Como foste desencantar a história de Carolina Loff?
Este trabalho andou, como grilhetas, duas décadas aos meus pés. Na década de noventa, quase no início da minha carreira no Expresso, penso que foi no seguimento de uma biografia, falei com Edmundo Pedro, essa também controversa figura. Edmundo Pedro, que foi do PCP, conheceu-a bem e acabou por estabelecer o contato. Encontrei-me com Carolina no duplex onde vivia. Teria já uns oitenta anos mas ainda impressionava pela beleza. Era altíssima, tinha os olhos azuis que pareciam abarcar o mundo. Tentei convencê-la a dar-me uma entrevista, arranjei os melhores argumentos. Disse-lhe: A Carolina saltou do quadro, quebrou a moldura mas viveu. Muitos passam por aqui sem acrescentarem um ponto à história. Serena, como se estivesse a falar da vida de outra personagem, respondeu: «Mas eu nunca quis sair do quadro.» Claro que me deu uma nega. Falar do passado nem pensar. Claro que não me conformei com a resposta. Consultei os arquivos da Torre do Tombo. À época, tanto quanto me lembro, só estava disponível a sua ficha da PIDE e nem sabia como se chamava o pide por quem ela se apaixonou. Foi só em 2025, quando estava a fazer um trabalho sobre a Catarina Eufémia e consultei o processo sobre a sua morte no Arquivo do Exército, que o diretor me anunciou que tinha lá um processo inédito sobre Álvaro Cunhal. Estive quase para não o pedir, porque pelo resumo da conversa não me pareceu que fosse inédito. Lá o regateei e quando me trouxe a documentação dei um pulo: era um processo não só sobre Álvaro Cunhal mas também sobre Carolina Loff, quando ambos foram presos na década de quarenta. Fiquei obcecada, já não sosseguei. E na Torre do Tombo que, passados vinte anos, já tinha tudo informatizado, segui o meu caminho. Depois falei com várias pessoas que a tinham conhecido. A colaboração de uma prima de Carolina foi extraordinária. Sem ela este livro não era possível.
O que te impressionou mais na mulher, terá sido agente dupla, trabalhando para os soviéticos e para os americanos ou nada disto se confirmou?
Esta é a história extraordinária de uma mulher que, nos anos trinta, jurou fidelidade ao socialismo e ao Partido Comunista Português. Foi presa e torturada pela PIDE, na altura ainda era Polícia de Vigilância do Estado (PVDE), por pertencer às Juventudes Comunistas. Saiu dos calabouços e foi trabalhar em Moscovo onde entregou a filha bebé aos cuidados do PC soviético. Pouco tempo depois foi lançada para Espanha onde já só os devotos acreditavam no sonho republicano e é de novo presa, desta vez pelos franquistas. Ao contrário de muitos sobreviveu. Acaba por ser de novo detida pela secreta portuguesa e, incrivelmente, acaba por trair o partido e apaixonar-se pelo pide que a prendeu. Estou convicta de que a mola que quebrou Carolina e a levou à traição foi a necessidade tremenda, motivada pela culpa, reencontrar a filha o que apenas conseguiu 14 anos depois. A sua capacidade de resistência já tinha sido testada várias vezes, ela não era uma mulher que cedesse. Talvez pensasse que fazendo jogo duplo o conseguisse. Quando se navega nestas águas, dificilmente se sai delas. Como ela começou por dizer nos autos da PIDE, apenas tinha uma missão: encontrar a filha. Mas para o conseguir tinha de voltar a pisar solo soviético e era impossível fazê-lo sem ser fuzilada. Ela foi lá com muita regularidade, e só há uma explicação para isso: era uma agente soviética. No livro também está descrito que a própria PIDE a vigiou nessas viagens. . Ora se acompanhou os seus movimentos e não a prendeu não há duas leituras possíveis: ela teria jogado com a PIDE e vice-versa. Quando se navega nestas águas dificilmente se sai delas.
Vais publicar a história do SOL em livro. Sendo uma história com ingredientes tão fascinantes, o que falta para se fazer um filme sobre Carolina Loff, militante comunista que se apaixonou pelo pide que a torturou?
Acho que daria um filme ou uma série muito interessante. Mas em Portugal nunca se sabe. Colaborei num guião sobre a Casa Pia que já foi enviado para as várias estações portuguesas. A RTP por exemplo, já disse, perentoriamente que não. Mas esse tema vai permanecer tabu ad eternum.
O poder de Carolina era tão forte que até conseguia 'converter' homossexuais, pelo menos durante uma noite. Porque achas que a CIA se começou a interessar por ela? Não tiveste acesso a documentos da CIA relativos a Carolina?
Ela tinha um efeito especial nas pessoas, homens e mulheres. A ideia que tenho é que ela era extremamente sensual. Aliás penso que ela era uma pragmática sexual, o que assenta como uma luva a uma espia. Estas pessoas não se criavam relações de intimidade. Tive acesso, claro, a documentação da CIA, foi, aliás o fundamental para este trabalho. A CIA entendia que Carolina fazia parte da Rote Kapelle, ou Orquestra Vermelha, uma rede que operou na Europa Ocidental durante a ocupação nazi e propôs à secreta portuguesa uma investigação conjunta a Carolina e alguns judeus que a ela estavam ligados. Tudo isto está documentado na Torre do Tombo.
O Partido Comunista sendo tão conservador, terá aceitado que Cunhal se tenha envolvido com ela?
Álvaro Cunhal teve várias mulheres. Até viveu com duas irmãs e, nessa altura, estava na União Soviética tremendamente moralista!
Quem te conhece, sabe bem que adoras 'voar' na maionese de histórias que envolvem espiões, sexo e traição. Quanto tempo levaste a fazer a reportagem?
(risos) Infelizmente é a minha segunda história com esses ingredientes. A primeira foi sobre a vida da amante do capitão Almeida Santos que ficou consagrada no livro de Cardoso Pires, A Balada da Praia dos Cães. Mas aceito sugestões. Esta investigação foi feita no verão de 2025. Uns três meses.
O teu estilo, por vezes, exagerado é que te levou a escrever quer a tortura da PIDE sobre militantes comunistas era semelhante à da GESTAPO?
(risos) Exagerada era a PIDE! Tudo isso está documentado nos arquivos da Torre do Tombo. E já falei com muita gente que passou por esses horrores. Aliás não são novidade. Na guerra colonial, e tenho um livro sobre isso, houve de tudo: um capitão que, logo no início da guerra, em 1961, injetava ar nos presos para os matar de forma económica, outro fazia porta-chaves com dedos cortados dos prisioneiros, outro atirava-se crianças para o ar como se fossem uma bola, e quando os seus corpinhos baixavam, espera-as a faca do herói. Até tenho fotos, no meu livro Massacres em África, de vários prisioneiros, desde o momento em que eram abatidos, transportados num camião de caixa aberta, até às valas comuns onde eram enterrados. Queres mais?
Acreditas que na Torre do Tombo haverá histórias idênticas envolvendo antigos militantes comunistas?
A Torre do Tombo tem sido uma amiga na minha carreira. Acredito que ainda há muitas histórias por explorar. É preciso é paciência, investigação, e saber como investigar.