terça-feira, 21 jul. 2026

Grupo neonazi começou a ‘partir-se’ por causa das vacinas

Foi uma mulher que esteve na origem do Movimento Armilar Lusitano, que queria matar ou ‘fazer mal’ a Montenegro, Guterres, Costa, Marcelo, Balsemão, Mendes ou Mortáguas. Estavam próximos da ação.
Grupo neonazi começou a ‘partir-se’ por causa das vacinas

A pergunta é de um milhão de dólares, pois há uma cadeia de responsabilidades que, supostamente, falhou. Foi a PJ? O Ministério Público? O Serviço Segurança Interna (SSI)? O Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED)? Vamos aos factos: o desejo de matar ou fazer sofrer António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, Carlos Moedas, Luís Montenegro, Marques Mendes, Rui Tavares, as irmãs Mortágua, Francisco Pinto Balsemão, e até Vladymir Zelensky – este com hipotético apoio de russos em Portugal – fazia parte da lista dos alvos, com o nome de indesejáveis, entre cerca de duas centenas de nomes e de um número muito considerável de associações, do grupo neonazi Movimento Armilar Lusitano (MAL).

O facto de os políticos portugueses só terem, supostamente, tomado conhecimento das intenções do MAL na última sexta-feira indignou o primeiro-ministro em exercício, que já terá dado conta do seu desagrado às autoridades competentes, nomeadamente às citadas no início do texto. «Fui completamente surpreendido por essa notícia. Estava num contexto de reunião [em Bruxelas] em que nem sequer estava contactável. E lamento profundamente que uma questão que coloca em causa a segurança de um cidadão, no caso do primeiro-ministro e da sua família, mas podia ser aplicada a qualquer cidadão português, não tivesse sido partilhada com os próprios», disse na sexta-feira.

No despacho final de acusação do Ministério Público da operação ‘Desarme 3D’, lê-se que o MAL pensou aniquilar o primeiro-ministro por ser uma «ameaça direta aos interesses nacionais e esfera de interesses do MAL». Depois de conseguirem a morada de Luís Montenegro – é evidente o amadorismo do grupo, apesar de terem à cabeça um chefe da PSP, em serviço na Polícia Municipal de Lisboa –, chegam à conclusão de que o «Monstro Negro», era assim que tratavam Montenegro, não podia ser sequestrado e que seria preferível atingi-lo quando estivesse em casa, recorrendo a uma «granada de 37 mm disparada de uma janela adentro», algo que «não está fora da ementa», lê-se no despacho do MP.

Fontes ligadas ao processo dizem não perceber a razão de tanta indignação, apesar de nem os serviços secretos, nem o Sistema Segurança Interna (SSI), que coordena as reuniões com as várias forças, terem sido informados, «pois os terroristas estavam presos há meses quando conseguimos decifrar as conversas que tinham tido no Signal e no Telegram. Se estavam presos não eram ameaça e não podiam cometer qualquer atentado contra o primeiro-ministro e outros», diz fonte da PJ ao SOL.

Acresce que as detenções do grupo ocorreram em junho do ano passado, quando Luís Neves era o diretor da PJ, tendo a direção nacional feito um comunicado no seu site, dando conta que tinham detido seis membros do Movimento Armilar Lusitano «fortemente indiciados pela prática dos crimes de infrações relacionadas com grupo e atividades terroristas, discriminação e incitamento ao ódio e à violência e detenção de arma proibida».

Mas vamos à história, que envolve um grupo de lunáticos racistas, que comprou duas impressoras 3D e que foi fabricando armas à medida da disponibilidade financeira de dois dos principais arguidos. O objetivo era, em três a quatro anos, conseguir um arsenal de armas considerável – umas compradas, outras de ‘fabrico’ próprio – para equipar as suas milícias, que tratariam de ‘limpar’ o país de imigrantes, de políticos que consideravam corruptos ou contrários aos verdadeiros interesses nacionais, dos defensores da vacinação – alguns dos integrantes eram mesmo paranoicos com esta questão, chegando a comprar, na Suíça e França, certificados de covid entre 300 a 1.500 euros , tudo por recusarem vacinar-se.

O ódio aos judeus e a paixão por Hitler é bastante evidente nas conversas que vão tendo, mas os «ciganos, imigrantes com origem brasileira, africana, asiática, pessoas da comunidade LGBTQI+, os defensores dos assuntos ligados à identidade, diversidade, expressão e igualdade de género ou que professassem religiões como por exemplo o Islão ou o Judaísmo», eram potenciais alvos do grupo.

Para se perceber a razão de, no início, as autoridades não terem dado muita credibilidade ao MAL, diga-se que pensaram em fazer um grupo para jogar no euromilhões, pois acreditavam que se o primeiro prémio lhes saísse conseguiriam derrubar o Governo com as armas que comprariam; que enterraram e esconderam bidões com alimentos e bebidas para resistir à hipotética guerra civil; que sonharam com uma sede do MAL num monte que daria «para escavar tudo por dentro» e que até teria «baterias antiaéreas» e drones, num custo total de 270 mil euros.

Além desses delírios, diziam que o «holocausto foi uma farsa, uma mentira». Sonhavam que os russos fizessem «um atentado contra o Presidente da Ucrânia, em Portugal, aquando de uma visita próxima do mesmo, e da possibilidade, que lhes agradava, de poder atingir, também, o Presidente da República e o Primeiro-Ministro de Portugal, no aeroporto de Figo Maduro, por ocasião da receção daquele, referindo concretamente: Aquilo só dava com um míssil, e um míssil era o ideal porque assim matava também os outros dois montes de merda».

A origem do MAL

O Movimento Armilar Lusitano tem na origem uma mulher, que acabaria por se desiludir com o rumo do mesmo. Tatiana, algures em 2016, descontente com a chegada de refugiados sírios a Portugal, criou o grupo Gárgulas de Portugal. Rapidamente conseguiu fiéis para o grupo, sendo o principal Bruno Carrilho, que vivia entre a Suíça e Portugal. Com o crescimento do grupo, e depois de conversas com outros movimentos neonazis, Tatiana e Bruno acabam por formar o MAL – ao princípio falavam por WhatsApp, mas mudaram para redes mais seguras como o_Telegram e o Signal. Desconfiavam do SIS_e tinham razão, pois foram as secretas a avisar o Ministério Público do crescimento do grupo.

Pouco depois é recrutado Bruno Gonçalves, o chefe da PSP que estava em serviço na Polícia Municipal de Lisboa. É este homem que tinha experiência com armas que ficará com a incumbência de as fabricar. Tatiana, vendo o rumo seguido pelo grupo, decide sair, desabafando com uma amiga: «Aquilo deixou de ser um movimento nacionalista, passou a ser um movimento negacionista». Saiu a fundadora e Carrilho, segundo a acusação, assumiu o comando do barco, tendo no elemento da Polícia Municipal o seu braço direito.

Se o MAL não tivesse sido desfeito, as irmãs Mortágua, Mariana Carneiro, da SOS_Racismo, Rui Tavares ou mesmo humoristas, radialistas, médicos, comentadores, além de outros políticos, entre outras profissões, poderiam ter uma triste história para contar. O ódio aos homossexuais era tanto que Marco Paulo era um dos alvos do grupo. O MAL chegou mesmo a idealizar incendiar a sede do SOS_Racismo.

Sete meses depois de terem sido detidos, estão quatro em prisão preventiva, mais cinco em liberdade a aguardar julgamento, a equipa da PJ conseguiu decifrar toda a informação que estava encriptada. A Unidade Nacional Contra o Terrorismo era liderada por Manuela Santos, que tinha substituído Luís Neves, que fora promovido a diretor da PJ, e a nomeara para o substituir. E é aqui que os ‘amigos’ de Neves na PJ dizem: «Alguém acredita que Neves não sabia da gravidade do que foi descoberto em janeiro deste ano? Ele só foi para o Governo em finais de fevereiro. Mas também é verdade que já assumiu que o primeiro-ministro devia ter sido informado, por quem é que não disse». E é aqui que entra a pergunta de um milhão. Quem foi o culpado pelos alvos do Movimento Armilar Lusitano não terem sido informados?