Esta foi já a terceira conferência que fizeram. O que esperam que as pessoas aprendam?
Tito Morais: A ideia principal é passar informação às pessoas, sensibilizá-las sobre estas temáticas e, se possível, levá-las à ação. No final procuramos fazer uma súmula com as principais conclusões do evento e chegar a determinadas autoridades, nomeadamente o Parlamento, alguns ministérios e por aí fora.
O Governo já ouviu a vossa voz em algum assunto?
Cristiane Miranda: Sim, nomeadamente na área do bullying.
TM: Ainda antes do projeto Agarrados à NET, eu trabalhava a temática do cyberbullying, estive envolvido e a colaborar com a Direção-Geral da Educação na elaboração de um plano de prevenção e combate ao bullying, que se transformou na realidade num plano de comunicação. E depois fizemos também um plano para desenvolver a prevenção e combate ao bullying e cyberbullying.
CM: E foi daí que fizeram um diagnóstico às escolas. Os planos estão a avançar, não sabemos muito bem em que ponto estão. A realidade é que nunca sabemos o alcance daquilo que fazemos. Acreditamos que chega muito além das pessoas que estão aqui. Quando criámos o projeto Agarrados à NET não se falava em Portugal sobre esta questão do bem-estar digital e do uso excessivo dos ecrãs. A primeira conferência que fizemos foi mesmo por isso. Temos que pôr isto a ser falado,debatido, fazer chegar isto a muitas pessoas. E acreditamos que isso aconteceu, agora fala-se muito desta questão do uso dos telemóveis. Mas as pessoas, infelizmente, estão a funcionar muito baseados no medo. E quando tomamos decisões baseadas no medo, normalmente não são as melhores decisões. Por isso vem por aí muita proibição, que não consideramos que seja a melhor das soluções.
Estamos mais conscientes ou mais dependentes?
TM: Estamos mais conscientes, mas também estamos mais dependentes. Agora há informação que não havia, por exemplo, em 2021. Não se escrevia sobre o assunto, não havia investigação. Mas, como a Cristiane diz, as pessoas parece que acordaram, de repente, para o assunto e assustaram-se, ficaram com medo e estão a reagir impelidas pelo medo. Não é aconselhável, numa situação de pânico, tomarem-se decisões, sobretudo a nível político. Coincidentemente ou não, iniciaram-se agora as audiências públicas relativamente a um projeto de lei que visa banir as crianças e os jovens das redes sociais. Vamos ser ouvidos esta sexta-feira.
Como veem esse projeto lei?
TM: Três coisas, basicamente. O projeto de lei escreve sobre o molhado no que diz a proibição das funcionalidades aditivas das redes sociais e de outro tipo de plataformas, porque o regulamento de serviços digitais já prevê a proibição de algum desses tipos de funcionalidades, nomeadamente o scroll infinito. Estamos a fazer algo que a União Europeia já definiu nesse regulamento que não é aceitável. Estamos a duplicar coisas sem necessidade. Devemos preocupar-nos mais com o enforcement do regulamento de serviços digitais do que estar a criar outras coisas. O segundo aspeto é o nível da educação. O projeto de lei, sobre este tema, diz zero. E é pena porque, de facto, achamos que é pela capacitação dos jovens que vamos lá. Não é regulamentando as crianças e os jovens, é regulamentando as plataformas e capacitando as crianças e os jovens para lidar com os riscos a que estão expostos online. E o terceiro aspeto tem a ver com a capacitação dos pais para uma mediação ativa. Há um estudo muito interessante que a Cristiane costuma falar, de Alexandra Samuel.
CM: É um estudo que foi uma norte-americana que fez, há uns anos, que envolveu mais de 10 mil famílias norte-americanas e que nos diz que existem três tipos de pais digitais. Os pais limitadores digitais, que são aqueles que vão pela proibição e limitam ao máximo o acesso a qualquer coisa que seja ligada à tecnologia ou à internet aos seus filhos durante o máximo de tempo possível. E existem os facilitadores digitais, que são o oposto destes: confiam na capacidade dos seus filhos para aprenderem a andar livremente nestas andanças do mundo digital. E depois existem os pais mentores digitais, que são aqueles que acompanham os seus filhos na sua vida, também na sua vida digital. E o que este estudo nos mostra é que as crianças a que mais risco se expõem na internet, que falam mais com pessoas estranhas, que se põem a ver conteúdos nada próprios ou até mesmo ilegais, são os filhos dos limitadores e depois dos facilitadores digitais. O que é interessante, não é? O jovem é, por si, um ser curioso. E é, por si, um ser que corre riscos. Ainda bem que assim é, que também vai explorar coisas. Se eles andarem a correr riscos sozinhos, vão fazer buscas escondidas, vão estar muito menos desprotegidos. Neste momento já estamos a ter várias informações sobre esta medida que a Austrália adotou no final do ano passado.
Resulta?
CM: Neste momento há dados que nos dizem que mais de 70% dos jovens continuam a aceder às redes sociais na Austrália. Quer sejam estas redes normais, quer sejam outras que são menos seguras do que estas, mas que já vêm fazendo algum trabalho no que diz respeito à segurança. Nunca é suficiente. O ser humano também tem uma capacidade incrível de ultrapassar para lá aquilo que pode ser feito. Quando proibimos os jovens de estar nestas redes principais, eles vão arranjar a forma de irem para lá. Vão, se calhar, para redes menos seguras. E, por outro lado, dá aqui uma falsa sensação aos pais de que eles estão seguros. Eles vão usar na mesma. Seja de que forma for, os jovens dão muito bem a volta. E pior ainda, como estão proibidos, se estiverem numa situação de risco, com quem é que vão falar? Vão sofrer em silêncio e, se calhar, ainda vão ser muito mais penalizados. E os danos ainda podem vir a ser maiores do que se se ensinar a estar nas redes sociais, ensinar os filhos, as crianças e os pais a estarem nesta vida digital.
E as plataformas não têm também responsabilidade neste assunto?
CM: Muita. As plataformas - e nós já temos visto notícias que têm vindo lá de fora - devem ser mesmo responsabilizadas. Porque, efetivamente, criam funcionalidades que tornam isto muito mais aditivo. E uma criança jovem que tem o seu cérebro que ainda não está completamente desenvolvido, que ainda responde muito mais pelas emoções do que pela razão, este tipo de funcionalidades aditivas são mais aditivas ainda nos jovens do que no adulto que eventualmente tenha mais autocontrolo.
TM: E temos que ser mais exigentes relativamente às plataformas, que é nas plataformas que o abuso sexual acontece, que o discurso de ódio acontece. As plataformas têm que ser obrigadas a agir rapidamente e a remover esse tipo de conteúdos de uma forma célere, o que infelizmente nem sempre acontece. São demasiado tolerantes a determinado tipo de conteúdos que está manifestamente comprovado, por um lado, que são ilegais, por outro lado, que são danosos ao nível da saúde mental dos jovens e tudo mais. Na realidade, e até se formos ver as questões da idade, o Regulamento Geral de Proteção de Dados é de 2018 e já proíbe o acesso às redes sociais a menores de 13 anos, ou seja, dizia que é necessário consentimento parental para os jovens, até aos 13 anos, acederem às redes sociais. O problema é que não houve o enforcement dessa lei. A lei existia, toda a gente sabia que bastava mentir na idade que as pessoas podiam ter acesso livremente às redes sociais. Os jovens arranjam forma de engarem o sistema.
Portugal está alinhado com outros países?
CM: Portugal quis seguir muito rapidamente esta questão - erradamente, do nosso ponto de vista. Primeiro porque não concordámos com a proibição, achámos que a proibição não é a solução, mas não é só isso. Porquê tanta pressa para criar isto neste momento? Porquê não esperar até para ver como estão os resultados de outro país? Como é que está a funcionar? E depois fazer melhor naquilo que não está a funcionar. Teria sido, do nosso ponto de vista, muito mais eficaz do que propriamente vir agora, com uma lei que sai em 10 dias, é aprovada e depois ouve-se os especialistas sobre estas questões, para ir ver as especialidades.
TM: Há aqui um problema: isto é extremamente conveniente para os pais. Dá-se um telemóvel, a criança fica caladinha e sossegadinha e eu posso ter o tempo para mim. E daí a importância da questão da mediação parental de que falámos. Qual é o problema? É que proibir vai responder às ansiedades dos pais. O mau é o Governo. O Governo é que proibiu. ‘É proibido, filho, não há nada que eu possa fazer’. A generalidade dos pais acolhe de boa vontade esta medida. E o Governo - não particularmente este, mas os que estão a adotar este tipo de medidas - vê aqui uma forma de ter um ganho de popularidade rápido e mostrar, sinalizar para a sociedade que estamos a fazer alguma coisa. Agora, se resulta, se não resulta, isso aí já é secundário. O problema é que, às tantas, podem estar a piorar uma situação em vez de a melhorar.
Proibições dos pais, das escolas, do Governo... Como é que uma criança reage a isto?
TM: Como é que vou ensinar uma criança a nadar se não tiver água? É complicado.
Devemos proibir, limitar ou educar?
CM: Educar e mediar. Nem é controlar, é acompanhar. Que é isso que nós fazemos com os nossos filhos. Como é que criamos os nossos filhos mesmo sem ser no mundo digital? Quando são pequenos começam a comer e não lhe damos uma faca para a mão. Eles vão crescendo e nós vamos dando as ferramentas. Vou dar o exemplo do andar de bicicleta. Primeiro começa com rodinhas. O pai ou a mãe ou alguém ao lado dela. Depois começam a ensinar a andar, mas os pais ao lado dela. Depois a criança já anda sozinha, mas anda por ali com os pais a verem. Depois a criança já começa a andar sozinha e vai. Mas primeiro ensinou-se como é que se anda, como é que se anda em segurança, como é que são os sinais. E ensinou-se junto à criança até desde que ela está sozinha. O mundo digital é exatamente a mesma coisa. Sabe qual é o problema? É que, se calhar, andar de bicicleta os pais até sabem ensinar. No digital, os pais podem não saber.
Precisam de ajuda?
CM: Precisam de formação e precisam de ter a consciência que precisam dessa formação. Acho que está a faltar aos pais um bocadinho de consciência de que para ser pai e mãe também se aprende. Há uma frase da parentalidade que eu gosto muito que diz que ‘amar um filho é intuitivo e educá-lo nem por isso’. A educação não vai sempre pela intuição. Aprende-se a ser melhor pai ou melhor mãe, incluindo no mundo digital. E não é vergonha nenhuma dizermos que não sabemos o suficiente e que queremos saber mais.
Aquela conversa de ‘os meus filhos não vão ter telemóvel até aos 16 anos’ também não será a mais correta, então.
TM: Das duas uma: ou nos distanciamos e procuramos ver as coisas de uma forma objetiva ou então quando estamos a vivenciar um problema, queremos é resolver o problema e às vezes isso que acabou de dizer é a forma que nós achamos que vai resolver o problema. Se nos distanciarmos, somos capazes de ter outra visão do assunto.
CM: Não há soluções únicas. As famílias são diferentes. Portanto, cada família também deve perceber o que é melhor para si, incluindo na parte do digital. A tecnologia veio mesmo complicar a parentalidade. Não é fácil, mas nós conseguimos. Há pais que conseguem. Existem várias estratégias que se pode tomar para que isto seja um momento mais seguro. Agora, o que estamos a ver é os pais a entregarem isto indiscriminadamente aos seus filhos. Acreditamos que a maior parte dos pais não têm mesmo consciência do que estão a fazer. Outros não querem ver.
Quando tiramos os equipamentos, estamos a revoltar as crianças?
TM: Uma das coisas de que falamos nas abordagens parentais é que as crianças têm necessidade - e os adultos também - de regras. Se não houvesse regras, andávamos todos aqui a matar-nos aos outros, a ter comportamentos que não eram socialmente aceitáveis e por aí fora. Quando os pais não criam regras aos filhos e não as fazem cumprir, estão a abrir a porta a comportamentos que são disruptivos e a comportamentos que são antissociais e que não são socialmente aceitáveis. O telemóvel é terrivelmente conveniente. Ponho isto assim a dar um videozinho e uma criança de meses fica hipnotizada a olhar para aqui. E os pais ao fazerem esse gesto que hoje lhes é muito conveniente porque estão num restaurante e podem comer sossegados não pensam no que vai acontecer a prazo. E a fatura vai ser muito elevada. Porque os pais só vão acordar para a realidade quando os miúdos tiverem 10, 12, 14 anos. E nessa altura eles já têm 10 anos de prática. O hábito está completamente enraizado e vai ser extremamente difícil de o remover. No dia em que os pais quiserem conversar à hora da refeição, os miúdos não estão minimamente interessados. Há pais que nos dizem que os filhos já não comem se não tiverem o telemóvel à frente. Infelizmente.