Uma construtora que ganhou concursos na Polícia Judiciária (PJ) durante a direção de Luís Neves tem uma relação muito próxima com a Construbarcelos, do empreiteiro João Santos Carvalho, amigo do agora ministro da Administração Interna.
Trata-se da DST, um grande grupo sediado em Braga com quatro mil funcionários e uma faturação anual de 725 milhões. Está a construir a sede da PJ naquela cidade desde dezembro de 2024, e em abril 2025 concluiu as novas instalações da respetiva Diretoria do Sul, em Faro. As duas obras públicas foram contratadas, respetivamente, por 7,2 milhões de euros e 5,9 milhões de euros.
Segundo fontes contactadas pela investigação SOL/TVI/CNN Portugal, apesar de a Construbarcelos não ter nada que ver com estas duas obras, João Santos Carvalho participou em reuniões entre o então diretor nacional da PJ, Luís Neves, e o presidente da DST, José Teixeira. Contactado esta semana, José Teixeira declarou sobre Carvalho: «Vi-o fisicamente, em toda a minha vida, uma única vez».
De resto, foi com surpresa que muitos notaram a presença de João Santos Carvalho entre os convidados da cerimónia de inauguração do edifício de Faro, em 30 de abril do ano passado, que acabara de ser remodelado pela DST (sigla do nome do fundador, Domingos da Silva Teixeira, falecido em 2010).
Ao mesmo tempo, entre os anos de 2022 e 2025, a DST foi a segunda maior cliente da Construbarcelos, segundo os relatórios e contas desta empresa.
Naqueles anos, a Construbarcelos recebeu avultadas verbas da gigante de Braga: 115 mil euros (2022), 135 mil euros (2023), 110 mil euros (2024) e 85 mil euros (2025). Valores tão redondos que destoam do que é habitual nas contas das empresas de construção.
Está por esclarecer o motivo de tais pagamentos. Se corresponderam de facto a prestações de serviços da Construbarcelos à DST, não se sabe. José Teixeira líder da DST, explicou à investigação SOL/TVI/CNN Portugal que a empresa de João Santos Carvalho é sua cliente «desde 2019» e que da parte da DST «não se colocaram problemas de idoneidade» em relação ao empreiteiro.
Acresce que Carvalho também forneceu mão-de-obra para uma empreitada numa casa particular do administrador financeiro da DST, Avelino Teixeira, entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024.
Empreiteiro apresentou Neves
Segundo as nossas fontes, João Santos Carvalho conheceu o fundador da DST, Domingos da Silva Teixeira, no tempo em que este tinha uma pedreira, há largas décadas. Era lá que o empreiteiro de Barcelos se abastecia. Mais recentemente terá sido Carvalho quem apresentou Luís Neves ao filho e atual diretor executivo da DST, José Teixeira, um engenheiro civil conhecido por participar com frequência em iniciativas promovidas pelo PS.
Em 2023, após concurso público em que saiu vencedora, a DST assinou o contrato com a PJ para reabilitação das novas instalações da Diretoria do Sul, em Faro. Até então, nunca a DST tinha feito qualquer empreitada para a Judiciária. Mas João Santos Carvalho já fazia. Desde 2019 que o amigo de Luís Neves tinha contratos para obras na instituição.
O facto de a DST só ter começado a fazer contratos com a Judiciária depois de Carvalho já ser fornecedor desta polícia «é uma coincidência», segundo José Teixeira.
Em dezembro de 2024, a DST ganhou um novo concurso: a empreitada da nova sede da PJ em Braga. O contrato foi assinado pelo próprio Luís Neves. Previa uma execução em sete meses, até agosto de 2025, por 6,9 milhões de euros. Mas o prazo resvalou e em dezembro de 2025 Luís Neves assinou uma adenda ao contrato inicial para «trabalhos complementares»: mais 312 mil euros para a DST concluir as obras, o que perfaz 7,2 milhões.
O prazo contratual para execução dos «trabalhos complementares» terminou na semana passada, mas fotografias feitas na última segunda-feira pela investigação SOL/TVI/CNN Portugal mostram que há novamente atrasos.
Entretanto, durante o período de 2019 a 2025, a Construbarcelos faturava cerca de 2,3 milhões de euros em 17 contratos para apenas duas empreitadas na PJ: a remodelação do edifício-sede na Guarda e a renovação da unidade de Évora.
Estas 17 adjudicações ao empreiteiro de Barcelos não foram totalmente divulgadas no Portal Base dos contratos públicos, por questões de segurança segundo a PJ. Só as empreitadas da Guarda estão disponíveis para consulta, mas sem todos os contratos publicados.
Ainda assim, a PJ deu ao Observador informações bastante detalhas sobre os 17 contratos, que aquele jornal publicou em 21 de julho. Questionada sobre a aparente contradição que é a de ocultar contratos do Portal Base por razões de segurança mas divulgá-los a um órgão de comunicação social, uma porta-voz da Judiciária não respondeu. Alegou apenas que «a informação respeitante a estes procedimentos não está sujeita ao mesmo regime de publicitação pública» que se aplica a outras adjudicações do Estado.
Mais coincidências
Quanto aos contratos da DST, o da PJ de Braga está registado no Portal Base, mas o de Faro não consta. Ambos resultaram de concursos limitados por prévia qualificação. Dados que a PJ forneceu esta semana à Rádio Renascença mostram que a DST foi de longe a empresa que mais faturou com a PJ durante a liderança de Luís Neves.
No concurso da PJ em Braga, ganho pela DST em dezembro de 2024, as outras empresas que chegaram à fase final do concurso, e que perderam, foram a Tecnorém, a TPS e a ABB (Alexandre Barbosa Borges, S.A.).
Esta última é outra grande empresa de Braga e perdeu para a DST por uma unha negra, ao nível dos valores propostos: 5,6 milhões pela DST e 5,9 pela ABB. As outras superavam 6,2 milhões.
Também aqui, há uma ligação a João Santos Carvalho. Por um lado, o pavilhão onde a Construbarcelos tem os seus escritórios, em regime de arrendamento, pertencem à ABB. Por outro, o empreiteiro de Barcelos tem recebido pagamentos deste grupo empresarial.
A ABB saltou para as páginas dos jornais no último ano por estar a ser investigada num inquérito-crime por alegado favorecimento num concurso da Câmara de Espinho, que teve um parecer jurídico de Luís Montenegro, enquanto advogado da autarquia, e ao mesmo tempo ter sido a empresa que vendeu o betão para a casa que o primeiro-ministro estava a construir em Espinho.
À investigação do SOL/TVI/CNN Portugal um representante legal da ABB confirmou que a Construbarcelos tem sede num imóvel que é «propriedade da sociedade Alexandre Barbosa Borges II - Imobiliária, S.A.» e que João Santos Carvalho o está a arrendar desde 1 de outubro de 2021, mas não esclareceu qual o valor da renda.
Acrescentou que «não existe qualquer outra relação contratual entre a Alexandre Barbosa Borges II - Imobiliária, S.A. e a Construbarcelos» e que esta «não é nem nunca foi cliente» do grupo ABB.
Contactada, a Polícia Judiciária não respondeu às nossas perguntas até à hora de fecho desta edição.