sexta-feira, 13 mar. 2026

Fernando Correia: 'Quero ter orgulho de mim próprio até à hora da morte'

Aos 90 anos, Fernando Correia continua ativo e fiel aos seus princípios. Numa conversa marcada pela memória, pela crítica e pela reflexão espiritual, a história voz da rádio e da televisão portuguesa conta como começou a sua carreira, a sua ligação ao jornalismo desportivo e confessa a sua espiritualidade numa fase da vida em que, garante, ainda há caminho para fazer. E não hesita: 'Enquanto cá estamos é para viver, mas para viver de uma forma decente'.
Fernando Correia: 'Quero ter orgulho de mim próprio até à hora da morte'

Com mais de 60 anos de carreira, Fernando Correia é um rosto e uma voz conhecida do grande público. Conta como começou o seu percurso no jornalismo, ainda nos tempo da censura na Emissora Nacional até à sua afirmação no desporto, onde se destacou com o programa Bancada Central. Autor de 47 livros fala ainda do espiritualismo e da obra O Dia em que Jesus Voltou, numa fase de maior reflexão sobre a vida e a morte.

 

É um dos rostos e uma das vozes conhecidas dos portugueses, com uma longa carreira no jornalismo ligada à rádio e à televisão. Publicou livros e tem também um podcast focado na atualidade desportiva. O que lhe falta fazer?

Há sempre uma resposta que se pode e deve dar a isso: é que a vida não pára. Enquanto cá estamos é para viver, mas para viver de uma forma decente. Quero ter orgulho de mim próprio até a hora da morte. Primeiro, não estou muito preocupado com a idade. Foi coisa que nunca me preocupou porque acho que não adianta nada. Segundo, enquanto for útil a mim próprio e à vida é evidente que continuo a trabalhar. Tenho um podcast. Trabalho na rádio Amália, onde faço a Bancada Central, que é um velho programa da TSF, duas vezes por semana, ao sábado e à segunda-feira. Serve para me manter ativo. A RDS do Seixal pediu-me um podcast às terças-feiras sobre a semana desportiva. Também tenho-me dedicado mais à escrita. Nunca deixei de escrever, mas agora tem sido a altura certa para pôr em livro o que não vivi e que devia ter vivido, daí ter optado muito pela tentativa de descobrir algumas coisas que para mim eram tabu. A religião, por exemplo, é tabu. Sinceramente nunca me dediquei à religião porque achei que era absurda, mas dedico-me ao espiritual, no acreditar em alguma coisa além do conhecido porque quem não acreditar, naturalmente, morre ainda mais vazio e mais distante da verdade absoluta. Não sabemos qual é a verdade, mas vale a pena pensar que existe uma verdade além de tudo aquilo que conhecemos para, pelo menos, morrermos com esperança.

 

Isso significa que descobriu a religião?

Não, não descobri a religião. Descobri o espiritualismo. Primeiro comecei por descobrir a teosofia da Helena Blavatsky e interessei-me muito. Mais: curiosamente, a médica que pôs na vida os meus primeiros dois filhos do primeiro casamento, tinha eu 22 anos, era, além de médica, uma apaixonada pela teosofia e encaminhou-me para isso. Disse-me: ‘Faço uma coisa nova que se chama parto sem dor. Acho que a dor é psicológica e a mulher, além do mais, tem a alegria de ter um filho. Não pode ter dor, não faz sentido. E mesmo que não consiga dominar a dor pode chegar lá através da mente’ e então fizemos o parto sem dor e isso é um princípio teosófico. Era a Cesina Bermudes, filha de um grande escritor, Félix Bermudes. Apaixonei-me pela teoria das duas e Helena Blavatsky foi uma mulher que dedicou toda a sua vida à teosofia e sofreu com isso porque ninguém acreditava nela. É muito difícil acreditar nas coisas que não conhecemos. E quando aparece alguém a dizer: ‘caminha por aqui, a ideia que tenho é esta’ ou ‘atenção que há alguma coisa que vocês não conseguem descobrir, porque nunca se dedicaram profundamente a esta descoberta, mas se lutarem por isso vão descobrir a verdade e quando descobrirem a verdade a vida é muito mais fácil para vós’ mostra que vale a pena acreditar em alguma coisa. Não sabemos quando é que vamos morrer, ninguém sabe. Pode durar um ano, dois, vinte, cem. Simplesmente não pensamos na morte numa primeira altura da vida porque estamos a crescer, é normal. Quando nascemos, nascemos para viver. Não nascemos para morrer. Mas há uma certa altura na vida em que dizemos: ‘Já resistimos a isto tudo, naturalmente, a morte deve estar a chegar’.

 

Está aí à porta?

Está aí à porta. Vale a pena pensar nisto agora mais um bocadinho. E nesse aspeto tenho-me dedicado mais ao mistério da morte. Gostava muito de poder alguma vez provar aquilo que o nosso Fernando Pessoa disse: ‘Não há morte’. Quando li isto pela primeira vez, pensei: ‘Não, é ele a passar paninhos quentes para ver se dói menos’. Não sei se não há morte. É capaz de não haver morte.

É uma passagem?

Há morte física, claro que sim. Está provado que há. O corpo desaparece. Tudo desaparece, mas tudo se transforma. Mas o meu poder espiritual gerado por mim durante a minha vida, toda esta minha capacidade espiritual pode ser o início da minha transformação. Não me considero um maluquinho, mas acho que este é um caminho possível. E por ser um caminho possível posso dizer como Fernando Pessoa: ‘Não há morte’. É uma passagem.

 

E ao pensar dessa forma torna a ideia da morte mais leve?

Se acreditar que a morte é subjetiva, não é objetiva, é evidente que sim.

 

Foi essa espiritualidade que o levou a lançar em dezembro o livro O Dia em que Jesus Voltou?

É capaz de ter a ver com isso. Por duas coisas. Por isso, sem dúvida. Por outro lado, é porque esta figura de Jesus é apaixonante. Quem é Jesus? Quem foi Jesus? O que andou a fazer aqui na Terra? Foi um ser normal? Um homem bom? Um homem que espalhou o bem? Ensinou? Tinha bons princípios? Tudo aponta que sim. Não importa se é filho de Deus ou não. Jesus é filho de um casal normal. Não nasceu por obrigação dos Espíritos Santos, nem pensar. Cumpriu uma determinada missão na Terra e foi morto por homens porque não lhes convinha que houvesse uma pessoa boa a dizer coisas diferentes, a dizer coisas bonitas e a motivar as pessoas para uma ideia nova. E assassinaram-no. Esta figura é apaixonante. Como é que um ser tem capacidade para resistir a tudo e dedicar-se à vida tal como ele quer que ela seja, ensinando, moralizando, apontando os caminhos. Foi isso que me levou a escrever o livro.

 

Mas não é um livro religioso?

Não, não. Porque é que Jesus está ligado à religião?

 

Por causa da Igreja.

Mas não sou católico. Não tenho nada a ver com isso. Interessa-me a figura de Jesus, que é apaixonante. E a seguir vou tentar descobrir - é mais complexo - a figura de Deus. Quem é Deus? É mais complexo.

 

E vai lançar em livro?

Sim, vai sair este ano.

 

Quantos livros já escreveu?

Quarenta e sete. Entre contos, livros de desporto, biografias, romance, ensaio. O livro de Jesus não é um romance, é um ensaio.

Mas antes dessa espiritualidade entrou no mundo desportivo...

Vivi uma época muito complicada, muito difícil. Os meus princípios como jornalista foram muito complicados. Não só os meus, muita gente em Portugal viveu assim por causa da política. Entrei para a Emissora Nacional em 1956. Fantástico, não é? E vivi com Salazar até 1974. É muito tempo, é dose, principalmente quando se é vítima. Fui vítima porque era um jovem, cheio de sonhos, cheio de vontade de fazer coisas, de descobrir o mundo, e tinha jeitinho para a rádio. Em 1961 mandaram-me para Angola fazer reportagens da guerra e eu fui. Estive lá. Não sei precisar, mas acho que foram seis meses e tal, mais perto dos seis do que dos cinco. Corri riscos, mas vi a guerra da forma que achava que devia ser vista, que era o lado da verdade, não era o lado da encomenda e isso tramou-me logo. Quando cheguei a Portugal fui ouvir as reportagens. Estava tudo gravado, claro, para ver como é que tinham saído e, nessa altura, era ingénuo e descobri com grande surpresa que estavam cortadas pela censura. E perguntei-me: ‘O que é que andei lá a fazer? Andei a mentir às pessoas?’. Não morri por acaso e isso entristeceu-me porque os meus sonhos de jovem jornalista foram cortados pela censura do Salazar. Isso mais o que aconteceu a seguir, as reportagens da partida dos barcos para o chamado Ultramar, depois o regresso de alguns barcos e dos caixões, os choros, as lágrimas, os gritos, as mães a perderem os filhos, as mulheres a perderem os maridos levou-me a pensar ‘não faço mais isto, não consigo’. Fui ter com um senhor muito conceituado na rádio, em Portugal, Artur Agostinho, e disse-lhe que ia deixar de fazer rádio. Perguntou-me a razão, porque achava que eu tinha muito jeito, e expliquei-lhe o porquê. Ele disse-me: ‘Fernando, quem tem dinheiro vai para fora, foge disto. Quem não tem dinheiro e tem convicções politicas fica. Tu não tens nem dinheiro, nem convicções políticas’. E deu-me uma hipótese de fazer desporto: ‘Não há censura no desporto. E pagamos-te à parte. Ganhas a duplicar’. Pensei nisso. Já estava casado, tinha dois filhos e então comecei a fazer desporto sem nunca ter entrado num campo, mas tinha de ser para sobreviver. Foi assim que comecei, não foi por vontade própria.

 

Não foi pela paixão do desporto...

Não foi por vontade própria, nem por ter muito jeitinho. Tive necessidade de fazer isso.

 

E depois nunca mais virou as costas ao desporto...

Não, mas paralelamente fiz outras coisas. Fiz programas de autor. Programas de cabine, como dizíamos. Tive um programa chamado Dimensão 3, no Programa 3 da RDP. E foi nesse programa que me pediram para colocar dois jovens que tinham vindo de Angola e que precisavam de ganhar dinheiro: Emídio Rangel e Jorge Pêgo. Começaram comigo no meu programa Dimensão 3, que terá sido um pouco a base ideal da TSF. Quando o Emídio Rangel fundou a TSF, em 1989/1990, levou-me para chefe da secção desportiva porque, naquela altura, já era conhecido pelo desporto.

 

E como surgiu o programa Bancada Central?

Foi na TSF. Foi uma ideia do Emídio Rangel. O primeiro programa foi, salvo erro, em 94. Quatro anos depois de ter entrado.

 

Estava à espera desse sucesso? Ainda hoje se fala do programa...

Não estava, e tem uma explicação. Surgiu da necessidade de os ouvintes darem a sua opinião no desporto. Isso levou a que o programa tivesse um sucesso tremendo. Não era nada de especial, lançava um tema, eles falavam, eu ouvia, equilibrava e não deixava dizerem disparates. O segredo foi esse: dar voz às pessoas. As pessoas querem ter voz, querem ser livres.

 

E como vê agora os programas desportivos?

Isso alterou-se tudo. Agora queremos comentadores, se possível, ex-jogadores de futebol ou treinadores que estejam no desemprego Então essa é que é a defesa dos valores nacionais? A mim ninguém me perguntou se queria jogar à bola. Porquê? Porque era jornalista, não era jogador de futebol. Neste momento vejo com muita preocupação que um diretor de informação de uma televisão, de uma rádio, seja o que for, pense assim. Acho terrível. Primeiro, os valores nacionais são mais importantes. Depois, é muito difícil aguentar os atuais programas de desporto na televisão e na rádio. Os comentadores são uns chatos, complicados quando o futebol que é uma coisa muito simples: são onze de cada lado para meter a bola na baliza e estão durante 45 minutos ou uma hora a falar de táticas fantásticas: o jogo interior, o jogo exterior, o jogo aéreo, o jogo não sei o quê, o 4-2-4, 4-3-3. Não faz sentido, o futebol foi idealizado assim: evitar que a bola entre na baliza e tentar meter a bola na baliza dos outros.

 

Daí tentar ser diferente no programa que faz na Rádio Amália?

É, só acrescentei uma coisa, que é ter sempre um entrevistado. Levo comigo uma pessoa que esteja em evidência por qualquer razão e entrevisto-a. Um escritor, um político, um treinador, um jogador, mas o programa é desportivo.

 

O entrevistado tem de gostar e de perceber de futebol?

Ou de outra modalidade qualquer. Pode ser basquetebol, hóquei em patins... Não é necessário ser de futebol. Era o que faltava.

 

O que acha que se devia fazer nesta matéria?

Acho que falta credibilizar a prática desportiva em Portugal. Tudo o que devia ser feito pela credibilização da prática desportiva não foi feito. Aliás, como em muitas outras áreas deste país. Mas é notório que chegámos a um ponto em que é cada vez mais complicado e até mais perigoso andar no futebol, que é uma modalidade que movimenta milhões ao nível dos jogadores mais importantes. E depois, todos os dias, vemos que há jogadores que são agredidos, jogadores que roubam toalhas, apanha-bolas que roubam toalhas, apanha-bolas que escondem bolas. O que é isto? Mas isto é recorrente. E depois quem tem culpa é o árbitro. Culpa de quê? Não faz sentido. O futebol é apenas aquilo que disse há pouco: é um jogo em que o objetivo é fazer com que a bola entre na outra baliza e não entre na nossa. Se quiser pôr 11 gajos em frente da baliza, a bola nunca mais entra. É necessário ter um programa em que se discutisse o lado positivo da prática desportiva e evitar que as atenções sejam desviadas para outras coisas porque há pessoas que vão ao estádio porque querem fazer mal, são pessoas arruaceiras.

 

E as claque de futebol contribuem para esse ambiente?

Sim, mas porque é que existem claques a esse nível e com essa baixeza? Porque são sustentadas pelos clubes.

 

Eles dizem que não...

São pagas. Ainda há pouco vimos o processo do Macaco do Futebol Clube Porto. É rico, não trabalha e é chefe de uma claque. E como é que é rico? Foi buscar a qualquer lado. Naturalmente, a Pinto da Costa quando era vivo, agora com Villas-Boas. O mesmo se passa em relação a Rui Costa e a Frederico Varandas. As claques existem. São pagas e são sustentadas pelos clubes. Há claques compostas por gente que nunca trabalhou. São profissionais claqueiros. Inacreditável.

 

Nunca escondeu o seu gosto pelo Sporting. Isso não o prejudicou?

Foi uma experiência interessante. Estive durante 18 anos como subdiretor e vice-diretor do jornal [do Sporting]. Foi interessante porque tentei, não sei se consegui ou não, a credibilização do jornalismo desportivo, incluindo o jornalismo de clube. Ou seja, fazer com que o jornalismo de clube fosse alguma coisa mais do que uma guerra de nervos e do ‘eu sou melhor que tu’. Lembro-me que, nessa altura, o diretor do jornal do Benfica escreveu um artigo para o jornal do Sporting e eu escrevi um artigo para o jornal do Benfica. Não há nada melhor. A intenção era esta, o caminho era este, depois não quiseram que fosse, claro. O que interessa é ser inimigo, não é amigo. Isso de ser amigo não serve os interesses de ninguém. Essa foi uma experiência muito boa, muito interessante. Gostei muito de lá estar.

 

E em relação à sua experiência como porta-voz de Bruno de Carvalho?

Fui iludido pelo facto de ser sócio antigo do Sporting. Sou sócio desde que nasci. Neste momento sou sócio número 69. E achei que quando o Bruno de Carvalho me estava a chamar para ir para o pé dele era para o bem do Sporting e não para bem dele. Evidentemente que isto era um disparate, era uma ilusão de passarinho. Quando lá cheguei vi que era tudo ao contrário. Queria o bem dele e talvez pelo caminho menos correto. Foi uma má experiência. Não gostei, mas foi um ensinamento. Falava mais do que eu. Desdizia-me. Estive um mês e meio. Foi muito curto, mas sofri muito.

 

Acha que os Sportinguistas já lhe perdoaram por ter tomado essa decisão?

Não sei, se fosse eu já lhes tinha perdoado. Eles a mim, não sei. A clubite é uma doença grave. É uma doença de paixões e, portanto, não sei se são capazes de perdoar. Houve alguns que sei que não perdoaram, lamento.

Continua a ir ao estádio?

Tenho lugar cativo. Agora, como tenho frio no inverno, vejo em casa.

 

Ainda pensou estudar Medicina, mas a comunicação falou mais alto?

A história é simples. Tinha essa paixão, queria ser médico e fiz o exame. Naquela altura, fazíamos o sétimo ano e depois o exame de admissão à faculdade. Fiz tudo isso, mas quando fiz 18 anos - antigamente as pessoas eram emancipadas aos 18 anos - verifiquei que os meus pais estavam à espera que fizesse 18 anos para se divorciarem. O que é que aconteceu? O meu curso de Medicina foi para o galheiro porque tive de ir trabalhar para sustentar a minha mãe. Não estou arrependido, mas perdeu-se a minha vocação. As coisas poderiam ter sido diferentes? Sim, sem dúvida nenhuma.

 

Com mais de 60 anos de carreira o que sente que lhe falta fazer?

Vou dizer isto sem nenhuma angústia. Estou bem na vida, tenho a minha reforma, ganho dinheiro. Não é isso que está em causa, mas acho que ainda tinha lugar na televisão. É uma amargura. Acho que podia ser útil dentro desta perspetiva que sempre defendi: honestidade, lealdade e palavra certa. Falta a palavra certa no comentário português. O Rui Santos, às vezes, tenta chegar lá e isso é bom. Já admirava muito o seu tio, o Vítor Santos, e por essa razão também admiro o sobrinho, porque tenta chegar ao comentário com substrato, como se costuma dizer. Esse é que tem de ser o caminho. Enquanto os jornalistas continuarem a alimentar as fogueiras da discussão, do desentendimento, da guerra que há entre clubes, não se consegue lá chegar. Acho que a minha missão, ainda nesta altura, sem pieguices, podia ser perfeitamente um programa desse tipo, em que ajudasse através da retórica a explicar como se deve estar no desporto e para que serve o desporto.

 

Depois de ter saído da TVI nunca tentou apresentar esta proposta aos outros canais de televisão?

Tenho um defeito. Tenho milhares, claro, mas tenho um terrível, que é nunca pedir nada a ninguém. Acho que as pessoas ou descobrem por elas o meu valor ou então não vou bater à porta a pedir. Quando quiserem estou disponível.