Há ginásios que vivem de quem desiste, mas há outros que não querem dar-se a esse 'luxo'

No Dia Mundial da Atividade Física e no Dia Internacional do Desporto ao Serviço do Desenvolvimento e da Paz, vale a pena perguntar o que mudou — e o que se perdeu — na forma como os portugueses treinam. O mercado do fitness dividiu-se entre o low cost e o premium, mas persistem ginásios que continuam a pensar o exercício para lá da performance e da estética, como espaços de comunidade, proximidade e presença.
Há ginásios que vivem de quem desiste, mas há outros que não querem dar-se a esse 'luxo'

À primeira vista, um ginásio pode parecer um lugar simples de decifrar: espelhos alinhados, máquinas de treino, música de fundo, corpos em movimento, mas há qualquer coisa de mais complexo a acontecer dentro destes espaços. Num tempo em que tantos lugares de treino se tornaram rápidos, funcionais e quase anónimos, ainda existem locais onde o exercício físico continua a ser vivido de forma diferente.

Mais do que sítios onde se vai cumprir um plano de treino, há lugares que oferecem um ambiente familiar, rostos conhecidos e a sensação de que se faz parte de algo maior. Lugares onde treinar deixa de ser apenas uma rotina e se transforma também numa experiência social, humana e, em muitos casos, emocional.

O mercado do fitness e os extremos do setor

Nos últimos anos, a indústria do fitness transformou-se drasticamente. Tal como aconteceu noutras áreas de consumo, também aqui a oferta se tornou mais especializada e mais orientada para diferentes perfis de cliente. Multiplicaram-se os ginásios low cost, os espaços premium e as boutiques especializadas, cada um com a sua promessa e público-alvo.

Essa diversificação trouxe mais escolha, mas também acentuou os extremos do setor. De um lado, surgiram modelos assentes na conveniência, no preço baixo e na autonomia total. Do outro, consolidaram-se espaços que vendem uma experiência mais exclusiva, mais acompanhada e mais sofisticada, mas também menos acessível.

No caso dos low cost o modelo tornou-se claro: atrair o maior número de sócios possível através de mensalidades reduzidas e oferecendo serviços mínimos. Não há acompanhamento personalizado, há pouco investimento em interação humana e o treino acontece de forma rápida, funcional e individual. O foco não está nos resultados dos clientes, mas sim em vender e manter pagamentos recorrentes.

Por outro lado, os ginásios premium oferecem a experiência completa: equipamentos de última gama, estúdios sofisticados, aulas especiais e até serviços adicionais como sauna, piscina e personal trainer, mas o valor elevado limita o acesso. Além disso, o ênfase na estética, na moda e na performance faz com que estes espaços se aproximem mais de um estilo de vida aspiracional do que de um ambiente de comunidade e de treino sustentável.

Pelo meio, surgem ainda as boutiques especializadas — de pilates, cycling, yoga — que apostam em grupos mais pequenos e mensalidades elevadas, o que torna o acesso mais restrito, e muitas vezes elitizado.

Quando treinar não é só treinar

No meio desta transformação, há uma pergunta que vale a pena fazer: o que é que as pessoas realmente procuram quando entram num espaço de treino?

Num quotidiano cada vez mais acelerado, digital e fragmentado, os espaços de exercício físico começaram também a assumir uma dimensão social cada vez mais evidente. Basta olhar para o crescimento dos running clubs, do padel, das boxes de treino ou das aulas de grupo, onde o exercício já não serve apenas para trabalhar o corpo, mas também para criar presença, convívio e reforçar um sentido de pertença.

Em muitos casos, o treino acaba também por funcionar como uma forma de organização pessoal e até de regulação emocional. É um compromisso, um ponto fixo no meio de dias acelerados, uma rotina que ajuda a criar estrutura e continuidade. E, quando esse treino acontece num espaço onde existe reconhecimento, acompanhamento e relação, a experiência muda de natureza: deixa de ser apenas funcional para se tornar também relacional.

«A missão é servir a comunidade»

É neste contexto que se insere o Clube de Carnaxide Cultura e Desporto que o Nascer do Sol visitou: um espaço onde treinar é pensado para lá do físico e onde as pessoas — e os seus resultados — continuam a ocupar o centro da experiência.

Com 40 anos de existência, o Clube de Carnaxide afirma-se não apenas como um espaço de exercício físico, mas como uma coletividade com uma missão de serviço à comunidade.

Num setor cada vez mais marcado pela lógica da adesão rápida, da rotatividade e do consumo, o Clube de Carnaxide continua a funcionar segundo uma lógica diferente: a da permanência, da proximidade e da construção de relação ao longo do tempo.

E é exatamente assim que Afonso Gouveia, o coordenador-geral do Clube de Carnaxide e profissional com mais de 20 anos de experiência no setor, inicia o seu discurso «O objetivo primordial é servir a comunidade.»

«O fitness é apenas um dos departamentos do clube» explica. «Sendo uma instituição sem fins lucrativos, o objetivo não é o lucro em si. O objetivo é servir a comunidade.» reforça Afonso.

«Obviamente que tem de haver sustentabilidade financeira para pagar aos profissionais e manter o serviço, mas isso não é o fim. O fim é servir as pessoas. »

É também essa visão que ajuda a explicar porque é que, dentro do Clube, o treino aparece ligado a uma lógica de proximidade, continuidade e acompanhamento — e não apenas à ideia de consumo rápido.

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O problema não é o preço, é a falta de acompanhamento

Ao longo da conversa, uma das críticas mais claras dirige-se ao modelo de negócio que se tornou dominante: o da adesão fácil, do preço muito baixo e do acompanhamento quase nulo.

«O grande problema é quando o modelo está montado para que a pessoa pague e não vá», diz. «Há ginásios que vivem disso. Vivem da pessoa que se inscreve, vai durante algum tempo, desiste, mas continua a pagar.»

Na linguagem informal do setor, esse perfil é conhecido como o slipper: o cliente que mantém a mensalidade ativa, mas deixa de frequentar o espaço. E é precisamente nessa lógica que muitos modelos low cost assentam.

«Se a pessoa for todos os dias, aquele valor não cobre o custo real da operação. O modelo só funciona porque grande parte das pessoas acaba por não ir.»

A crítica porém, não é ao preço baixo em si, mas àquilo que esse preço muitas vezes implica: menos presença humana, menos orientação e, no limite, menos condições para que a pessoa realmente consiga manter-se a treinar.

O verdadeiro desafio é fazer com que as pessoas não desistam

É aqui que a conversa se desloca da lógica de negócio para a dimensão mais humana do treino.

«O grande desafio não é fazer o melhor plano de treino do mundo. O grande desafio é fazer com que a pessoa não desista.»

Com experiência como personal trainer, instrutor de sala e professor de aulas de grupo, Afonso sublinha que treinar bem não passa apenas por aplicar aquilo que a ciência já mostrou funcionar, mas por saber olhar para a pessoa que está à frente — perceber a sua vida, os seus limites, as suas motivações e encontrar, a partir daí, um caminho possível.

«É preciso perceber o ponto de partida daquela pessoa — físico, mental, emocional, de motivação, de disponibilidade — e adaptar o treino à vida real dela.»

É por isso que no Clube se insiste na importância de ouvir, conhecer e interpretar. «Se uma pessoa detesta musculação, não faz sentido insistir numa coisa que a vai afastar. O objetivo é encontrar o caminho que ela consegue manter. Porque o melhor treino não vale nada se durar duas semanas.»

Nesse sentido, o treino deixa de ser apenas uma questão técnica para passar a depender também de proximidade humana e continuidade.

Um espaço onde ainda se fica

É precisamente este aspeto que ajuda a explicar a longevidade de espaços como este. Num setor onde tudo parece acelerar, automatizar-se e transformar-se em produto, há lugares que continuam a crescer por razões menos visíveis, mas mais duradouras: a confiança, a proximidade e a coerência com uma missão.

O Clube de Carnaxide Cultura e Desporto completa este ano 40 anos e continua a afirmar-se como um desses casos. Não por recusar a modernidade, mas por manter uma ideia simples e, ao mesmo tempo, cada vez mais rara: a de que um espaço de treino pode ser também um lugar de comunidade.

Num tempo em que tantas experiências de exercício físico se tornaram anónimas, rápidas e altamente individualizadas, talvez seja esta a diferença que continua a fazer alguém voltar. Perante um setor cada vez mais marcado pela rapidez, pela automatização e pela lógica do consumo, a questão que fica é: ainda haverá espaço para lugares onde o treino continua a ser pensado em torno da proximidade, da permanência e da comunidade?

[texto editado por Joana Ludovice de Andrade]