papa Leão aborda os assuntos contrasta com as violências do nosso mundo e parece-me muito pertinente. É uma serenidade que não é superficial, tem consciência do que se está a viver mas não se deixa exaltar, não ferve em pouca água. É uma personalidade que contrasta com muitos líderes políticos que agora temos aí, mas devo dizer que é uma lufada de ar fresco.

É outro estilo...

Não consigo dizer que o estilo do Papa Leão seja menos pertinente do que o estilo do Papa Francisco. Tive o privilégio de receber o Papa Francisco na Católica e isso é absolutamente central na vida de uma pessoa, mas não consigo pensar que o rumo que a Igreja está agora a seguir liderada pelo Papa Leão seja menos bom ou menos pertinente ou menos eficaz. Pelo contrário, a serenidade com que o Papa Leão aborda a vida faz-nos falta.

Foi estudar Engenharia e acabou por entrar no Seminário. Sentiu o tal chamamento?

A resposta é sim, mas esse chamamento não foi um espetáculo de luz e cor em que de repente vem uma voz e uma visão e diz: ‘Tu agora vais ser padre’. As coisas não funcionam dessa maneira ou, pelo menos, comigo não funcionaram. O que se chama de chamamento ou vocação parece-me que é a consciência de um ‘sim’ dito a Deus nas coisas simples do dia-a-dia que às tantas vai desenhando uma coisa maior do que eu. A minha história foi vivida assim, ou seja, fui dizendo sim às propostas do dia-a-dia e, às tantas, comecei a perceber que a minha vida tinha mais sentido naquele contexto do que num outro contexto qualquer. Percebi que era onde a minha vida tem sentido, onde me sinto a ser mais útil. Entrei no seminário sem certezas se seria padre ou não, mas com a consciência de que o seminário era a ferramenta que a Igreja me oferecia para continuar esse discernimento e acabei por ter essa confirmação. E percebi que a minha vida era sobre uma coisa maior do que eu. Foi isso que me entusiasmou, na altura, e que me continua a entusiasma é o facto de Deus me dizer que é este o caminho e ter a consciência que estou bem entregue, poder viver sabendo que tenho um lugar numa história maior do que eu, que é a história que Deus anda a construir para a humanidade desde sempre.