Só um milagre de Santa Bárbara, padroeira dos bombeiros e das trovoadas, pode evitar incêndios de dimensões catastróficas. A tempestade Kristin aumentou, de forma considerável, a área do território de perigosidade muito alta (12%) e alta (15%). O Estado falhou na limpeza da floresta.
Em média, Portugal tem 12 dias por ano de condições meteorológicas que tornam os fogos rurais potencialmente incontroláveis: temperaturas persistentes acima dos 30º, humidade abaixo dos 30% e vento acima dos 30 Km/hora. Se este verão não fugir à regra, já pouco haverá a fazer.
Os peritos estão apreensivos. «O país já tinha várias zonas de elevada vulnerabilidade. Este ano, temos um problema novo: na região afetada pela tempestade, o combustível da copa das árvores veio cá para baixo, em zonas de interface urbano-rural», descreve Akli Benali. O que significa isso? «Sim, podemos vir a ter problemas dentro de vilas e cidades», responde este doutorado em Ciência dos Incêndios Florestais da Universidade de Lisboa.
Copas das árvores no chão são como gasolina capaz de alimentar fogueiras infernais de dezenas de quilómetros de extensão, que o dispositivo português já nem tenta deter. «Os combustíveis disponíveis para queimar no terreno onde ocorre a ignição têm um impacto enorme na possibilidade, ou não, de supressão do incêndio», alerta o australiano Gary Morgan. Há quatro anos, coordenou uma grande investigação aos problemas da gestão de fogos em Portugal. Explica ele que o fogo obedece impiedosamente a uma lei da física: «Quanto mais combustível é adicionado a um fogo de cozinha, mais altas são as chamas e o calor gerado. Da mesma forma, se um incêndio é iniciado onde há muitos combustíveis florestais secos, maior será a altura das chamas e a intensidade do fogo. Como consequência, é mais difícil extingui-lo».
O Estado continua a falhar na limpeza da floresta. «Os esforços de gestão de combustível ficaram novamente aquém em 2024, com apenas 75.559 hectares tratados, ou seja, 60% abaixo dos objetivos definidos», critica a OCDE, em relatório sobre o caso português, publicado em abril deste ano.
O Governo reagiu à escandalosa carnificina de 2017 - morreram queimadas 119 pessoas - com um Programa Nacional de Ação para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (PNAGIFR). Para desgraça da população que continua em risco, esqueceu-se de um detalhe decisivo: levar a sério as metas definidas pelos peritos, implementando-as.
Portugal falha metas de fogo controlado
Antigamente, a gestão de combustíveis florestais era garantida pela pastorícia e as atividades agrícolas. Com o abandono dos campos e o êxodo da população rural, esse modelo desapareceu. Em lugar de uma paisagem em ‘mosaico’, a floresta e os matos expandem-se desordenadamente, alimentando fenómenos catastróficos. O incêndio de Piódão, de agosto do ano passado, foi o maior de sempre em Portugal: arderam 65 mil hectares.
O mundo rural transformou-se numa selva com milhares de proprietários: 97% do território florestal e de matos é propriedade privada, espartilhada em regime de ‘microfúndio’. A Norte do rio Tejo, a média anda no meio hectare por proprietário, menos do que um campo de futebol. A maioria nem sabe que terras possui, nem os caminhos para lá chegar. «Para implementar uma área de gestão de 100 hectares - que pode ser insuficiente para deter incêndios de 10 mil ou 20 mil hectares - preciso do acordo de uns 200 proprietários», lamenta Akli Benali.
Na região Centro, nos 23 mil hectares em situação crítica de risco, devido às tempestades, o Governo ofereceu subsídios para os proprietários recolherem as árvores caídas. E publicou legislação para permitir ao Estado intervir coercivamente. Ainda em março, foi alertado para a ineficácia dessa estratégia. «É infantil, porque não temos recursos humanos ou materiais, nem tempo para isso», avisou o arquiteto paisagista Henrique Pereira dos Santos, em entrevista à TVI. A solução deveria ter sido o recurso intensivo a ações de fogo controlado, enquanto a temperatura o permitisse. «Não temos a opção de evitar que a floresta arda, isso não existe. O que existe é a escolha entre duas opções: ou arde como nós queremos, ou arde como nós não queremos», resumiu este especialista.
O fogo controlado é das medidas preventivas do PNAGIFR com taxas de execução mais baixas. O ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, anunciou o objetivo de o «duplicar».
Para os peritos, este objetivo é curto: seria necessário mudar de escala. «A quantidade de fogo controlado que se faz em Portugal está muito abaixo das necessidades do país. Duplicar, continua a ser muito pouco», considera Pereira dos Santos. «O dobro de nada continua a ser nada. O dobro de pouco continua a ser pouco», concorda Akli Benali.