quarta-feira, 15 jul. 2026

Época alta chega confiante mas com cautela

Regiões antecipam um verão bom, tendo em conta os números disponíveis e o decorrer do ano até agora. Hoteleiros - para já - não partilham do mesmo otimismo.
Época alta chega confiante mas com cautela

O verão está mesmo aí à porta e os portugueses – e também os estrangeiros – começam a preparar as suas férias grandes. De norte a sul do país, as entidades regionais do turismo antecipam uma época boa, impulsionada por forte procura e níveis de reserva que, para já, perspetivam um bom verão para o negócio.

Algarve: verão muito dinâmico

No Algarve não há dúvidas que o verão será muito dinâmico e animador. Quem o diz é André Gomes, Presidente do Turismo do Algarve. Ao nosso jornal, confessa que as «expectativas são positivas», defendendo que a região «parte para este verão com bons indicadores de procura, uma oferta turística consolidada e uma forte capacidade de atração junto dos principais mercados emissores».

Lembrando que o verão de 2025 foi «muito forte», com taxas de ocupação por quarto «sempre próximas dos 90% nos meses de maior procura» e com muitas unidades de alojamento a atingir mesmo lotação completa, André Gomes diz que «os sinais disponíveis indicam que a região voltará a ter um verão muito dinâmico».

Ainda que confesse ser muito cedo para previsões definitivas – «até porque existe hoje uma parte relevante das reservas a ser feita em janelas temporais mais curtas» –, o responsável adianta que «os sinais disponíveis apontam para níveis de ocupação elevados, sobretudo no alojamento hoteleiro e nas zonas de maior procura balnear». E acrescenta que «mais do que crescer apenas em volume, o grande objetivo é continuar a crescer em valor, reforçando a qualidade da experiência turística e o contributo do setor para a economia regional».

No que diz respeito aos mercados, não há dúvidas: o Reino Unido «continuará, de forma muito destacada, a ser o principal mercado emissor para o Algarve. É um mercado histórico, muito fidelizado e com um peso determinante na procura turística da região, em particular na época alta». Mas, além disso, o Algarve também espera contributos relevantes da Irlanda, que tem crescido, da Alemanha, Países Baixos, França e de Espanha. «São mercados com perfis distintos, mas todos muito relevantes para a diversificação da procura».

Destaque ainda para o potencial de crescimento de mercados como Estados Unidos e o Canadá.

Questionado sobre o principal desafio para a região nestes meses, André Gomes confessa que o verão «é sempre o período de maior pressão sobre o território», uma vez que a região «recebe, em poucos meses, uma procura turística muito intensa, o que exige uma resposta articulada ao nível da mobilidade, dos serviços públicos, da segurança, da gestão ambiental, da água, das praias e da capacidade das empresas para assegurar uma experiência de qualidade».

No entanto, considera que esse desafio não deve ser visto como uma dificuldade. «É também a demonstração da enorme atratividade do Algarve e da importância estratégica do turismo para a região e para o país».

O presidente da RTA diz que há dois desafios estruturais que marcam a agenda da região: «Reduzir a sazonalidade e reforçar a sustentabilidade do destino». Isto porque «o Algarve tem condições para ser competitivo durante todo o ano, através de produtos como o golfe, a natureza, o turismo náutico, a gastronomia e vinhos, a cultura, os eventos, a saúde e bem-estar ou o turismo de negócios». Ao mesmo tempo, é preciso continuar a apostar «na eficiência hídrica, na valorização ambiental, na qualificação da oferta e numa gestão mais inteligente dos fluxos turísticos».

Alentejo: Região a crescer

Motivos para sorrir tem também a região do Alentejo. Ao SOL, José Santos, Presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo garante que a região «está com um excelente comportamento nas dormidas e nos proveitos no primeiro quadrimestre do ano», lembrando que em abril foi «mesmo a região que mais cresceu no mercado nacional e externo».

A partir daí, o responsável acredita que «esta trajetória se irá consolidar nos meses de verão». Ainda que seja «difícil prever uma taxa de ocupação com a dinâmica das reservas da última hora, incluindo de Espanha», José Santos acredita que a região estará «perto da ocupação plena, especialmente no Litoral».

Já nos principais mercados emissores, o destaque vai «claramente» para o mercado nacional e depois o espanhol. Juntam-se os ingleses, alemães e norte-americanos.

Sobre os desafios, José Santos é claro: «Levar os turistas nacionais e internacionais cada vez mais ao interior, criando fatores de atração nas cidades e vilas e apostando nos nossos ‘refúgios climáticos’», como é o caso das estações náuticas e as praias fluviais, do Alandroal a Mértola. Mas também eventos como as Festas do Povo de Campo Maior e a Cidade Europeia do Vinho, no Baixo Alentejo, ou a pré- programação da Cidade Europeia da Cultura 2027, em Évora, que «serão igualmente importantes na atração de turistas».

Centro: Em recuperação mas confiante

O Centro começa já com um apoio de peso depois de o Presidente da República, António José Seguro, ter apelado a férias no interior em zonas afetadas pelo comboio de tempestades.

Ao nosso jornal, Rui Ventura, presidente do Turismo do Centro, confessa que os primeiros meses do ano foram desafiantes para o setor devido ao contexto económico. Mas nem tudo está perdido. «Acreditamos que o verão permitirá recuperar uma parte significativa desse abrandamento», diz.

Até porque os indicadores, nomeadamente ao nível das reservas e do que é dito pelos empresários, «apontam para uma época estival positiva, com níveis de procura robustos nos meses de julho e agosto». Ainda que seja prematuro ter previsões concretas, «esperamos um verão capaz de compensar uma parte importante dos resultados menos positivos registados no início do ano», perspetiva Rui Ventura. Até porque, no Centro, atratividade e oferta não faltam, garante.

O mercado nacional continuará «a ser um dos pilares da procura turística na região», detalha o responsável, acrescentando Espanha, França, Reino Unido e Alemanha à lista dos mercados com peso significativo. Mas começa a haver aumentos por parte dos EUA e Canadá.

Quanto aos desafios, não há dúvidas: O principal é «transformar a recuperação da procura num crescimento sustentável e equilibrado para todo o território».

A ideia é que a atratividade continue a aumentar mas que todos os territórios do Centro tenham as mesmas oportunidades. «É fundamental continuar a investir na qualificação da oferta, na mobilidade, na valorização dos recursos humanos e na promoção internacional».

Uma coisa tem como certa para Rui Ventura: «O verão será um teste importante à capacidade de recuperação do setor, mas estamos confiantes».

Lisboa confiante

O entusiasmo segue para Lisboa. «A multiplicidade de características da Área Metropolitana de Lisboa faz com que seja um destino procurado todo o ano, incluindo mercados longínquos como os EUA, o Canadá, a China, o Brasil, que também nos visitam no verão», diz-nos António Valle, Diretor-Geral do Turismo de Lisboa que conta ainda que Lisboa é cada vez mais conhecida como um destino «sofisticado e de qualidade». E acrescenta: «A maior conetividade aérea promove igualmente a procura que tem aumentando em segmentos mais qualificados, gerando maior riqueza para a economia local e nacional».

António Valle confessa ainda: «O entusiasmo que verificamos por todo o mundo em relação ao destino Lisboa deixa-nos muito confiantes para os meses que se avizinham».

Quanto aos desafios, atira: «Reforçar o destino Lisboa no mundo. Mostrar a capacidade que temos para receber o mundo inteiro em toda a Área Metropolitana de Lisboa, um autêntico destino global com múltiplas e valiosas ofertas e experiências». Na sua opinião, o principal desafio passa por garantir «um crescimento equilibrado e sustentável da atividade turística, o que implica conciliar a elevada procura com a qualidade da experiência dos visitantes, a preservação da autenticidade e identidade do destino».

Porto a crescer

Já Luís Pedro Martins, presidente do Turismo Porto e Norte, confessa que as reservas, para já, estão em linha com as do ano passado, «apesar de toda a instabilidade internacional». Na sua opinião, essa tendência está parcialmente relacionada com a «forte diversificação de mercados em que temos apostado». No ano passado, mercados como o norte-americano, o brasileiro ou canadiano, «consolidaram-se como dos mais relevantes para a região».

Mas não é só. «A entrada em funcionamento de novas rotas para o aeroporto Francisco Sá Carneiro, como é o caso da Delta Airlines, é altamente promissora para o crescimento no mercado internacional». Por isso, atira: «Acreditamos por isso que poderemos continuar a crescer em todos indicadores».

Luís Pedro Martins diz que o Porto e Norte está «com forte crescimento, acima das médias nacionais, na generalidade dos indicadores», lembrando que, em 2025, foram o destino favorito dos turistas portugueses. «O desafio é agora manter essas taxas de crescimento». O Porto quer continuar a crescer nos mercados mais qualificados, mercados de longa distância, «que geram mais valor e para isso será importante não perdermos nenhuma das rotas aéreas conquistadas e de preferência aumentar». E quer trazer mais turistas para regiões como o Minho, Douro e Trás-os-Montes.

Hoteleiros de pé atrás

Já a hotelaria entra no verão com perspetivas cautelosas. Embora as reservas para os meses de junho a setembro estejam em linha com as do ano passado e exista expectativa de um aumento moderado do preço médio, os empresários antecipam um desempenho global mais fraco do que em 2025. Segundo o inquérito “Balanço Páscoa & Perspetivas Verão 2026”, da AHP, 40% dos hoteleiros esperam resultados piores do que os do ano passado, enquanto apenas 32% preveem melhorias. O mercado nacional continua entre os mais importantes, mas perdeu relevância face a 2025, enquanto Reino Unido e Alemanha reforçam o seu peso.

A principal preocupação do setor é a instabilidade económica e geopolítica internacional, apontada por 71% dos inquiridos, à frente do aumento dos custos operacionais e das limitações da capacidade aeroportuária.

A AHP sublinha, contudo, que as previsões devem ser lidas com prudência, tendo em conta a crescente importância das reservas de última hora, que poderão ainda influenciar positivamente os resultados da época.