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Está surpreendido por Portugal ter enfrentado, em 2025, o maior e o terceiro maior fogos rurais da sua história, pelo critério da área ardida?
Não. Aplaudo Portugal pelas diretrizes que o Governo então seguiu, na sequência do trabalho da Comissão Técnica Independente que analisou a tragédia de 2017. No entanto, a gestão de incêndios é uma questão muito complexa, que leva tempo a mudar. É necessário um compromisso de todos os governos para manter o rumo e colher os benefícios.
A seguir a 2017, o número de ignições diminuiu significativamente, mas enfrentamos incêndios florestais cada vez maiores. Como explica este paradoxo?
Há vários fatores em jogo. Se as ignições diminuíram, isso é positivo. No entanto, as ignições, sejam naturais ou causadas pelo homem, são apenas uma parte do problema. Em dias de condições climáticas extremas, há menos tempo disponível para as forças de supressão extinguirem uma ignição. O incêndio florestal ganha muitas vezes uma dimensão tão grande que nem a totalidade do dispositivo de combate de Portugal consegue travar a sua propagação, pelo menos até que as condições meteorológicas suavizem.
Por que passamos a ter incêndios quase impossíveis de deter?
Os combustíveis, prontos a arder, disponíveis no terreno onde ocorre a ignição, têm um impacto decisivo na possibilidade, ou não, de supressão do incêndio. O comportamento do incêndio florestal segue as mesmas leis da física que um fogo de cozinha. Quanto mais combustível é adicionado a um fogo de cozinha, mais altas são as chamas e o calor gerado. Da mesma forma, se um incêndio é iniciado onde há muitos combustíveis florestais secos, maior será a altura das chamas e a intensidade do incêndio. Como consequência, é mais difícil extingui-lo.
Essa redução de combustíveis não será dispendiosa?
Nos países propensos a incêndios do mundo inteiro, os gestores de incêndios reconhecem que a redução de combustíveis florestais é a forma mais barata e eficaz de reduzir a área queimada e os prejuízos daí decorrentes.
Após a carnificina de 2017, a prioridade em Portugal passou a ser salvar as vidas humanas. Compreende uma política de combate a incêndios que permite que os fogos ardam desde que ninguém morra?
Quando fui chefe dos Bombeiros, durante nove anos, em Victoria, o estado mais propenso a incêndios da Austrália, priorizei as vidas humanas acima da propriedade e do meio ambiente. O comportamento observado do fogo, juntamente com as previsões meteorológicas, determinava se devíamos extinguir imediatamente um incêndio, ou permitir que ele ardesse até linhas de controlo pré-determinadas. Isso não significa deixar que seja o incêndio florestal a determinar onde e o que queima.
Como assim?
Na resposta a um fogo rural, é necessário um julgamento científico. Em Portugal, na situação atual, os bombeiros não têm um plano estratégico de controlo de incêndios. Correm para salvar edifícios, à medida que o incêndio se aproxima, enquanto deixam o incêndio florestal arder onde quer que vá. Isso é muito imprudente. Há um problema de supressão de incêndios de Portugal.
Está a faltar-nos o tal julgamento científico no teatro de operações?
Ficamos com a ideia de que a pessoa que assume a responsabilidade nestas situações, como controlador de incidentes, não é competente nem capaz de tomar decisões estratégicas. Não adota uma abordagem de antecipação. Estão a aumentar, desnecessariamente, os custos de supressão de incêndios, os danos ambientais e as perdas de ativos florestais. Os contribuintes portugueses deveriam esperar um melhor desempenho dos seus bombeiros.
Em Portugal, os bombeiros usam água a mais e ferramentas manuais a menos, como sacholas e machados?
Com base nos meus mais de 40 anos de experiência em florestas de eucalipto, usar apenas água para apagar um incêndio é assumir um risco inaceitável de propagação. Na Austrália, nenhum fogo florestal é controlado sem uma barreira de terra mineral. Se não houver combustível para queimar, não há fogo. A intensidade do fogo determina a forma como a barreira de terra mineral é criada, seja por maquinaria ou ferramentas manuais.
Qual é, então, o papel da água?
A água com retardantes químicos, seja de aeronaves ou de forças terrestres, é mais útil na extinção de estruturas em chamas. É usada para ajudar a reduzir a intensidade do fogo, mas não impede a propagação de incêndios florestais de alta intensidade. Só as barreiras de terra mineral, combinadas com queimas táticas estratégicas, permitem parar a propagação desses grandes incêndios.
Qual a importância dos meios aéreos?
Se forem bem geridos, são muito úteis na supressão de incêndios, especialmente para ganhar tempo para o pessoal terrestre. No entanto, as aeronaves sozinhas não apagam incêndios florestais. São necessários bombeiros sapadores no terreno, para remover os combustíveis florestais, seja com ferramentas manuais ou maquinaria. Há muitos casos em que os bombeiros não atacam agressivamente os incêndios florestais, antes ficam à espera da chegada dos aviões. O resultado é que o incêndio florestal cresce desnecessariamente, o que obriga a recursos adicionais.
Portugal deve apostar em aumentar a sua frota de aviões Canadair?
Na Austrália, aumentámos o número e o tamanho das nossas aeronaves de combate a incêndios, mas os nossos incêndios florestais tornaram-se maiores e mais frequentes. Isso é claramente a abordagem errada.
De que tipo de bombeiros precisamos?
Devido ao grande respeito do público pelos bombeiros, muitas pessoas pensam que qualquer bombeiro pode suprimir todos os incêndios. Isso é um mito. O facto é que nem todos os bombeiros têm as competências mentais e físicas adequadas para lidar com todos os tipos de incêndios. É necessário formar e acreditar os bombeiros no combate a incêndios florestais, segundo um padrão único, acordado para alcançar o sucesso no terreno.
Concorda com a Comissão Técnica Independente que analisou a catástrofe de 2017, que defendia a mudança do nosso modelo de combate a incêndios?
Sim. Muitos modelos foram testados em todo o mundo. O que provou ser o mais bem-sucedido – e reconhecido como tal – é o Sistema de Gestão de Incidentes Interagências.
O que implica esse modelo?
Coordenação e cooperação entre todas as entidades envolvidas na resposta a incêndios. Grande liderança, que forneça objetivos específicos, a serem alcançados pelos bombeiros no terreno. Planeamento estratégico, bem pensado e documentado, por pessoas com o conhecimento florestal apropriado. A formação e a experiência em estratégias de combate a incêndios florestais, nos diversos tipos de vegetação, são essenciais para a segurança dos cidadãos e dos operacionais de combate. E para proporcionar um controlo eficiente e eficaz do fogo.
Seria razoável recompensar financeiramente os municípios e os bombeiros pelo sucesso na prevenção, em vez de remunerar o combate?
Prevenir grandes incêndios florestais deveria ser o objetivo de uma boa governação, em vez de desperdiçar fundos no aumento das forças de supressão. Isso é recompensar uma gestão preguiçosa e pobre.
Em concreto, como se faz isso?
Olhe, usando os princípios aplicados há muito pelos indígenas australianos e pelos pastores portugueses. Com um forte foco na gestão da cobertura do solo. Ou seja, introduzindo mais fogo na paisagem no momento certo, com intensidades mais baixas do que a atingida pelos incêndios florestais de verão. Só assim se conserva a biodiversidade e é possível reduzir os combustíveis florestais. O clima de Portugal oferece oportunidades na primavera e no outono para queimas prescritas. Os pastores têm utilizado períodos de condições meteorológicas favoráveis para realizar queimadas. Porque não o podem fazer outros gestores de terras?
O uso de fogo controlado é uma das medidas do plano estratégico português com os mais baixos índices de concretização. Como podemos dar a volta a isso?
As queimas prescritas devem ser usadas para a formação dos operacionais de combate, em todas as entidades com papéis na supressão de incêndios. Devem ser adotados padrões nacionais consistentes de acreditação para todos os técnicos de queimas controladas. Portugal tem pessoas com as competências certas para implementar esta abordagem sensata, a fim de melhorar a gestão da cobertura do solo, de modo a que os incêndios florestais não atinjam níveis catastróficos.
Foi uma boa ideia retirar a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) do Gabinete do Primeiro-Ministro e colocá-la como departamento do Ministério da Agricultura?
A localização da AGIF é uma decisão política, sobre a qual não farei comentários. A questão importante, para os políticos considerarem, é se a AGIF está dotada de autoridade política delegada suficiente.
Para quê?
Para promover a colaboração necessária entre todos. Para evitar que cada departamento envolvido no problema opere com uma mentalidade de quinta, de defesa do seu território, em prejuízo do melhor interesse de todos os portugueses. As entidades de combate a incêndios de Portugal precisam de se focar nas possibilidades de melhorar os seus resultados, em vez de perderem tempo com fatores que inibem mudanças positivas na resposta aos incêndios florestais. l