quarta-feira, 15 jul. 2026

Governo quer Juntas de Freguesia a entregar dinheiro vivo onde não houver Multibanco

O Governo está a preparar uma solução para levar serviços bancários a mais de mil freguesias sem caixas Multibanco. Nas localidades mais pequenas, as Juntas de Freguesia poderão passar a disponibilizar dinheiro vivo aos habitantes, numa medida que pretende combater os chamados “desertos de numerário” em Portugal.
Governo quer Juntas de Freguesia a entregar dinheiro vivo onde não houver Multibanco

O ministro da Economia revelou esta quarta-feira que o Governo está a estudar um modelo que permitirá às Juntas de Freguesia disponibilizar dinheiro vivo aos cidadãos em localidades onde não seja possível instalar caixas Multibanco tradicionais.

A medida foi anunciada por Castro Almeida durante uma audição na Comissão Parlamentar da Reforma do Estado e Poder Local, no âmbito de um projeto desenvolvido em conjunto com a Associação Portuguesa de Bancos (APB), o Banco de Portugal e a SIBS, empresa responsável pela gestão da rede Multibanco.

Segundo o governante, o objetivo passa por reforçar o acesso a serviços bancários em mais de mil freguesias que atualmente não dispõem de caixas automáticas.

“Nas freguesias maiores, a intenção é instalar as normais máquinas Multibanco”, explicou Castro Almeida, citado pela agência Lusa.

Já nas localidades de menor dimensão, a solução poderá passar pela instalação de equipamentos que permitam realizar operações bancárias, como pagamentos e consultas, mas sem a funcionalidade de levantamento de dinheiro.

Nesses casos, será necessário criar um mecanismo que envolva diretamente as autarquias locais. “Terão de ser as juntas a ter dinheiro líquido para poder entregar às pessoas”, afirmou o ministro, acrescentando que o sistema permitirá aos cidadãos realizar movimentos financeiros com a participação das freguesias.

A falta de acesso a caixas Multibanco tem sido uma preocupação recorrente da Associação Nacional de Freguesias (Anafre), que voltou a colocar o tema em destaque durante o seu congresso nacional realizado no final de janeiro. Na ocasião, os autarcas aprovaram uma moção a alertar para as dificuldades sentidas pelas populações, sobretudo nas zonas rurais e de baixa densidade populacional.

Falta de consenso

A possibilidade de as Juntas de Freguesia assumirem um papel na disponibilização de numerário não é, contudo, consensual. A própria Anafre já manifestou reservas quanto à capacidade financeira e operacional das autarquias para adiantarem dinheiro aos cidadãos.

O debate sobre o acesso ao numerário ganhou novo impulso nos últimos anos, à medida que se intensificou o encerramento de balcões bancários e a redução do número de caixas automáticas em várias regiões do país.

Quando tomou posse como governador do Banco de Portugal, em outubro de 2025, Álvaro Santos Pereira defendeu que o sistema financeiro deve assegurar uma rede suficiente de caixas automáticas para garantir que todos os portugueses conseguem aceder facilmente a dinheiro físico.

Também a associação Denária, que promove a utilização do numerário como meio de pagamento, alertou para a existência de “desertos de numerário” em Portugal. Em setembro de 2025, a organização recordou dados do Banco de Portugal referentes a 2022 que indicavam que 1.276 freguesias — cerca de 41% do total — não possuíam qualquer ponto de acesso a dinheiro físico. Em alguns casos, os residentes são obrigados a percorrer dezenas de quilómetros para encontrar uma caixa Multibanco.

A associação considera que o reforço da cobertura da rede é essencial para garantir a inclusão financeira, sobretudo entre as populações mais envelhecidas, isoladas ou vulneráveis, defendendo que o acesso ao numerário deve continuar a ser um direito efetivo dos cidadãos.

De acordo com dados do Banco de Portugal, no final de 2025 existiam cerca de 13.700 caixas automáticas em funcionamento no país.