A Guarda Nacional Republicana (GNR) alertou para o forte impacto psicológico que pode recair sobre os militares que trabalham diariamente na área da violência doméstica por ser um crime marcado por relatos de agressão física, abuso emocional, ameaça, controlo e, muitas vezes, com contacto contínuo com vítimas em situação de grande vulnerabilidade.
"Trabalhar na área da violência doméstica, enquanto agente policial, acarreta um peso psicológico profundo, caracterizado pela exposição continua a traumas secundários, o que constitui um fator de risco elevado para o esgotamento profissional", apontou o comandante do comando operacional da GNR, Pedro Oliveira, à agência Lusa, citado pelo Correio da Manhã.
O aviso surge num contexto em que a própria GNR tem vindo a reforçar a sua resposta a este tipo de criminalidade, através de estruturas especializadas como os Núcleos de Investigação e Apoio a Vítimas Específicas (NIAVE), mas reconhece que o contacto repetido com casos traumáticos pode também deixar marcas em quem investiga, acompanha e tenta proteger as vítimas.
Segundo dados divulgados pela GNR, os NIAVE contam com 186 militares especializados em todo o país. Até meados de novembro de 2025, estas equipas tinham registado 4.056 inquéritos, dos quais 3.956 já estavam concluídos, o equivalente a uma taxa de conclusão próxima dos 97,5%.
A GNR refere ainda que, além da investigação criminal, estas equipas desempenham também funções de apoio, escuta, avaliação de risco e articulação com outras entidades, o que torna este trabalho particularmente exigente do ponto de vista humano e psicológico.
Segundo Pedro Oliveira, a necessidade de gerir constantemente cenários de violência e de sofrimento agudo por parte das vítimas gera "fadiga compassiva, onde a empatia se torna uma fonte de exaustão emocional e de stress crónico".
O comandante do comando operacional esteve esta terça-feira juntamente com o diretor e um elemento da Direção de Investigação Criminal a ser ouvido na Subcomissão para a Igualdade e Não Discriminação, numa audição conjunta com a PSP e a Equipa de Análise Retrospetiva de Homicídio em Violência Doméstica.
Pedro Oliveira adiantou que a GNR tem atualmente 349 salas de atendimento à vítimas distribuídas por todo o território nacional, além das equipas especializadas, que funcionam 24 horas por dia nos sete dias da semana.