Foi presidente de câmara e vereador. Alguma vez se debateu com um problema semelhante ao que se está a passar em Almada?
Nunca. Graças à colaboração exemplar do engenheiro Batista Alves, presidente do SMAS de Sintra, e ao saudoso dr. Almeida Henriques, então secretário de Estado, fizemos um grande investimento numa nova conduta central que diminui substancialmente as perdas de água. E a obra só terminou em 2017. Em Sintra não metemos água.
É normal cargos técnicos serem desempenhados por funcionários partidários?
Deve haver, com e em rigor, compatibilização entre a sugestão/indicação política e a adequação académica/profissional para o exercício de concretos cargos.
Foi presidente da Câmara de Sintra, e concorreu em Lisboa e Odivelas, onde perdeu. Qual a razão para ter concorrido a câmaras tão diferentes?
Em cada uma das situações concorri, empenhado, a solicitação do meu partido e das suas estruturas. Saber perder é mais importante que saber, sorrindo, ganhar. E em Sintra ganhei com duas maiorias absolutas… contra João Soares e Ana Gomes. Dignos vencidos.
Como é enfrentar, durante anos, processos judiciais por causa de decisões tomadas na gestão autárquica?
Saber ser resistente tendo, sempre, como em outras situações, a consciência bem tranquila. Muito tranquila. Como agora com gravações ilegais.
Como vê esta polémica sobre os áudios de Pedro Proença?
Sou obrigado a ver. Mas continuo a preferir ver o verdadeiro jogo dentro das quatro linhas.
Em 2011, dizia que também era um africanista de Massamá e que tinha orgulho de a população escolar local ter mais de 10% de alunos não portugueses. Olhando para os dias de hoje, o número de imigrantes é mais uma razão de alegria do que de preocupação?
Desde 2002, primeiro ano em Sintra, tenho consciência dos fluxos da imigração. Sempre dos PALOP’s. Depois da Europa de Leste. Agora novas origens como Extremo Oriente e, também, e significativamente Brasil. Como tem percebido pela sua experiência e sapiência, o dr. Marco Almeida, presidente da Câmara Municipal de Sintra.
Em 2013, quando concorreu à Câmara de Lisboa, dizia que a cidade parecia uma lixeira a céu aberto. Tantos anos depois não mudou grande coisa. Ou pensa que sim?
O lixo é um problema da urbanização contemporânea e dos novos hábitos de consumo. Agora, em pacotes e embrulhos, tudo chega à nossa casa. Comida e livros, roupa e utensílios e muito mais. Exige-se, em tese, civilidade e educação para a cidadania. Com a consciência, complexa, de um sentir comunitário. Mas importa palavras de agradecimento às mulheres e homens que recolhem e tratam do lixo. Muitas vezes esquecidas(os).
Curiosamente, tantos anos depois Lisboa volta a ter um problema com esplanadas. Na altura, dizia que José Sá Fernandes tinha muito poder. O que se passará hoje para pouco ter mudado?
Acima de tudo, agora mais, o ‘licenciamento zero’. Simplificação perturbante. E as garantias jurídicas que ele implica. Primeiro abre. Depois, mesmo em claro desrespeito, à lei… raramente encerra. Daí uma meditação urgente.
Sente-se mais político ou advogado?
Sou advogado. E professor. Estive presidente de câmara. E nunca deixei de ter plena consciência, mesmo para além da limitação de mandatos, da diferença, entre ser e estar.
Sempre teve uma imagem singular nas suas aparições públicas. Foi uma grande desilusão não ter sido presidente da Federação Portuguesa de Futebol?
Só fui candidato à Liga. E fui impedido por um golpe de secretaria. Bem urdido. Repito golpe… e de secretaria. E por alguns que ainda andam… por aí! Acreditem.
Foi considerado o comentador desportivo mais bem pago da televisão portuguesa. Sente falta de aparecer na televisão?
Agora, e por ora, só na CMR às segundas-feiras. De vez em quando uma ‘fuga’ à televisão. Importa ter consciência que há tempo para o recato.
Ainda mantém alguma ligação a Manel Serrão?
Conheço o Manuel Serrão há cinquenta anos. Desde o Colégio Universitário Pio XII. E a vida é luta e não fuga. Sempre.
Do seu grupo da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa com quem se dá melhor, entre Durão Barroso, Santana Lopes, Lucília Gago e Manuela Moura Guedes?
O meu ano é de homens e mulheres singulares. Entrámos em 1973, antes da Revolução, e vivemos tudo, tudo mesmo, nos cinco anos do curso. Sim o Zé Manuel e o Pedro. A Maria dos Prazeres e a Francisca, o Amadeu e o Fernando, a Isabel e o João e tantas e tantos outros. E imensas saudades, também, da Querida Joana Marques Vidal. Uma Senhora de verdade. Uma Jurista singular. Uma Mulher de coragem.
Ana Gomes construiu uma piscina muito polémica. O seu amigo Luís Neves também está a ser acusado de ter feito uma piscina sem pedir autorização. É normal este comportamento?
Conheço piscinas que eram tanques e tanques que evoluíram para piscinas. Conheço anexos que se transformaram em espaços para reunião e convívio. E sei de muitos, que agora comentam, que, com dificuldade, legalizaram certas ‘insuficiências urbanísticas’. Ter memória é um bem. Mesmo aos setenta anos.