"Há algum alarmismo na Avenida da Liberdade", diz CEO do Baixa Hotels Grupo, ligado à gestão do Pinóquio

A propósito dos roubos em plena Avenida da Liberdade, o SOL falou com Francisco Bordalo, que conhece bem a zona, vincando que não se pode perder uma dos principais trunfos do turismo português: a segurança.
"Há algum alarmismo na Avenida da Liberdade", diz CEO do Baixa Hotels Grupo, ligado à gestão do Pinóquio

O gangue do Rolex, que assalta pessoas à mão armada, retirando-lhes os objetos de valor, tem feito várias vítimas na zona.

Ouço falar nisso há cerca de oito, dez meses, perto das lojas de luxo na Avenida da Liberdade. Agora, são coisas muito cirúrgicas, os ladrões topam que as pessoas entraram e saíram de lojas de luxo e depois 'limpam-lhes' o relógio com uma arma. Ou então, violência mesmo na rua, mas são coisas muito rápidas. Geralmente sempre com duas pessoas e de mota. Eu não vi isto acontecer, não tivemos histórico no Pinóquio nos últimos 24 meses. Isto são tipos muito especializados, muito orientados para o luxo, sim, isso sim. Já conheço vários casos destes e tem causado algum alarmismo, de facto.

E não há queixas de clientes com medo e que deixaram de andar com o Rolex?

Não, não, não.

Mas o fenómeno começa a ser preocupante para quem é comerciante?

Sim. Já é um problema um bocadinho mais abrangente: estou na Baixa há oito anos e nunca vi níveis de segurança tão baixos como assisti em 2025 e continuo a assistir. E não me refiro só à segurança em si, mas também à higiene urbana, transportes e ao aeroporto, que estamos em níveis mínimos qualitativos. Quem está aqui no dia-a-dia e na rua, sente. E tem essa vivência e essa experiência. E objetivamente é isso que temos sentido e é isso que tem acontecido. Esta loucura dos vendedores ambulantes, já tínhamos o problema dos ciganos e da venda do louro prensado. Agora ainda temos uns vendedores ambulantes. É uma praga, é de loucos. E os meios são cada vez menos. E isso reflete-se depois na qualidade do produto, como não pode deixar de ser. A insegurança é de facto crescente no último ano, ano e meio. A própria Associação da Hotelaria de Portugal conhece esta realidade. E não é de há pouco tempo. Há seis anos, fui com Cristina Siza Vieira, que é a vice-presidente da AHP, e a Paula Ferro, que é a representante do núcleo da hotelaria Baixa Chiado, fomos ao comando metropolitano da Polícia de Segurança Pública, e eles já diziam que não tinham meios nem viaturas para dar resposta. Nós já tínhamos muita pressão dos vendedores, principalmente da etnia cigana, de droga nas ruas e tivemos um problema grave no antigo Pinóquio, inclusivamente. Chegámos a pôr um gratificado na esquina e foram lá ameaçar-nos, a dizer ou tiram o gratificado ou partimos isto tudo porque vocês estão a tirar o pão da nossa mesa, da mesa dos nossos filhos. Chegámos a este extremo. Isto é um problema estrutural, infelizmente, e não vejo solução à vista. É ainda mais incompreensível quando a taxa turística foi duplicada no ano passado, em setembro, para quatro euros por noite por pessoa e não se vê esses investimentos tirando o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, que é uma obra estrutural, completamente primordial. Mas não se vê reflexo das dezenas de milhões que os investidores privados entregaram à Câmara nos últimos cinco anos. Nada, zero.

Carlos Moedas não diz nada?

Ele ainda vai algumas vezes ao Pinóquio, três ou quatro vezes por ano. Diz que estão atentos, mas depois no terreno não se sente. Objetivamente não se sente, pelo contrário. Há uma degradação do produto.

Sente diminuição da clientela por causa da segurança?

Não posso dizer isso. O que sinto é que há um aeroporto completamente estrangulado e que já sabemos que a procura é a mesma e continuam a abrir hotéis e portanto a oferta sendo maior e a procura sendo menor, há um reflexo quer no preço, quer nas ocupações. Mas, volta não volta, há um comentário ou outro a dizer que é chato as pessoas serem abordadas na rua para comprar droga e que as pessoas são, de certa forma, agressivas. Não dizem que se sentem inseguras, ainda não chegámos a esse extremo, ou que deixam de vir por se sentirem inseguras, isso não. Mas caminhamos para aí. E isso, relembro, era uma das grandes vantagens competitivas que nós tínhamos. Que éramos seguros, gostamos de receber. E é uma preocupação, de facto, perder essa vantagem competitiva. Caminhamos claramente nesse sentido.