A operação de resgate dos corpos e veículos – um autocarro e três ligeiros – que cairam com a ponte de Entre-os-Rios foi feita «além daquilo que são as condições de segurança», afirmou ao Nascer do SOL o comandante Paulo Vicente, que há 25 anos (2021) foi um dos protagonistas das operações de buscas e porta-voz dos mergulhadores. Reconhece que esses mais de 30 dias foram de grande tensão, principalmente nos primeiros dias, em que não foi possível mergulhar devido ao caudal e às correntes fortes. Paulo Vicente recorda que a sua equipa, com mais de trinta mergulhadores, chegou ao local na manhã seguinte à queda da ponte e as primeiras dificuldades começaram mal chegaram a Castelo de Paiva, já que não havia acesso à margem sul. «Chegámos à margem norte e fomos escoltados pela GNR, mas esse trajeto acabou por ser benéfico porque montámos os botes e fizemos logo o reconhecimento e foi possível constatar logo as dificuldades que existiam: uma corrente muito forte, remoinhos e um caudal que impossibilitava o mergulho», salienta.
Os trabalhos dos mergulhadores estavam a ser apoiados pelo Instituto Hidrográfico através de equipamentos sonar, para ver o fundo do rio e para identificar onde é que poderiam estar os veículos. «Dávamos apoio efetivo porque havia outras coisas no fundo do rio que se podiam assemelhar a um autocarro, aliás, encontrámos um contentor de doze pés e uma barcaça virada ao contrário e debaixo de água os dois assemelhavam-se a um autocarro», lembra.
O primeiro mergulho só aconteceu no dia 7, mas não foi possível validar o que estava no fundo. Um momento que foi acompanhado por milhares de familiares, que estavam na margem do rio, e em direto nas televisões. «Esse primeiro mergulho foi realizado em condições muito difíceis, aliás extremas, em que o próprio mergulhador estava em risco. Só passados dois dias é que se fez um segundo mergulho e aí foi possível verificar o que pensávamos que era um autocarro afinal era uma barcaça virada ao contrário. Nessa altura, o mergulhador conseguiu ir ao fundo porque foi diminuindo o caudal, mas houve quatro a cinco dias de tentativas para efetuar isto. Até trouxe uma parte de madeira da barcaça para mostrar que não se tratava do autocarro», refere.
As buscas continuaram e acabaram por ser alargadas depois de várias experiências. «Deixámos cair um peso de 4 toneladas e do momento em que se põe até chegar ao fundo andou 30 metros. Dava para ver a força do corrente e chegámos à conclusão que a zona onde poderiam ter caído as viaturas se calhar não era assim tão perto de onde estava a ponte», lembra Paulo Vicente.
As buscas para encontrar o autocarro e dois carros demoram mais de 30 dias, o terceiro carro só foi recuperado em junho (havia o compromisso de recuperar todos os veículos envolvidos). «O que demorou 30 e tal dias para encontrar, em condições excecionais, em junho, em apenas um dia, fez-se o varrimento de toda aquela área e no fim desse dia foi detetada a última viatura. Outra coincidência, estava no local onde já tínhamos mergulhado e estava debaixo da barcaça. Dá para mostrar que a visibilidade que tínhamos inicialmente era zero, praticamente e com uma corrente muito difícil. Era a luta da força da natureza contra a vontade que tínhamos de resolver a situação», recorda o comandante.
‘Levados ao limite’
Apesar de reconhecer que o mergulho militar se caracteriza por atuar em situações extremas e de estarem preparados para agir nessas circunstâncias, Paulo Vicente admite que nesta operação toda a equipa foi «levada ao limite». Uma situação que foi reconhecida recentemente pelos familiares num seminário em Castelo de Paiva, no âmbito das cerimónias alusivas aos 25 anos da tragédia: aí, reconhecerem que, na altura, não viram as dificuldades. «Temos de admitir que fomos além daquilo que são as condições de segurança. Não estávamos a salvar vidas, mas a angústia e a forma como as pessoas estavam a sofrer fizeram com que quisemos ir além desse limite», afirma.
Na altura, os militares chegaram a convidar um familiar a descer ao rio para perceber as condições em que era feita a operação de resgate e até para ver as dificuldades de ficarem apenas à tona água. E 25 anos depois do acidente não hesita: «Fizemos o que podíamos fazer e não podia ter sido feito mais nada», mesmo não tendo conseguido recuperar todos os corpos – dos 59 corpos, apenas 23 corpos foram recuperados e alguns dos quais deram à costa na Galiza.
Aliás, o momento de recuperação do autocarro é apontado pelo comandante como uma das situações «mais especiais», até pelas condições que foi necessário implementar. «Foram colocadas redes de pesca, porque se existissem corpos que pudessem ser libertados estariam desta forma presos. Houve sempre essa desconfiança nas pessoas que quando se começou a mexer no autocarro tivessem sido libertados de corpos e não terem sido recuperados. Não podemos garantir a 100% que isso não tivesse acontecido, mas criámos todas as condições para que não acontecesse».
Desconfiança
Paulo Vicente recorda ainda alguns momentos de desconfiança, daí destacar o papel da comunicação de crise que ficou até aos dias de hoje. «Desde o início falámos a verdade. Fomos transparentes em relação às dificuldades e falámos em termos de proximidade com as pessoas envolvidas, nomeadamente com os familiares. Nestas situações há sempre muitas opiniões, muita especulação mas a existência de um briefing diário ajudava a perceber o que se estava a passar e acabar com a ideia de que um militar está a esconder qualquer coisa», aponta.
Essas dúvidas levaram a que fossem chamados ao local mergulhadores franceses, os Pompiers de Paris, e outros especialistas da Suécia e da Noruega, que chegaram à conclusão que não era possível fazer a operação de resgate de outra forma. «Perceberam que não era possível fazer mais nada. Não era possível contrariar a força da natureza», diz o comandante, recordando que, nessa altura, era das poucas pessoas em Portugal que tinha uma especialização em salvamento subaquático, uma vez que tinha estado pouco tempo antes da queda da ponte com mergulhadores americanos. O responsável destaca outro dado curioso: a existência de centenas de pessoas que se deslocaram ao local, muitos a fazerem centenas de quilómetros, com propostas de soluções. «Ouvimos sempre essas pessoas, uns defendiam a construção de cápsulas em fibra, outros a construção de barreiras, mas que efetivamente não fazia sentido», acrescenta.
Vinte e cinco anos depois, Paulo Vicente não hesita em admitir que foi uma experiência que marcou todas as equipas envolvidas. «Marcou-nos para sempre, para o bem e para o mal». E destaca a aprendizagem que houve, nomeadamente em termos de comunicação e de gestão de equipas entre várias forças militares. «Naquela altura, não estava delineada qual era a fronteira de cada um e onde é que podiam atuar. Em 2024, no rio Douro caiu um helicóptero com elementos da GNR e envolveu a uma coordenação de várias forças e todos sabiam quais eram as suas competências e o que é que iam fazer. Não tenho dúvidas que é fruto daquilo que aconteceu há 25 anos», conclui.