terça-feira, 09 jun. 2026

Educadora de criança abusada em Fafe ameaça mãe

Educadora de infância da menina de cinco anos abusada pelo pai, agora ex-militante do Chega, em Fafe, ameaça a mãe da menor após uma notícia do Nascer do SOL. Judiciária propôs ao Ministério Público o arquivamento do inquérito contra a mãe, Adriana Alves. 
Educadora de criança abusada em Fafe ameaça mãe

Vive rodeada de inimigos que não lhe dão tréguas. Já não sabe distinguir um perigo concreto de um perigo imaginário. Há três anos que Adriana Alves, contra tudo e todos, luta pela guarda da sua filha. Durante três anos, a rapariga, de 28 anos, foi alvo de uma demente perseguição da sogra, Cândida Freitas, que foi entupindo a Justiça de suspeitas e acusações: negligência, agressões físicas e finalmente, abusos contra a própria filha. O Tribunal de Família e Menores de Fafe foi sempre aceitando a sua versão.

Quando finalmente foi público, em março, que o responsável era o ex-companheiro, de quem se separara por violência doméstica, que tinha sido detido pelo crime de que a sogra a acusara, o choque foi grande, mas Adriana parecia ver finalmente a luz ao fundo do túnel. Encorajada pela ação da PJ, correu para o tribunal para reaver a filha. Mas a guarda, que em 2023 fora atribuída à sogra Cândida, não foi alterada e apenas o regime de visitas foi encurtado: os encontros quinzenais supervisionados com a filha foram reduzidos para metade. Cândida, sob o teto da qual a criança fora abusada desde que o casal se separara, em 2023, mantém a confiança da Justiça.

Adriana tenta esquecer o sofrimento para não ser destruída por ele. Às vezes é impossível. Na semana passada, após uma notícia do Nascer do SOL, foi a vez da educadora de infância da filha, Emília Teixeira, a ameaçar. Usando o poder que considera ter no palco judicial, a educadora, numa mensagem por WhatsApp, avisou: «Aconselho a senhora a ter muito cuidado com a divulgação do nome da educadora da Íris no SOL pois não lhe é autorizada a divulgação do mesmo pela própria, e ainda há informações que não condizem com os documentos existentes…». Isto apenas porque o seu nome era referido num documento que este jornal publicou. Contactada pelo Nascer do Sol, a professora deu à jornalista um tratamento semelhante, acabando por desligar o telemóvel sem explicar por que razão ameaçou Adriana: «Não dou autorização para publicarem o meu nome. Entenda-se com a mãe da miúda!». 

A evolução social é lenta e laboriosa, não há maneira de a abreviar. Cinco décadas depois do fim do regime salazarista, parte do país ainda não se recompôs dos seus desastres. Emília Teixeira, como se ainda ocupasse os antigos privilégios de classe, com toda a sua natureza nas palavras, decidiu atacar o elo mais fraco. A documentação que fez despertar a cólera da educadora, que tem sido uma voz de peso no processo tutelar aberto pelo tribunal contra Adriana, reporta-se a um relatório da psicóloga Leonor Barroso, que acompanhou a menor durante dois anos por esta então revelar um quadro psicológico que já indiciava o terror em que vivia.


Autoridades nunca desconfiaram

Enquanto a palavra da sogra de Adriana ganhava raiz em todas as frentes, a psicóloga decidiu ouvir a rapariga, que fora afastada totalmente da vida escolar da filha, e fazer o que a Justiça não fez: procurar as razões que se escondem por trás das coisas. O encontro com a mãe da menor e com a sua própria psicóloga, uma profissional do gabinete do município de Guimarães para vítimas de violência doméstica que a segue desde que apresentou queixa contra o ex-companheiro, leva-a a ponderar, pela primeira vez, que Adriana poderia ser a vítima. Tentou inverter o ciclo e propôs à professora de Íris, e a um elemento do grupo da Assessoria Técnica aos Tribunais, constituído por profissionais que acompanharam a família durante todo este tempo sem desconfiarem que a menor poderia estar a ser abusada sexualmente pelo pai, uma reunião a quatro. A primeira, Emília Teixeira, que até aí nunca trocara uma palavra com a mãe da aluna, revelou de imediato de que lado da barreira se encontra e ripostou que aquela só poderia visitar a menor com autorização do diretor do agrupamento escolar e do tribunal.

Leonor Barroso, sem imaginar as consequências, abria uma nova batalha da qual também ela sairia derrotada. Antes ainda de receber a resposta à sua convocação da equipa técnica do tribunal responsável pelos relatórios que periodicamente são entregues ao juiz para que este decida a evolução do processo tutelar, foi Cândida Freitas quem, com dotes mediúnicos, contra-atacou: «Informou-me que, quando nos contou sobre as coisas que a Íris dizia que a mãe lhe tinha feito, esperava a nossa ajuda para afastar a mãe, e não o contrário».

Cândida, mais uma vez, mantendo fidelidades quase irracionais, foi pondo e dispondo da vida de Adriana e da filha sem que lhe levantassem obstáculos. Arranja, a contento, nova psicóloga para Íris que até agora não sentiu necessidade de ouvir a mãe da criança embora esteja a elaborar um relatório para entregar ao tribunal.

Emília Teixeira, essa, parece continuar alheia aos sintomas do sofrimento da menor que ao descrever na PJ o que o pai com ela fazia resumiu: ‘Doía’. E, já depois de saber que fora Ivo o autor dos crimes antes atribuídos a Adriana, fez chegar a tribunal o seguinte parecer: «Não notei qualquer alteração significativa no estado da criança». Com uma propensão inata para a agressão, a professora tinha outro alvo. Investida de uma certa soberania, como se tivesse na sua posse informações que vão no sentido oposto ao relatório da psicóloga Leonor Barroso, e que pode agora usar contra a Adriana em tribunal, terminou a mensagem WhatsApp para Adriana de forma insidiosa: «Aconselho-a a ter muito cuidado. Se quer lutar pela sua filha faça-o. Mas não envolva outras pessoas. A minha função é educar. Lembra-se do dia 8 e 9 de maio de 2025?».

Adriana, que na luta pela filha, habituara-se a contornar obstáculos, sente-se mais uma vez como uma presa nos dentes de um felino. Procura, rapidamente, na cave da memória, explicação para as datas que a outra lhe atirara como nova condenação: «A educadora da minha filha só falou comigo duas vezes, aquelas a que ela se refere na mensagem e fui eu que tomei a iniciativa. Incentivada pela psicóloga Leonor Barroso pedi-lhe para poder ver a minha filha no infantário. Mas ela disse-me que só com autorização do pai, que era o encarregado de educação. Nem sequer teve a sensibilidade, sabendo que eu apresentei queixa contra ele por violência doméstica, de perceber que me estava a empurrar para uma situação de grande humilhação».

Esta semana, a PJ de Braga, que em março deteve Ivo Ferreira Faria por pornografia de menores e abuso da própria filha, ouviu Adriana no inquérito aberto após a denúncia da sogra e propôs ao Ministério Público o arquivamento do processo.

Sem conhecimento do desfecho judicial, Cândida Freitas ainda não desistiu. A influência que a avó continua a exercer na menina é descodificada pela técnica que acompanha as visitas entre mãe e filha. Íris, que na PJ descreveu ao pormenor, o que o pai lhe fizera, continua a acusar a mãe das mesmas práticas. Questionada sobre quem lhe ensina aquelas palavras tem resposta pronta: a avó.

felicia.cabrita@nascerdosol.pt