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Na noite de 16 de julho, depois de a TVI ter anunciado a investigação conjunta com o SOL e a CNN Portugal em que se revelava que o atrelado de um camião apreendido numa operação da Polícia Judiciária contra o tráfico de droga desaparecera e estava na posse de João Santos Carvalho, empreiteiro de Barcelos amigo do ministro da Administração Interna, começou a circular nas redações de alguns órgãos de comunicação social o teor de um pretenso comunicado da Polícia Judiciária (PJ) que relativizava a situação do atrelado (ou galera) e justificava-a com a urgência que tinha havido em dar-lhe um destino, garantindo-se que estava tudo documentado.
A informação veiculada no pretenso comunicado era completamente diferente daquela que veio de facto a constar do comunicado oficial emitido pela PJ no dia seguinte, anunciando a abertura de um inquérito interno e que o caso já fora comunicado ao Ministério Público (e entretanto, como se soube há dias, o próprio MP tem um inquérito aberto que visa Luís Neves e a questão do atrelado).
Partes do comunicado falso acabaram por ser publicadas no Diário de Notícias, jornal em que foi diretora Valentina Marcelino, antes de ser chamada pelo governante para sua adjunta, há cinco meses.
A notícia do DN saiu na sua edição online, às 17h11 do dia 17, sob o título ‘Luís Neves desagradado com comunicado da PJ. Ministro vai alegar que entrega do atrelado está documentada’.
Sem citar fontes, a notícia afirmava-se que «o DN sabe» que o conteúdo do comunicado oficial da PJ «desagradou ao governante». De seguida, referia-se toda a informação que circulara no dia anterior. Ou seja, já depois do comunicado oficial, as informações do comunicado falso apareciam no DN como se fossem credíveis. E, na verdade, o comunicado falso apresentava uma clara versão dos factos que isentava Luís Neves de responsabilidades.
O que dizia o pretenso comunicado da PJ...
A informação, escrita, que circulou no dia 16 à noite por WhatsApp entre jornalistas de vários órgãos de comunicação social, começava por explicar: «A galera em causa foi apreendida em finais de dezembro de 2024 no âmbito de uma operação de combate ao narcotráfico com material químico para a transformação de droga. Pelo perigo que estes produtos representavam e pelo facto de as instalações onde a PJ deposita a maior parte do material apreendido se encontrar, na altura, acima das suas capacidades de armazenamento, foi solicitado espaço à Marinha, que foi cedido do Seixal. Enquanto isso, foram sendo solicitados orçamentos para a destruição deste material de alto risco, sendo que os elevados valores apresentados excediam a capacidade financeira disponível».
«No início do verão de 2025», prosseguia, «a Marinha informou a PJ de que não poderia manter a galera nas suas instalações, oferecendo-se para encontrar uma solução para a destruição dos produtos, não tendo conseguido esse objetivo». Mas, «em final de agosto, receando o tempo quente e o risco que representavam aqueles produtos, a Marinha pediu para a galera ser retirada com urgência».
«Procurou-se, entre os contactos de prestadores de serviços da PJ, uma forma de retirar a galera para outro local. Foi nessa altura que o sr. João Carvalho se ofereceu para fazer esse serviço, sem cobrar qualquer valor, enquanto a questão de contratação da empresa para a destruição do material era resolvida. Esse transporte, para um terreno na zona de Braga, propriedade deste empresário, foi acompanhado por uma viatura do núcleo de apreendidos da PJ», explicava-se. E concluía-se: «Todo o conteúdo foi inventariado e registado. Este processo está documentado. Esse serviço não prejudicou em momento algum o interesse da PJ nem do Estado, em geral. Pelo contrário, resolveu um problema premente».
… e o que acabou por ser dito pela PJ
Na sexta-feira, dia 17, com o SOL já nas bancas, dando conta em manchete de que o atrelado desaparecera e tinha sido encontrado parqueado junto à sede da empresa de João Santos Carvalho, em Barcelos – informação também veiculada pelo Jornal Nacional da TVI no dia 16 à noite –, a PJ emitiu uma nota de «esclarecimento» que enviou às redações. O conteúdo era substancialmente diferente do que fora posto a circular no dia anterior.
«No passado dia 14 de julho, a Direção Nacional da Polícia Judiciária (DNPJ) teve conhecimento de que uma galera [atrelado] apreendida, no âmbito de um inquérito relacionado com o tráfico de estupefacientes, havia sido movimentada e parqueada em Barcelos. Tendo por base essa suspeita, a DNPJ determinou, de imediato, a instauração de um inquérito para apurar as circunstâncias da alegada movimentação, que poderia confirmar a prática de ilícitos criminosos», começava-se por explicar.
«Na sequência, foi, imediatamente, determinado que se verificasse essa informação, tendo-se apurado que, de facto, a galera se encontrava estacionada em Barcelos, atracada a um camião da empresa Construbarcelos. Tratando-se de um bem apreendido, o mesmo foi removido do local e ficou novamente à guarda da Polícia Judiciária, bem como os produtos que a mesma carregava, esclarecendo-se que estes não têm natureza estupefaciente. As circunstâncias que rodearam a deslocação da galera para Barcelos encontram-se a ser investigadas no referido inquérito, o qual foi comunicado ao Ministério Público», concluía a nota emitida pela direção nacional da Judiciária, liderada por Carlos Cabreiro.
Nem poderia dizer outra coisa. Porque, exatamente, a direção da PJ já tinha previamente confirmado à investigação SOL/TVI/CNN Portugal que elementos desta polícia se tinham deslocado a Barcelos para apreender a galera. Ou seja, se a entrega da galera ao construtor amigo de Neves estivesse documentada, não se justificaria a apreensão.
As diferenças entre o comunicado falso e o comunicado oficial são óbvias. No primeiro, a deslocação do atrelado surgia como um procedimento legítimo, necessário, documentado e sem prejuízo para o Estado, o que favorecia a defesa da posição de Luís Neves. No segundo, a PJ era muito cautelosa: não fazia qualquer juízo sobre a regularidade da atuação e referia a instauração de um inquérito interno (que veio a redundar já esta semana num inquérito do Ministério Público).
A origem do comunicado falso continua por apurar.