terça-feira, 21 jul. 2026

Eucaliptos resistem onde ardeu tudo

Espécie não é decisiva. O que conta na floresta é gestão e planeamento, como nas empresas.
Eucaliptos resistem onde ardeu tudo

Dois povoamentos de eucalipto resistiram, incólumes, sem a ajuda de quaisquer bombeiros ou sapadores florestais, a um incêndio que, em 2024, consumiu por inteiro quatro mil hectares de floresta, nos concelhos de Penafiel, Paredes e Gondomar, às portas do Porto. Quem subir ao miradouro do ‘Baloiço do Cu Grande’, em Melres, ainda hoje fica impressionado com aquelas ilhas verdes numa paisagem carbonizada.

Parece milagre, mas tem uma justificação do mais terreno que existe. Peritos em fogos rurais e silvicultura usam conceitos como ‘planeamento’ e ‘gestão’ florestal para explicar o sucedido. «Esta florestação foi feita em terraços. Isso permite que as máquinas consigam entrar para fazer o controlo da vegetação. Resistiu a um incêndio florestal porque beneficiou de preparação do terreno e da redução do combustível», expõe João Bandeira, engenheiro florestal da Navigator, proprietária dos eucaliptais.

A limpeza do solo é crítica para retirar o alimento ao fogo. «A espécie não é o problema. O que interessa é sobretudo a quantidade de biomassa à disposição das chamas», declara Akli Benali, doutorado em Ciência dos Incêndios Florestais da Universidade de Lisboa.

O problema é que a floresta portuguesa tem mais de 400 mil proprietários, com propriedades minúsculas, sem escala para oferecerem qualquer tipo de rentabilidade. Há 11,7 milhões de prédios rústicos com uso agroflorestal. A maioria nem sabe os terrenos que tem, ou os caminhos para lá chegar. As árvores amontoam-se, os matos crescem, espécies invasoras como as acácias oferecem um contínuo de vegetação do solo à copa das árvores. «O que vemos na maior parte do território, sobretudo na região Centro, mas também no Norte, é uma continuidade de vegetação, de combustível para o fogo, de alimento para o fogo», lamenta Akli Benali.