O Grupo VITA, nomeado pela Igreja para receber queixas de abusos e apoiar vítimas, alertou esta terça-feira que assimetrias de poder e perceções distorcidas sobre os sacerdotes continuam a favorecer novos casos de abuso.
No relatório de atividades referente a 2025, a coordenadora do grupo, Rute Agulhas, afirmou que os abusos “não são coisa do passado” e que há registos recentes, de 2023, ocorridos já depois de o tema estar na agenda pública.
“Persistem assimetrias de poder, perceções distorcidas sobre a figura sacerdotal e resistências culturais que dificultam a denúncia e a proteção efetiva de crianças, adultos vulneráveis e sobreviventes”, lê-se no relatório.
O documento salienta fragilidades estruturais: a ausência de mecanismos consistentes de prestação de contas, lacunas na articulação com Comissões Diocesanas e Institutos Religiosos, e uma “opacidade institucional” que contribui para a percepção de impunidade.
Segundo Rute Agulhas, a ideia enraizada de que os sacerdotes são moralmente superiores reforça a desigualdade de poder e dificulta a denúncia de comportamentos abusivos. Além disso, os abusos não são apenas sexuais, mas também de natureza hierárquica ou laboral.
De acordo com a agência Lusa, o relatório alerta ainda para equívocos sobre prevenção em alguns contextos da Igreja, onde a luta contra a violência sexual ainda é confundida com debates sobre sexualidade ou ideologia de género, criando receios infundados que comprometem a implementação de programas de prevenção primária.
O grupo defende que a continuidade do VITA é indispensável para garantir coerência, rigor e compromisso efetivo com a proteção e prevenção de abusos. Entre as propostas destacam-se:
Apoio às vítimas e sobreviventes, incluindo escuta, reparação simbólica e justiça restaurativa;
Formação e capacitação de quadros eclesiais;
Prevenção e políticas institucionais;
Promoção da investigação académica sobre abusos.
Em 2025 foi lançado o projeto Sobre.viver, destinado a dar voz às vítimas e sobreviventes, com encontros mensais em espaços seguros. A partir deste projeto nasceram dois documentos orientadores:
“A Igreja que Escuta”, com diretrizes para encontros entre vítimas, sobreviventes e representantes da Igreja;
“Guia de Apoio e Escuta”, dirigido a familiares e amigos das vítimas.
Em paralelo, decorrem ações de formação nas dioceses, integradas no Projeto Igreja + Segura, que prevê que as instituições subscrevam uma Carta de Princípios com compromissos de prevenção, escuta, transparência e apoio, sujeitos a um sistema de auditoria independente que atribuirá certificações.