sexta-feira, 10 jul. 2026

Frederico Lourenço abre polémica com ocupações do PREC

Académico incluiu notas irónicas na tradução da Odisseia. Redes sociais descobriram-nas agora.
Frederico Lourenço abre polémica com ocupações do PREC

Já tem quase uma década a tradução anotada e comentada que o académico e escritor Frederico Lourenço fez da Odisseia de Homero. Mas, tanto quanto se saiba, só agora deram brado as notas de rodapé incluídas naquela edição de 2018, dada à estampa pela editora Quetzal.

Na rede social X comentavam-se há dias as notas de Lourenço. O registo irónico e as opiniões políticas implícitas espantaram alguns utilizadores e indignaram outros.

Acerca da passagem de Homero «queriam matar o teu pai e arrancar-lhe o coração, para depois arrasarem toda a sua grande propriedade», o tradutor escreveu: «Muito pacíficas foram, em comparação, as ocupações de latifúndios no Alentejo a seguir ao 25 de Abril», durante o Período Revolucionário em Curso (PREC).

Num trecho que refere uma gaivota, anotou: «Ave cujo nome me vem à memória quando vejo as gaivotas a atacarem os tabuleiros deixados pelos comensais nas esplanadas do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa».

Ou ainda: «Um poeta de hoje talvez não se ofendesse por saber que, na mundividência homérica, médicos e aedos [poetas] estão no mesmo patamar de valor; um médico de hoje, porém, dificilmente aceitaria ver-se colocado em pé de igualdade com um carpinteiro».

Frederico Lourenço, de 63 anos, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, publicou uma primeira tradução da Odisseia em 2003. Em nova edição de 2018 acrescentou-lhe as notas e comentários agora redescobertos.

Segundo o jornalista e editor Francisco José Viegas, que o convidou para a reedição em 2018, os exemplos apontados nas redes sociais de observações humorísticas «são apenas uma pequena amostra».

«Muitas vezes, as notas do Frederico estão cheias de apartes cómicos, que pretendem desanuviar os leitores, ao mesmo tempo que tentam explicar de forma acessível os problemas filológicos mais complexos. Verifica-se o mesmo nos comentários a Horácio e, até, nos volumes com a tradução da Bíblia e dos Evangelhos Apócrifos», explicou Viegas

Para o editor, «muito à sua maneira» Frederico Lourenço «surpreende, instrui e diverte nas notas e comentários que apõe aos textos clássicos», considerando tais notas «extremamente eruditas e extremamente cómicas».