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Uma menina de 18 meses morreu esta quinta-feira depois de ter ficado esquecida durante várias horas no interior de uma carrinha associada a uma creche em Almada. O alerta foi dado ao final da tarde, junto à Avenida do Cristo Rei, e mobilizou os Bombeiros Voluntários de Cacilhas, a PSP e uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação. Apesar das manobras de reanimação prolongadas no local, não foi possível reverter a situação e o óbito acabou por ser declarado ainda junto ao veículo. O caso foi entregue à Polícia Judiciária, que investiga agora as circunstâncias exatas do sucedido.
Tragédias como esta, embora não muito frequentes, tendem a repetir-se todos os anos assim que as temperaturas sobem, e não resultam, na generalidade dos casos documentados, de negligência deliberada. Segundo dados analisados pela Prevenção Rodoviária Portuguesa, mais de metade das crianças que morreram em situações semelhantes tinham sido esquecidas pelos próprios cuidadores, muitas vezes na sequência de uma alteração de rotina, uma noite mal dormida ou um momento de distração. O mecanismo é conhecido dos investigadores em memória humana: quando uma tarefa se torna automática, como o trajeto habitual para o trabalho, o cérebro tende a seguir esse piloto automático mesmo quando deveria fazer um desvio para deixar uma criança na creche.
O risco está também subestimado. De acordo com a mesma fonte, a temperatura no interior de um veículo pode subir cerca de 11 graus em apenas dez minutos, mesmo em dias que não são particularmente quentes, e abrir ligeiramente as janelas ou estacionar à sombra altera muito pouco esse cenário. Os bebés e as crianças pequenas são ainda mais vulneráveis, porque a temperatura corporal sobe entre três a cinco vezes mais depressa do que num adulto, o que significa que um golpe de calor se pode instalar em muito pouco tempo. Importa ainda sublinhar que uma criança presa num carro pode estar adormecida ou demasiado debilitada para chorar ou chamar a atenção, pelo que o silêncio no interior de um veículo nunca deve ser interpretado como sinal de que está tudo bem.
Face a este risco, as autoridades e associações de segurança recomendam um conjunto de hábitos simples que podem ser decisivos.
Antes de trancar o carro, parar sempre e olhar para o banco de trás, mesmo quando a rotina é sempre a mesma.
Colocar um objeto pessoal necessário no destino seguinte, como a carteira, o telemóvel ou a mala de trabalho, junto à cadeira da criança, de forma a obrigar a olhar para trás antes de sair.
Combinar com a creche ou com o infantário um sistema de alerta caso a criança não seja entregue dentro de um determinado período de tempo após a hora habitual.
Nunca assumir que outra pessoa já tratou de levar a criança para dentro, sobretudo em situações de transporte partilhado ou quando há alteração do condutor habitual.
Ensinar as crianças mais crescidas, sempre que possível, a acionar a buzina caso fiquem sozinhas dentro do veículo.
Existem também soluções tecnológicas cada vez mais acessíveis. Segundo a DECO PROteste, alguns automóveis mais recentes já vêm equipados de fábrica com sistemas de deteção de ocupantes no banco de trás, conhecidos como Rear Occupant Alert, que enviam um alerta caso identifiquem movimento após o motorista sair do veículo. Para quem não tem esta tecnologia incorporada, há dispositivos que podem ser instalados posteriormente, além de cadeiras auto com sensores próprios e até espelhos retrovisores orientados para o banco de trás, que funcionam como lembrete visual constante.
Nenhuma destas medidas substitui a atenção do adulto responsável, mas todas reduzem a margem para o erro humano num momento em que, como mostra o caso de Almada, poucos minutos podem separar a normalidade de uma tragédia irreversível.