Há quem não consiga ver para além do «óbvio», e que pareça ter ficado parado no tempo. Pensam que são apenas «homens que se vestem de mulheres». Figuras exuberantes, coloridas, brilhantes, chamativas e exageradas recorrentemente associadas à homossexualidade, à prostituição e até mesmo à transexualidade. A verdade é que a arte do transformismo - o termo drag -, surgiu no teatro na Inglaterra do século XIX, onde os homens vestiam roupas femininas porque as mulheres estavam proibidas de atuar. Segundo o texto A prática e a vivência drag queen em Portugal: um estudo exploratório, de Maria Cristina Ferreira Aguiar, é nesta linha que se define a característica distintiva da cultura drag situando-se, portanto, numa prática performativa. Em relação a queen é um termo genérico para homem homossexual.
Esta arte passou por diversas fases, momentos chave e, atualmente, é cada vez mais visto como um lugar onde a liberdade rasga preconceitos, um ato missionário que tem como objetivo quebrar estereótipos, uma forma de exploração do próprio interior que, muitas vezes, abre caminhos outrora adormecidos. Em Portugal, são cada vez mais as drag queens que ocupam o espaço público mostrando as suas habilidades e talentos, existindo inspirando, lutando pelo fim da marginalização desta arte. Pedro, Jorge e João fazem parte desse leque. São os três bastante diferentes. Porém, há uma coisa que os une: a vontade de fazer a diferença na mudança de mentalidades.
Um fascínio pela figura feminina
Pedro passou a maior parte da sua adolescência e início da vida adulta a sentir-se sozinho, a mentir por ter de esconder o facto de ser homossexual. «Apesar de não ser só isso que me define, sentia e sinto que é algo que dita alguns dos meus comportamentos e gostos, e como tinha que omitir, e por vezes até mentir acerca dessa parte de mim, sentia sempre que muitas vezes havia falta de profundidade nas minhas ligações», conta à VERSA. Nasceu em Abrantes, em 1995 e, por ser uma pessoa introvertida, sempre usou humor como arma/defesa. «Acredito que rirmo-nos de coisas que nos podem ferir tira-nos algum peso», continua. Ao mesmo tempo, sempre se interessou pela figura feminina. Aos 11 anos, com acesso ao computador, começou a seguir de forma afincada as «conhecidas divas da pop», como Lady Gaga, uma das suas maiores inspirações atualmente.
Descreve a sua infância como «agridoce». Dentro de casa, o ambiente era pesado, marcado por falta de compreensão, violência e sofrimento. Em contrapartida, quando brincava na rua com as crianças vizinhas, «a vida era leve e divertida». «Sempre me foi incutido - por comentários alheios, principalmente do meu pai -, que as mulheres eram um ser inferior. Eram vistas como ‘prostitutas’, apenas por estarem na esplanada de um café. No fundo, esse pensamento machista fez com que eu rejeitasse ainda mais este ódio contra o feminino. Foi quando comecei a acompanhar a Lady Gaga que percebi que a energia feminina é sinónimo de garra e força», lembra.
Começou a fascinar-se por esse universo e, muitas vezes, depois do banho ou de madrugada quando os seus pais estavam a dormir, metia fones no seu MP3, uma t-shirt na cabeça e uma toalha a fazer de vestido, e imaginava ser uma espécie de Lady Gaga. «Vejo as mulheres como arte, tanto que na escola costumava desenhar corpos nus… Uma vez, uma professora viu o que estava a fazer e tirou-me o caderno. Para ela foi um mau comportamento, para mim era uma forma de explorar a minha criatividade. Ainda antes disso, por vezes, a minha irmã (que já faleceu) vestia-me com roupas ditas de mulher, apenas por diversão, e tenho até alguns registos fotográficos disso», detalha o jovem de 30 anos.
Tal como ele, Jorge sempre admirou as mulheres e, segundo o próprio, sempre foi «mais feminino do que os outros rapazes». «O feminino sempre foi algo muito poderoso aos meus olhos! As mulheres são seres incríveis e ser comparado a elas era algo bom na minha cabeça, apesar de ser muito gozado por isso!», partilha. Foi criado por mulheres, nunca teve uma referência paterna e, apesar da sua formação ser em saúde, sempre sentiu necessidade de ter uma área onde se pudesse exprimir, uma área mais artística.
Desde jovem que soube o que era drags, mas só quando se mudou para Lisboa teve contacto com esse «mundo». «Na altura comecei a namorar e o meu companheiro já fazia drag… Percebi que aquilo que conhecia era apenas a ponta do icebergue! Drag é tudo e mais um pouco, não é apenas alguém a interpretar uma personagem mais feminina!», garante. «Drag é uma forma de performance artística em que uma pessoa cria uma personagem, muitas vezes exagerando expressões de género para entretenimento, arte ou comentário social», diz o artista. «Uma pessoa que faz drag pode ser cisgénero, transgénero ou não binária, e ter qualquer orientação sexual!», sublinha.
Um lugar de liberdade
Começou por curiosidade num Halloween, «visto ser uma altura mais aceitável e menos perigosa para andar por aí montada». «Gostei da sensação de como podia explorar o meu lado artístico até então adormecido (...) É um lugar onde posso ser e exprimir-me da maneira que quiser», diz o jovem de 34 anos, acrescentando que o que começou por uma arte de «dress resenbeling as a girl», hoje em dia pode ser o que quisermos. «É uma arte queer onde todos são bem-vindos para se expressar da maneira que bem acharem! As diferentes áreas que engloba e o quão polivalente é, é algo infinito, cheio de possibilidades! Desde cabelos, maquilhagem, dança, canto, representação, roupa… Há tantas áreas e tanto por onde explorar. Foi isso que mais me fascinou e fascina nesta arte!», reforça.
É na pele de Lola Bunny que Jorge se expressa. «É uma criatura de beleza e mistério, extravagante e enigmática», descreve, acrescentando que está em constante mutação e evolução. «Adoro explorar coisas novas nunca perdendo a essência da Lola. Ela encontra inspiração no extravagante e no perturbador, abraçando tanto o belo quanto o grotesco. Acho que tenho uma visão singular da feminilidade do belo e do estranho, e é isso que torna a Lola verdadeiramente autêntica e cativante», acredita. Segundo o mesmo, a Lola não existia sem o Jorge e vice-versa. «O Jorge está sempre presente nem que seja pelos princípios que ambos partilham! Apesar de em Jorge ser livre a Lola confere-me uma liberdade extra… Ela consegue chegar a muitos mais sítios! O Jorge enriquece-me com ideias, ela enriquece-me com coragem de as colocar em prática», revela.
Em 2015, Pedro também se mudou para a capital, começando a frequentar o Trumps e o Finalmente Club. Conheceu João que encara a drag Cher No-Billz, um ano depois. Nessa altura, o amigo já fazia alguns espetáculos no formato antigo do ‘Lugar Às Novas’ do Finalmente: «Ele fazia muitos números de comédia misturados com outros mais pessoais e emotivos. Comecei a acompanhá-lo e ia todas as segundas-feiras ao Finalmente para o ver… A ele, à Stefani Duvet e à Kaya D’Venus (que penso que já não exerce). Adorava, e como ia muitas vezes para a casa dele antes do show, comecei a ter acesso ao trabalho que toda esta arte dá. Dizia ao João que queria muito experimentar, mas era muito tímido». Aos poucos, começou a experimentar maquilhar-se. O sentimento foi de empoderamento, e quis continuar a explorar. Fez o seu primeiro espetáculo no dia 17 de abril de 2017. Após quatro meses na atividade participou no primeiro ‘POP ACADEMY’ do Trumps. «Estavam à procura de drags novas para ficarem residentes na casa. Eu ainda não tinha uma identidade muito forte, e não me quiseram», revela Pedro. Pensou em desistir, mas não se lembrava que se tinha inscrito no Miss Drag Lisboa do mesmo ano. «Prometi a mim mesmo que seria a última vez que faria drag... O problema é que ganhei, e isso foi a validação que precisava naquela altura para continuar», avança.
«Para muitos, ser drag é ‘um homem que se veste de mulher/diva para atuar’. Para mim, não é tão simples quanto isso. Drag é uma pessoa que usa as construções sociais de género para criar uma personagem/persona/extensão artística feminina. Existem imensos tipos de drag, nem todas são super femininas. Temos umas mais masculinas, outras que misturam elementos do que é ser-se feminino ou masculino, outras que não parecem deste mundo, por serem tão surreais… Isso fascina-me, fascina-me conseguirmos estar tão confortáveis com o nosso lado feminino e masculino e conseguirmos explorar isso de forma artística. Dá-nos liberdade, força e, sem nos apercebermo-nos, damos exatamente a mesma coisa a muitas pessoas que nos acompanham», explica Pedro.
Quando criou a Sylvia Koonz, queria ser uma drag que dançava incrivelmente bem. Porém, depressa percebeu que esse não era o seu forte e, à medida que o tempo passou, concluiu que podia ser ele próprio. «Podia ser engraçada, mas também bonita. Tinha a ideia errada de que drag queens cómicas não podiam também ser bonitas e polidas. E afinal, drag é exatamente sobre fazermos o que quisermos. Parei de me colocar numa caixa. Hoje em dia, para além de dizerem que sou engraçada, exploro também o meu lado de cantora, já tendo algumas músicas originais. Além disso, decidi acrescentar DJ Sets ao meu currículo! Como ganhei algum peso na pandemia e não o perdi, isso tornou-se uma insegurança minha, o que fez com que a minha identidade atual seja maquilhagem muito marcada e perucas grandes, uma tentativa de equilibrar tudo», conta. Pedro afirma que Sylvia é uma extensão de si. «Mas claro que quando estou maquilhada, o meu à vontade é muito maior, pois também sinto que as pessoas são mais recetivas a qualquer coisa que diga ou faça, pois não sou um ser ‘comum’», admite. «A Sylvia deu-me a possibilidade de fazer coisas que nunca pensei que fosse fazer, como pisar palcos enormes, fazer televisão, ter uma plataforma e pessoas que me seguem porque gostam de mim», continua.
A persona vs pessoa
«Em palco também sou o Alejandro Beauty», diz por sua vez João, de 34 anos. «Estudei Belas Artes e fui bailarino profissional durante anos, daí o ‘bichinho’ pelas artes performativas. Sempre fui muito expressivo, muito ligado à estética, à música, à forma como nos apresentamos ao mundo», descreve. Em criança, a sua admiração pela figura feminina manifestava-se de formas subtis: a atenção aos detalhes, ao glamour, à teatralidade. «Cresci a observar mulheres fortes, icónicas, e isso foi moldando a minha sensibilidade artística», acredita.
O universo drag surgiu numa fase em que começou a explorar melhor quem era e o que queria expressar. «Na altura, sabia muito pouco - tinha referências muito superficiais, mas rapidamente percebi que era uma arte muito mais complexa do que aquilo que parece», sublinha. Começou como bailarino do seu namorado que já fazia drag e a personagem foi-se moldando e ganhando forma. «Percebi que não é só colocar uma peruca: é construir uma personagem, uma narrativa, uma presença», garante.
Tal como acontece com os seus colegas de profissão, o artista acredita que o João e o Alejandro são camadas diferentes da mesma pessoa. «O Alejandro deu-me confiança, presença, coragem. Deu-me ferramentas para lidar melhor com o mundo», desabafa. «É uma versão intensificada de mim. É mais ousado, mais confiante, mais provocador. Ao longo do tempo foi evoluindo muito - tanto visualmente como na atitude. No início era mais experimental, hoje é muito mais definido, com uma identidade própria. Identifico o meu tipo de performance como draglesque: uma mistura de drag e burlesco. Incluo-me normalmente em espetáculos de formato cabaret», partilha.
Em 2021, juntamente com o seu companheiro - Naomi Beauty - participou no Got Talent Portugal. «Foi uma experiência marcante. Trouxe-nos visibilidade e validação, mas também pressão. Mais tarde, tivemos a oportunidade de levar o nosso trabalho para fora do país… Perceber que a nossa arte funciona em diferentes contextos culturais dá-te outra confiança», explica.
Segundo João, «é possível perdermo-nos um pouco na personagem, especialmente no início». «Quando estás a descobrir quem és em palco, pode haver momentos de confusão. Mas com o tempo aprendes a separar e a integrar - e isso torna-se saudável», refere. E este é um tema que Pedro já explorou em vídeos para o Instagram/TikTok, onde conta com milhares de seguidores. «Por vezes o nosso foco é tão forte para a persona, que paramos de dar amor à pessoa por detrás da arte. Eu não compro tanta roupa para mim, sou mais desleixado muitas vezes em relação ao meu visual, rapo as sobrancelhas para me facilitar o processo da maquilhagem... Infelizmente como está tudo a ficar tão caro, viver-se apenas do drag é difícil, por isso, temos de fazer escolhas… Pago a renda e as contas. E agora? Invisto no que me dá dinheiro? Ou invisto na pessoa que criou a Sylvia?», reflete.
A complexidade da transformação
O processo transformativo requer habilidade, paciência, dinheiro e muito trabalho. E, segundo Jorge, às vezes, o processo criativo «é um mero caos». «Tudo me inspira e, às vezes, uma ideia vem horas antes de a ter que ter realizada! Acho que a dualidade e o contraste de referências que tenho me dão um plus para criar coisas! Continuo a ter poucos recursos económicos para comprar tudo o quero, por isso continuo a fazer o exercício de criar algo grande com pouco», explica. Há duas semanas, por exemplo, o artista fez duas peças para usar na cabeça: uma de um barco velho que comprou vintage e outra de um candeeiro usado de cinco euros. «Pintei, adicionei coisas, e lá fui eu! Às vezes até no lixo consigo encontrar coisa interessantes! É inevitável recorremos a fast fashion para coisas mais práticas e rápidas, mas tento sempre explorar mais moda em segunda mão e dar um upcycling… Pegar em sobras de tecidos e construir algo! Corta daqui, cose ali, cola, põe uns lacinhos e daí sai uma criação! Às vezes tenho ideias e tiro recursos do ‘arco da velha’ como se costuma dizer. A criação é a parte que mais gosto», adianta.
Como Pedro não se considera tão bom na confeção de roupas, nem tem poder financeiro para comprar os melhores outfits, acaba sempre por tentar usar coisas que já tem em casa. «Mas claro que, às vezes, mando vir qualquer coisa e depois estilizo à minha maneira», aponta. «Tento focar-me bastante na maquilhagem, que é das coisas que mais gosto em drag, e nas perucas. As ideias por norma são coisas que vejo ou me surgem, muitas das vezes condicionadas ao local onde trabalho visto que temos temas semanais», explica. O tempo de preparação pode estender-se por horas. «Só para estilizar uma peruca, costumo demorar duas a três horas se ela já estiver lavada e esticada. Para tirar os nós, lavar e esticar antes de estilizar, costuma ser de uma a duas horas também. A maquilhagem, no ideal, três horas, para me certificar que fica tudo como quero, se bem que consigo maquilhar-me em uma hora e meia. Vestir-me costuma ser entre 40 a 60 minutos. O produto final tem sempre muito trabalho que o público não vê», conta Pedro.
De acordo com o texto de Maria Cristina Ferreira Aguiar, entre as várias etapas desta metamorfose, os artistas têm de ocultar os genitais, depilar as pernas, os braços, as axilas, o peito e outras partes visíveis do corpo. No entanto, há casos em que o artista não se preocupa em ocultar o seu órgão sexual e, tão-pouco, se depila ou se barbeia, assumindo particularidades da sua identidade masculina. Alejandro Beauty, por exemplo, aparece várias vezes de barba. «O transformismo pode ser, sem dúvida, uma forma de ativismo. Só o facto de existires, de ocupares espaço, de desafiares normas, já é um ato político. Mesmo quando não é intencional, tem impacto», ressalta. «Drag foi e sempre será um ato político! Sempre que a arte é usada para desafiar normas de género, defender direitos LGBTQIA+ ou chamar a atenção para questões sociais, é um ato de ativismo! Quando se promove a liberdade de expressão, a diversidade, a inclusão e o respeito pelos direitos dos outros estamos a fazer ativismo!», exalta Jorge.
Com o Alejandro, João faz espetáculos, apresentações, eventos privados, produções artísticas e festivais internacionais. «Viver apenas disto é possível, mas é difícil. Exige consistência, visibilidade e muitas vezes diversificar. Neste momento, não me é possível viver só da arte apesar de performar semanalmente», diz à nossa revista. Já Pedro e Jorge, são residentes no Trumps Lisboa, e dedicam-se inteiramente à arte. «Infelizmente (ou felizmente) sinto que futuramente terei que arranjar um part-time que consiga conciliar com o meu trabalho mais recorrente ao fim de semana. Viver apenas do drag é um luxo, muito poucas pessoas conseguem fazê-lo em Portugal», revela Pedro.
Mitos e preconceitos
Apesar dos avanços, ainda existem várias ideias erradas sobre o transformismo. «As conceções moralistas alicerçadas numa sociedade patriarcal e heteronormativa empurraram as drag queens para bares e discotecas gays, contextos considerados minoritários e igualmente discriminados, pelos que os seus processos de subjetivação são historicamente contingentes a essa comunidade», lê-se no artigo A prática e a vivência drag queen em Portugal: um estudo exploratório. «A associação à comunidade LGBTQI+, apesar de ter criado uma coesão e identidade grupal, faz com que as performances drag sejam lidas socialmente como marginais e condicionadas por estereótipos negativos, pelo facto de não se enquadrarem na norma heterossexista e binária da sociedade, o que os torna alvos de discriminação», continua. É também importante sublinhar que transformismo não é o mesmo que transexualidade. «Já me aconteceu algumas vezes pessoas pensarem que eu estou assim vestida pois sou trans, e vou-me prostituir. Consigo entender a dificuldade de algumas pessoas perceberem a diferença entre drag queens e mulher trans, pois a nossa sociedade é feita de milhões de bolhas sociais. Nós não temos contacto com todas as realidades que existem, mas a forma como lidamos com o que é ‘diferente’ é que conta», acredita Pedro, frisando ainda que muitas mulheres trans se prostituem pela falta de oportunidades de trabalho. «Transexualidade (hoje muitas pessoas preferem o termo transgeneridade) refere-se à identidade de género de uma pessoa cuja identidade não corresponde ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Não é uma performance, mas sim um aspeto da identidade da pessoa», completa Jorge.
Pedro costuma relativizar situações desconfortáveis, mas sempre que está na rua por qualquer motivo que seja em drag, ouve «imensos comentários regados de ódio». «Muitos deles incentivam a violência e até mesmo a morte, mas finjo que não ouço e continuo a andar… Já se tornou habitual. Não entendo a necessidade constante do outro verbalizar tamanha violência», lamenta. Segundo o colega Jorge, «infelizmente vivemos numa crise mundial sociocultural». «Apesar de lá fora ser melhor em muitos locais, ainda vivemos com medo de nos expressar artisticamente como queremos sem sofrer represálias! Em Portugal tudo neste sentido anda devagarinho, e agora ainda mais com tantos discursos de ódio que são banalizados diariamente em todo o lado. Temos pessoas que estão a mudar isso com a sua visibilidade como a Sincera Mente, que usa o seu humor e carisma para desmistificar quem somos enquanto artistas drag, mas estamos longe de chegar a um sítio seguro e de reconhecimento devido», alerta, acreditando que isso só muda quando se tornar esta arte mais «banal», presente em todo o lado, como se fosse um ator a fazer uma personagem. «Temos o Herman José a fazer personagens femininas há anos e a ele ninguém diz nada. Porque é que dizem a nós? Chamem-nos a nós também! Somos capazes de muita coisa! Ponham-nos em teatros, na televisão, filmes, jornais, publicidades! Desmistifiquem esses fantasmas! Somos só artistas! Queremos só plataformas para provar que somos bons! E se há boas drags em Portugal… Somos multifacetadas e acreditem que fazemos um ótimo trabalho!», remata Jorge.