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O homem de quem se fala presta declarações a uma estação de televisão pela primeira vez. Eis João Santos Carvalho, empreiteiro de Barcelos cujas inconfidências ao SOL foram publicadas em 10 de julho e deram origem ao escândalo que envolve a Polícia Judiciária e o seu ex-diretor nacional, Luís Neves, ministro da Administração Interna desde há quase seis meses.
O empreiteiro foi fornecedor da PJ e fez obras nos montes alentejanos do então diretor nacional, seu amigo. Certa feita ainda deu uma mãozinha no transporte de uma galera apreendida com bidões do tráfico de droga.
Fala ao romper do dia desta quinta-feira à porta da Construbarcelos, depois de longas esperas e vários contactos dos repórteres Francisco Ferreira e António José Leite, que integram esta investigação.
Assume que foi ele a transportar para Barcelos a galera e os bidões com químicos para o fabrico de cocaína, apreendidos pela PJ em 3 de dezembro de 2024 numa quinta no concelho de Torres Vedras no âmbito da Operação Pacoba, de desmantelamento de um dos maiores laboratórios de droga da Europa.
O transporte do material aconteceu em setembro último. Origem: parque de apreendidos da Autoridade Marítima, no Seixal, onde a Judiciária tinha estacionado a galera e os bidões da droga. Destino: estacionamento em frente à empresa de João Santos Carvalho, alegadamente a pedido do diretor financeiro da PJ, Álvaro Pires, com a decisão a ser assumida «integralmente» por Luís Neves, como este declarou em conferência de imprensa.
Também alegadamente, o transporte foi escoltado por elementos do núcleo de apreendidos da PJ. Eis o bastante para Carvalho dizer agora que não havia documentos e nem era preciso.
«Ajudei a PJ a resolver um problema que tinha para resolver», declara. «Fui eu que me ofereci. Foi em Évora, na obra que estava a fazer para a PJ, lá com o diretor-tesoureiro. Vi-o um bocado preocupado e disse: ‘Tenho lá um espaço grande, posso guardar lá isso até vocês resolverem a situação’».
E afinal foi tudo de boca: «Nada, nada», responde quando perguntado se não o preocupou fazer quase 400 quilómetros sem guia de transporte ou outro documento. Não havia nada? «Que me lembre, não». E mais isto: «Se veio uma autoridade à frente, é um documento. Uma autoridade, escusa-se de escrever. Basta respeitar». E ainda: «Não tenho papéis nenhuns».
A versão combina em parte com a que Luís Neves narrou ao país na quarta-feira em conferência de imprensa: «O diretor financeiro propôs a transferência do material para um armazém do senhor João Carvalho, onde os contentores com os produtos químicos podiam permanecer em segurança pelo período até ser encontrada uma solução».
Mas nesta outra parte os amigos não coincidem: é que Carvalho diz que não havia papéis e Neves fez constar o seguinte no Diário de Notícias de 17 de julho, sem nunca ter desmentido até hoje: «É ponto assente para o ministro que a entidade que dirigiu entre 2018 e 2026 soube sempre onde se encontrava o atrelado, e em que circunstâncias foi parar à Construbarcelos, num processo devidamente documentado».
A entrevista com o empreiteiro a exibir na quinta-feira no Jornal Nacional da TVI, e depois na CNN Portugal.
Carvalho mostra-se reticente, mas não resiste ao apelo de falar. «Fui eu que decidi fazer a piscina», garante. Mostra uma hesitação, pintada de sorriso prestes a desmanchar-se, quando ouve a pergunta sobre quem lhe pagou as obras nos montes: Neves ou a mulher? «Foi sempre a dr.ª Ana».