sexta-feira, 10 jul. 2026

Estudo revela como vírus da dengue e chikungunya sobrevivem nos mosquitos sem os matar

Investigadores da Universidade Pompeu Fabra descobriram o mecanismo que permite a vírus como os da dengue e chikungunya permanecerem nos mosquitos durante toda a vida do inseto sem o destruir. A descoberta poderá abrir caminho a novas estratégias para travar a transmissão destas doenças
Estudo revela como vírus da dengue e chikungunya sobrevivem nos mosquitos sem os matar

Uma equipa de investigadores da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona, identificou o mecanismo biológico que permite a vírus como os da dengue, chikungunya e Nilo Ocidental persistirem nos mosquitos sem causar danos fatais aos insetos, facilitando assim a sua transmissão a humanos.

O estudo, apoiado pela Fundação “la Caixa”, ajuda a explicar porque é que os mosquitos conseguem transportar estes vírus durante toda a vida sem apresentarem sinais de doença, ao contrário do que acontece nos seres humanos, onde a infeção pode provocar sintomas graves e destruição celular.

Segundo os investigadores, os vírus adotam nos mosquitos uma estratégia diferente da observada nos hospedeiros humanos. Em vez de assumirem totalmente o controlo da maquinaria celular para produzir grandes quantidades de proteínas virais, limitam deliberadamente a sua atividade.

Esta adaptação permite que o material genético viral continue a acumular-se nas células do mosquito sem provocar danos significativos, garantindo simultaneamente uma carga viral suficiente para manter a capacidade de transmissão.

“É como se o vírus diminuísse o volume da sua própria atividade”, explicou Marc Talló, coautor principal do estudo, citado num comunicado divulgado pela Fundação “la Caixa”.

Ameaça crescente à saúde pública

Os investigadores alertam que a descoberta surge num contexto de crescente preocupação internacional com as doenças transmitidas por mosquitos.

Segundo a equipa científica, infeções como a dengue e o vírus do Nilo Ocidental, historicamente associadas a regiões tropicais e subtropicais, estão a expandir-se para novas áreas geográficas.

Entre os fatores que contribuem para esta expansão estão as alterações climáticas, a intensificação das viagens internacionais e da circulação global de mercadorias, bem como as próprias características biológicas dos vírus e dos seus vetores.

Quando um mosquito pica uma pessoa infetada, pode adquirir o vírus e transportá-lo durante toda a sua vida, transmitindo-o posteriormente a outras pessoas através de novas picadas.

Ao contrário do que acontece nos humanos, o mosquito permanece aparentemente saudável, funcionando como um reservatório eficaz para a disseminação da doença.

Nova via para combater a transmissão

A investigação conclui que esta convivência equilibrada entre vírus e mosquito resulta de um processo evolutivo sofisticado.

Ao limitar a produção de proteínas virais, o agente infeccioso evita comprometer a sobrevivência do inseto que lhe serve de veículo de transmissão.

Para os cientistas, compreender este mecanismo poderá abrir novas perspetivas para o desenvolvimento de estratégias de controlo das doenças transmitidas por mosquitos.

“Se pudéssemos alterar este equilíbrio, obrigando o vírus a replicar-se descontroladamente ou bloqueando a sua capacidade de persistir, poderíamos impedir que os mosquitos atuassem como vetores de transmissão”, afirmou Juana Díez, coordenadora do estudo e diretora do grupo de virologia molecular da Universidade Pompeu Fabra.

Os resultados foram obtidos através de modelos celulares em laboratório. Antes de qualquer eventual aplicação farmacológica, será necessário confirmar as conclusões através de experiências em mosquitos infetados após alimentação com sangue contaminado.

Os investigadores acreditam, contudo, que a descoberta representa um passo importante para compreender melhor a interação entre vírus e vetores e poderá contribuir, no futuro, para novas abordagens de prevenção de doenças que afetam milhões de pessoas em todo o mundo.