A cidade do Porto vai acolher, no próximo dia 17 de maio, a segunda edição da chamada "Remigration Summit", um encontro internacional que reúne figuras associadas à extrema-direita europeia e a movimentos que defendem políticas de deportação em massa de imigrantes. A realização do evento em Portugal é vista por investigadores e observadores como um "sinal da crescente ligação do país a redes extremistas transnacionais".
A cimeira promove o conceito de “remigração”, uma ideia usada por estes grupos para justificar a expulsão de populações imigrantes e que assenta na narrativa da alegada “substituição” demográfica dos europeus — uma teoria amplamente desacreditada, mas recorrente em discursos supremacistas brancos.
A organização do encontro em território nacional está a cargo de Afonso Gonçalves, líder do movimento Reconquista e conhecido pelo apoio público ao partido Chega e ao seu presidente, André Ventura. O ativista, que já foi detido em várias ocasiões por ações de cariz xenófobo, participou como orador na primeira edição do evento, realizada em Milão, em 2024, onde defendeu que a “remigração deve ser apresentada de forma apelativa para conquistar adesão popular".
Entre os nomes confirmados para o encontro no Porto está Martin Sellner, ativista austríaco que ganhou projeção internacional por difundir o termo “remigração” no espaço político europeu. Com um passado ligado a grupos neonazis — que admite — e ligações a figuras do negacionismo do Holocausto, Sellner foi impedido de entrar em vários países e chegou a ser expulso da Suíça no ano passado. Vive atualmente de donativos de apoiantes e do movimento identitário que fundou na Áustria.
O nome de Sellner ficou também associado ao ataque terrorista de Christchurch, na Nova Zelândia, depois de se saber que o autor do massacre, responsável pela morte de 51 pessoas, lhe fez uma doação no mesmo ano do crime. O ativista esteve recentemente no Porto, onde discursou num congresso da Reconquista, reiterando a ideia de que a imigração representa uma "ameaça existencial às nações europeias".
Outro orador confirmado é o belga Dries Van Langenhove, fundador de um grupo ultranacionalista com discurso anti-imigração. Antigo deputado, acabou por abandonar a política institucional para se dedicar exclusivamente ao ativismo. Este mês, a justiça belga confirmou uma condenação com pena suspensa e multa por infrações relacionadas com racismo e negação do Holocausto. Nas redes sociais, Van Langenhove apresenta-se como vítima de perseguição por alegado “discurso de ódio”.
Também Eva Vlaardingerbroek marcará presença na cimeira. A advogada neerlandesa e ex-deputada de um partido de direita radical é uma das figuras mais mediáticas deste movimento, com grande alcance nas redes sociais. Conhecida pelas posições antifeministas e pela defesa aberta da “remigração”, tem sido presença regular em conferências internacionais da direita radical, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Em intervenções públicas recentes, afirmou que a chamada “substituição populacional” não é uma teoria, mas uma realidade em curso, contrariando o consenso académico.
A realização da "Remigration Summit" no Porto surge num contexto de crescente visibilidade destes discursos no espaço público europeu e levanta preocupações quanto à normalização de ideias extremistas que promovem a exclusão, a discriminação e o ódio racial.