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Se fosse a exame, o dispositivo português de combate a incêndios estava chumbado, sem direito a revisão de provas. A Comissão Técnica Independente (CTI) denuncia «o desaproveitamento das oportunidades de supressão» oferecidas pelas condições meteorológicas no início dos grandes incêndios de 2025. Foi por isso que, depois, atingiram proporções catastróficas.
O dispositivo responde a tempo a mais de 90% das ignições, mas essa eficácia baixa para 55% nos incêndios mais sérios, que exigem ataque ampliado e são responsáveis por 98,4% da área ardida. O clima pode servir de desculpa, mas não é uma justificação séria. «Todos os grandes incêndios abrangeram janelas meteorológicas, por vezes mais longas do que aquelas inerentes ao ciclo diário noite/dia, em que a supressão efetiva da ‘cabeça’ era exequível», consigna o relatório.
Bombeiros e meios concentram-se longe das frentes de fogo, a proteger estradas e habitações. Ora, também deveriam preparar, de trás para a frente, os locais adequados para travar os incêndios, com máquinas de rasto, ferramentas manuais e, quando possível, fogo tático, para criar barreiras às chamas. Os comandos operacionais até recebem informações meteorológicas preciosas sobre as oportunidades de supressão. «Porém, frequentemente não as aproveitaram para consolidar perímetros ou conter a expansão, pelo que a superfície queimada acresceu significativamente durante períodos favoráveis às operações», critica a CTI.
Pior ainda, «os reacendimentos aumentaram mais de 62% face à expectativa, regressando aos níveis de 2018–2019». Este é um indicador de referência, assim considerado internacionalmente, para medir a eficácia dos dispositivos. A CTI julga «preocupante a tendência estrutural de acréscimo da área ardida expectável ao longo dos últimos 20 anos».
Para além de deixar arder a floresta, o Estado anda a queimar impostos sem resultados. «O investimento crescente no dispositivo de pré-supressão e supressão, nos moldes em que foi implementado, não se traduziu numa redução proporcional dos impactos, nem em sinais de melhoria estrutural nos anos meteorologicamente severos», sentenciam os 12 peritos.
O perito australiano que estudou a realidade portuguesa fez exatamente este diagnóstico em recente entrevista ao SOL. «Em Portugal, deixa-se o incêndio decidir para onde quer ir, o que não é sensato», lamentou Gary Morgan. «Em situações em que o incêndio apresente um comportamento extremo, pode ser necessário concentrar temporariamente meios na proteção de pessoas e bens em risco imediato», reagiu o presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC). Em resposta escrita ao nosso jornal, José Manuel Moura garante que isso não significa «abdicar da defesa do património natural».
Bombeiros exaustos
Em Portugal, a maioria dos bombeiros que combatem incêndios durante o verão desempenha tarefas longe da floresta ao longo do ano. Enfrentar fogos infernais requer formação especializada. Todas as fontes que a CTI entendeu consultar «convergem na identificação da baixa qualificação dos recursos humanos». Entre elas, dirigentes e operacionais, em inquéritos online: «mais de metade considerou inadequado o nível de especialização disponível para incêndios complexos e extremos».
Os bombeiros carecem de mais formação em fogos rurais e de dormir melhor durante a época de incêndios. Mais de 70% dos inquiridos «consideraram inadequada ou muito inadequada a gestão da exaustão e dos períodos de descanso». No terreno, há casos em que autotanques e equipas suspendem o combate por «inexistência de elementos para substituição». Regressam após curtos períodos de repouso, «comprometendo a recuperação física e, potencialmente, a eficácia e a segurança».
O problema da articulação entre as múltiplas entidades envolvidas na prevenção e no combate a fogos rurais permanece um tabu depois desta investigação. «As fontes disponíveis não relatam informação conclusiva sobre desarticulação entre a ANEPC, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, GNR e Forças Armadas, por não abordarem essa questão», descreve o relatório. Os operacionais, no entanto, aproveitaram o inquérito para desabafar contra a descoordenação entre entidades. «É particularmente relevante que os operacionais tendam a atribuir os principais constrangimentos observados menos à disponibilidade de meios e mais à capacidade do sistema para os organizar, comandar e empregar de forma eficaz em situações de elevada complexidade», avalia a CTI.
Sapadores maltratados
Os peritos apelam ao poder político para reforçar a capacidade da Força Especial da Proteção Civil (FEPC). Os ‘canarinhos’, como são conhecidos, são considerados um recurso estratégico para evitar a repetição de falhanços como os do ano passado, porque oferecem conhecimento científico sobre o comportamento do fogo e força de braços na remoção de combustíveis, capaz de criar barreiras minerais à progressão das chamas. O problema é que, «passadas quase duas décadas desde a sua criação, a dimensão da PEPC permanece praticamente idêntica à inicialmente prevista pelo legislador, apesar de lhe terem sido atribuídas novas missões». Os fogos tornaram-se catastróficos, devido ao crescente abandono e desordenamento da floresta. No entanto, as equipas mais capazes de os travar na nova ‘selva portuguesa’ perderam capacidade de resposta.
A FEPC integra agora equipas especializadas em mergulho, designadamente para a busca de cadáveres; e de operação de drones, não só na prevenção e ataque rápido aos fogos rurais como noutras missões. Entre chefias e operacionais, o quadro de 276 elementos não chega para as necessidades, o que «produz consequências operacionais concretas». No terreno, não é possível «assegurar rendições, recuperação dos operacionais e continuidade de resposta» nos períodos críticos de vários incêndios espalhados por todo o território.
«O próprio relatório da ANEPC relativo a 2025 reconhece que a FEPC não dispõe do número de bombeiros sapadores necessário ao cumprimento das suas missões, identificando expressamente limitações na brigada de máquinas de rasto e noutras capacidades consideradas essenciais e críticas para a supressão dos grandes incêndios», critica a CTI. Feito o diagnóstico, os peritos não compreendem que não tenha acontecido nada.
Portugal é o país europeu com maior percentagem acumulada de território ardido. O Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), da Comissão Europeia, contabiliza mais de 1,8 milhões de hectares queimados entre 2006 e 2025. Este ano, até ao momento, voltamos a liderar esse ranking sinistro. A política de florestas e de proteção civil já merece uma medalha de cinzas.