Pedras da calçada fora do lugar, pavimentos desnivelados e buracos no asfalto. Estas são algumas das situações apontadas por condutores e peões em várias zonas de Lisboa, a começar pela principal artéria da cidade: a Avenida da Liberdade e arruamentos envolventes.
Entre os peões, as preocupações centram-se sobretudo na segurança. Há relatos de pedras soltas ou deslocadas da calçada portuguesa, algumas sinalizadas e outras não, que podem aumentar o risco de quedas. Já os condutores, incluindo profissionais que circulam diariamente na cidade, como taxistas, apontam para a existência de buracos na via que, dizem, são uma ameaçada para as viaturas e um risco para quem nelas circula. Além dos danos reputacionais e económicos de uma cidade que vive muito do turismo e da imagem que propaga para o exterior.
Ao SOL, Miguel, motorista de táxi há vários anos em Lisboa, diz que andar pela cidade é um exercício e desafio permanente à atenção de condutores e transeuntes. Entre buracos, remendos mal nivelados e troços degradados, a condução exige desvios constantes para minimizar impactos que acabam por se refletir não só no conforto dos passageiros, mas também nos custos de manutenção dos veículos. para já não falar dos riscos inerentes.
«Há inúmeras ruas que estão em mau estado. É preciso sempre um cuidado enorme para evitar buracos ou remendos mal nivelados após as reparações», relata. O resultado, diz, é uma viagem frequentemente marcada por sobressaltos. «Há sempre zonas em que se anda um pouco aos saltos».
Entre as artérias que considera mais problemáticas estão a Avenida da Liberdade, a Rua do Século e a Rua de São Bento. Na primeira, descreve uma sucessão de depressões no alcatrão; nas restantes, aponta irregularidades que tornam a degradação particularmente percetível para quem passa longos períodos ao volante.
As zonas em calçada portuguesa constituem outro desafio. Apesar de reconhecer o valor patrimonial e estético deste tipo de revestimento, considera que o abatimento gradual de algumas áreas cria irregularidades difíceis de evitar. O trajeto entre o Cais do Sodré e a Ribeira das Naus surge como um dos exemplos mais exigentes. «Há uma certeza: vamos acertar em vários buracos. A escolha é desviar de um maior para tentar suavizar num mais pequeno».
Para quem depende do automóvel como instrumento de trabalho, as consequências vão além do incómodo. O motorista fala num desgaste prematuro dos pneus, da suspensão e da direção, que obriga a intervenções mais frequentes e aumenta os custos de operação. «É um autêntico desafio diário percorrer a cidade sem ter danos no veículo», resume.
Embora reconheça as dificuldades inerentes à manutenção de uma cidade sujeita a tráfego intenso e à circulação de veículos pesados, Miguel considera que existe margem para melhorar o estado das vias.
‘Estado deplorável’
Já as queixas de Maria vão para a zona de Benfica, onde, diz «várias estradas estão uma verdadeira vergonha». Ao nosso jornal, destaca pela negativa a Estrada de Benfica e outras perto do Hospital da Luz. Nesses locais – onde passa várias vezes por semana – diz que «até andar à velocidade permitida é um risco», uma vez que as estradas não estão niveladas e há alguns buracos.
Também a zona de Alvalade não escapa a esta tendência e, se há ruas em que «é possível fugir», há outras em que esta missão se torna impossível, como confessa ao Nascer do SOL Isabel Ribeiro. «Há casos em que fiz o registo na aplicação na Minha Rua e depois de terem demorado meses a responder, acabaram por ir tapar os buracos mas semanas depois volta ao mesmo. Estamos perante situações que parecem autênticos casos perdidos, mas que representam faturas a pagar face aos estragos que provocam no alinhamento de direção do carro e até em eventuais furos nos pneus», revela.
O Portal da Queixa confirma estas queixas. Dados fornecidos ao nosso jornal indicam que, em 2026, já foram registadas 45 reclamações relacionadas com o estado das estradas e do pavimento na Área Metropolitana de Lisboa – não apenas no concelho de Lisboa.
Entre os exemplos partilhados pela plataforma encontram-se várias queixas dirigidas à Câmara Municipal de Lisboa e referentes a diferentes zonas da cidade. Numa reclamação, relativa à Rua 21 da Encarnação, nos Olivais, um utilizador descreve a via como estando em «estado deplorável», alegando a existência de múltiplos buracos que terão provocado danos em pneus de veículos que ali circulam. Há ainda relatos sobre a degradação do pavimento em artérias da cidade. Um dos reclamantes refere que o piso entre Benfica e Alcântara se encontra em «avançado estado de deterioração», criticando igualmente a qualidade das intervenções de reparação realizadas no local.
Estas experiências relatadas pelos utilizadores ao Portal da Queixa evidenciam preocupações recorrentes de alguns cidadãos relativamente à manutenção e conservação do pavimento rodoviário na região de Lisboa.
‘Tema recorrente’
A preocupação é partilhada pela Associação Avenida, que representa mais de 150 membros dos setores da cultura, retalho, hotelaria, restauração e serviços.
A Associação Avenida da Liberdade confirmou ao Nascer do SOL que tem recebido, «com bastante frequência, preocupações e queixas dos seus associados relativamente ao estado dos pavimentos pedonais e viários na Avenida da Liberdade e nas ruas adjacentes». E acrescenta que este é um «tema recorrente, que afeta quem vive, trabalha e visita esta zona da cidade, sendo reportadas situações de quedas com regularidade». Paralelamente, diz ainda, «têm sido identificados diversos problemas nos pavimentos viários que, apesar das intervenções de reparação realizadas, tendem a reaparecer, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais estruturada e duradoura», refere a associação.
Segundo a mesma entidade, não se trata de ocorrências pontuais. «Na nossa perspetiva, não estamos perante casos isolados, mas sim perante uma situação generalizada que merece atenção», defendendo que a realidade estende-se não só à Avenida da Liberdade como às suas áreas envolventes, incluindo arruamentos como a Rua Rodrigues Sampaio, a Rua de Santa Marta, a Rua de São José, entre outros.
A associação alerta ainda para o impacto que a degradação dos pavimentos pode ter na vivência urbana e na atividade económica da zona. «O estado dos pavimentos tem impacto direto na experiência dos peões, na segurança, na acessibilidade e na atratividade comercial da zona. Sendo a Avenida da Liberdade um dos principais eixos económicos, turísticos e culturais da cidade, é fundamental garantir que o espaço público acompanha a qualidade da oferta existente, tanto na Avenida como na sua envolvente».
A requalificação da Avenida da Liberdade tem sido uma das principais reivindicações da Associação Avenida.
Projetos futuros
Apesar das críticas ao estado dos pavimentos, a associação destaca a relação de trabalho mantida com a autarquia. «Importa, contudo, destacar que a atual equipa da Câmara Municipal de Lisboa tem demonstrado uma grande proximidade e abertura ao diálogo com a associação», diz, garantindo que «existe um trabalho conjunto em curso e um cronograma de intervenções previsto para diversas áreas ao longo deste ano, entre as quais os pavimentos pedonais e viários, relativamente ao qual aguardamos informação sobre a respetiva implementação já iniciada».
A entidade acrescenta que está também a ser discutida uma intervenção mais abrangente para a principal avenida da cidade. «Paralelamente, tem vindo a ser discutida uma visão mais abrangente e estruturante para a Avenida da Liberdade, enquadrada numa lógica de valorização do espaço público e de continuidade do trabalho desenvolvido noutros eixos centrais da cidade», diz, defendendo que se trata de um «projeto de maior dimensão, cuja concretização dependerá do calendário e das prioridades definidas pela autarquia, mas que consideramos fundamental para assegurar a qualificação deste território a longo prazo».
De acordo com informação disponibilizada pelo município, a Avenida da Liberdade integra o conjunto de zonas abrangidas por intervenções e condicionamentos de circulação previstos para 2026, no âmbito de obras no espaço público.
A associação mostra-se confiante de que as intervenções previstas avancem nos próximos meses. «Temos acompanhado com satisfação os sinais de compromisso da autarquia com a valorização da Avenida da Liberdade, sendo exemplo disso a recente requalificação do Lago do Tejo e dos jardins envolventes». E dizem ainda estar confiantes «de que este espírito de colaboração permitirá avançar também com as restantes intervenções necessárias, contribuindo para uma Avenida mais segura, mais qualificada e à altura da sua relevância para Lisboa e para o país».
O trabalho da autarquia
O SOL tentou perceber junto da autarquia como têm evoluído as queixas nos últimos anos. Segundo a vereadora Joana Baptista, «a qualificação do espaço público da cidade de Lisboa constitui-se como um imperativo estratégico do atual Executivo Municipal», expressa no Plano de Ação 2025/2029.
Quanto a queixas sobre buracos nos pavimentos recebidas pela autarquia, Joana Baptista revela que «o seu número se tem mantido relativamente constante, numa média de 2.500 reclamações anuais, sendo frequente existir mais do que uma exposição dirigida por munícipes sobre um mesmo local».
No que diz respeito ao tempo de resposta, a vereadora explica que, entre o reporte e a sua resolução efetiva, o período é de 10 dias, «sendo que no total de ocorrências se encontram situações muito distintas».
E lembra que a maioria das situações são simples e são resolvidas em poucos dias. Mas não é sempre igual. «Quando se trate de abatimentos que interferem com infraestruturas subterrâneas (saneamento, eletricidade, entre outras), existe maior demora na sua resolução, contribuindo assim para aumentar o seu tempo médio».
Já a nível de investimento na manutenção e repavimentação das ruas, Joana Baptista atira que o mandato de 2021 a 2025 «foi inequivocamente marcado por um forte investimento na qualificação do espaço público, designadamente no que se refere às ações de pavimentação e manutenção de arruamentos, quando se despendeu um montante superior a 33 milhões de euros nesse domínio».
E recorda que consta do Plano de Ação 2025/2029 que existe «uma prioridade absoluta de repor os pavimentos da cidade de Lisboa no seu melhor estado de conservação, pelo que já se encontra em curso um plano de investimentos repavimentação que, só em 2026, deverá alcançar um valor na ordem de aproximadamente 10 milhões de euros, o qual será superior nos próximos anos, até final do mandato».
Questionada sobre as zonas onde se concentram mais ocorrências sobre o mau estado dos pisos, destaca, por ordem decrescente, Santa Maria Maior, Estrela, Belém, Misericórdia e Arroios.
Para estas freguesias, garante, «encontra-se a ser seguida uma estratégia de valorização do espaço público assente numa visão global do mesmo, como a que foi descrita no início, e que mais do que resolver os problemas evidenciados ao nível dos pavimentos, permitirá em muitos dos casos melhorar de forma significativa a vivência urbana que o espaço proporciona».