sexta-feira, 13 mar. 2026

Entre-os-Rios. Há traumas que não se superam

25 anos depois da queda da ponte Hintze Ribeiro, a tragédia continua viva na memória. Entre dor e ausência de respostas, famílias fazem questão que a data não seja esquecida.
Entre-os-Rios. Há traumas que não se superam

A4 de março de 2001 o país foi surpreendido por algo que se julgava impossível:  nessa noite, a ponte Hintze Ribeiro, sobre o rio Douro, colapsou. 59 pessoas perderam a vida nos concelhos de Penafiel e Castelo de Paiva, naquela que foi uma das mais marcantes tragédias da história recente de Portugal.

Passados 25 anos, o drama persiste na memória coletiva e, particularmente, nas vidas das famílias das vítimas.

Ao Nascer do SOL, Augusto Moreira, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios, sublinha que para muitos o luto continua por cumprir. «25 anos é uma data que marca um ciclo mas, naturalmente, muitos dos familiares, sem recuperarem o corpo, é sempre difícil fazerem um luto. E nós ainda temos muitas famílias que pedem apoio psicológico», afirma.

Augusto Moreira recorda que «a vida das pessoas alterou-se a partir de 4 de março de 2001, principalmente para os familiares». E acrescenta: «As pessoas nunca compreenderam o porquê daquele acidente e como é que aconteceu», embora algumas tenham encontrado na associação uma forma de seguir em frente. «Outros envolveram-se na instituição e entenderam que depois da morte há vida, e que nós temos que seguir, e até que somos capazes de fazer mais qualquer coisa».

Esse envolvimento trouxe novas dinâmicas e mudanças profundas. «Considero muito positivo o percurso dos familiares. Vemos que retomaram a vida, que refizeram, com as suas dificuldades, com as suas vivências», avança Moreira.

 

‘As pessoas tiveram a capacidade de se unir’

O desabamento ocorreu por volta das 21h15, quando uma parte do tabuleiro da ponte cedeu. Um autocarro da empresa Asadouro, com 53 passageiros, e três outros veículos caíram nas águas do Douro. Não houve sobreviventes. E apenas foram encontrados 23 corpos.

O dramático desfecho deixou mágoa. «O 4 de março é sempre uma data que marca e que lembra, mas tentamos ver pelo lado positivo e todos seguiram o seu rumo». Contudo, admite que «há situações traumáticas que ficaram nas pessoas», embora destaque a capacidade de união. «Felizmente as pessoas tiveram a capacidade de procurar, de se unir, e essa própria união, e o facto de criarmos a associação e termos uma referência, é sempre uma porta que eles têm para procurar esse apoio».

Passados 25 anos, Augusto Moreira faz «um balanço muito positivo da dinâmica que os familiares sempre tiveram», sem esquecer que «alguns não conseguiram fazer o seu luto» e, reitera, continuam com «dificuldade em perceber o porquê da ausência de um corpo, o porquê daquelas mortes, o porquê de uma ponte cair».

 

‘Não foi suficiente’

A investigação oficial identificou múltiplos fatores, incluindo a fragilização dos pilares, a extração de inertes no rio e a falta de manutenção eficaz como causas que contribuíram diretamente para o colapso.

Na sequência imediata do acidente, o então ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, demitiu-se, proferindo a frase que ficou para a história: «A culpa não pode morrer solteira». O Governo decretou dois dias de luto nacional. Mais de duas décadas volvidas, a dimensão política e institucional da tragédia continua a ser objeto de reflexão.

Apesar das investigações governamentais, no plano judicial não houve condenações. Seis técnicos - quatro engenheiros da antiga Junta Autónoma de Estradas e dois da empresa projetista - foram absolvidos, com o tribunal a entender que, à data, não existiam regras técnicas claras que enquadrassem a atuação dos peritos. Para muitas famílias, essa decisão permanece como um ponto sensível na forma como a justiça (não) foi feita.

Sobre a justiça, o presidente da associação reconhece avanços, mas mantém reservas. «A partir do momento que houve um julgamento, e que o julgamento não encontrou responsáveis, para nós foi sempre difícil entender isso». Recorda que houve «um ciclo dedicado à responsabilidade criminal», além da responsabilidade civil e política, com a demissão do ministro e o pagamento de indemnizações pelo Estado.

«Não foi suficiente», considera. «Também queríamos uma responsabilidade criminal, porque uma ponte não pode cair, não é normal que isso aconteça, e o Estado tem que garantir às pessoas condições para que as obras estejam seguras e não possam morrer 59 pessoas. Acho que houve aí alguma negligência». Apesar disso, admite que «a justiça fez um grande trabalho, mas não fez o trabalho suficiente para poder acusar e responsabilizar quem deveria responsabilizar».

 

O Anjo de Portugal

Em resposta à catástrofe, foi rapidamente construída uma nova ponte Hintze Ribeiro, inaugurada a 4 de maio de 2002. Em 2003, um monumento de homenagem - o ‘Anjo de Portugal’ - foi inaugurado em Castelo de Paiva, com os nomes das 59 vítimas gravados na base.

Este ano, o 25.º aniversário tem sido assinalado com um programa evocativo. Começou em janeiro e estende-se durante o mês de março. Inclui eventos culturais, sessões de reflexão, caminhadas junto ao rio e momentos de homenagem religiosa e civil. As cerimónias oficiais de dia 4 de março incluem uma missa, o lançamento de flores ao rio e atos de memória junto das comunidades mais afetadas.

Para Augusto Moreira, o país tem o dever de manter viva a memória daquele dia. «Temos todos a obrigação de não deixar esquecer o 4 de março de 2001, porque é um momento negro da página do país, é o maior acidente rodoviário que o país teve, portanto nunca pode ser esquecido, porque houve muita gente que morreu injustamente». E não tem dúvidas: «Seria o ato mais covarde da associação chegar a 4 de março e não lembrar esta data. É um ato de dignidade o que fazemos, e não queremos ter uma segunda perda não lembrando o acontecimento».

 

daniela.ferreira@nascerdosol.pt