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Durante gerações, muito antes de o ar condicionado chegar à maioria das casas portuguesas, o país sabia lidar com o calor através de um hábito simples: de dia, tudo fechado; à noite, tudo aberto para arejar. Esta continua a ser, aliás, a recomendação da Direção-Geral da Saúde, que aconselha manter janelas e estores fechados durante os períodos de maior calor.
O problema é que esse hábito nasceu numa época em que as noites arrefeciam. E isso está a mudar, precisamente agora.
Portugal enfrenta esta semana uma das ondas de calor mais severas dos últimos anos
O país entrou esta semana num período de calor extremo que deverá prolongar-se, segundo as previsões mais recentes, até meados de julho. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera prevê temperaturas máximas entre os 40°C e os 44°C no vale do Tejo e no Alentejo, com mínimas a rondarem os 24°C a 28°C em várias regiões, valores que caracterizam as chamadas noites tropicais. Os distritos de Lisboa e Setúbal entraram esta semana em aviso vermelho, alargado depois a Coimbra e Leiria.
Perante este cenário, o Governo já ativou o Plano de Contingência de Verão do Serviço Nacional de Saúde e acabou por decretar situação de alerta, o que reforça a prontidão das forças de proteção e socorro. O primeiro-ministro já pediu à população que siga todas as instruções das autoridades, e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge estima que a mortalidade possa aumentar nos próximos dias devido às condições climatéricas.
Uma tendência que já não é pontual
Este episódio não é uma exceção isolada. De acordo com dados do Copernicus Climate Change Service, as noites tropicais têm vindo a aumentar de forma consistente na Europa nas últimas décadas, a um ritmo de aquecimento superior ao dobro da média global.
Porque é que dormir com calor é mau
Ainda que os investigadores não tenham chegado a um consenso sobre qual a temperatura ideal para dormir, existe uma conclusão praticamente unânime: dormir com calor prejudica significativamente a qualidade do sono. O corpo humano começa naturalmente a perder temperatura cerca de meia hora a uma hora antes de adormecer, um processo associado ao aumento da sensação de sonolência. Estudos na área da regulação térmica do sono mostram que pessoas com insónia tendem a apresentar uma temperatura corporal mais elevada nos momentos que antecedem o sono, comparativamente a quem não tem esse problema. O calor ambiente dificulta essa descida térmica natural, tornando mais difícil adormecer e comprometendo a qualidade do sono mesmo quando este acontece.
O que fazer então?
A estratégia certa depende de onde se vive:
No interior do país, onde a amplitude térmica entre o dia e a noite continua a ser elevada, arejar de madrugada continua a funcionar. Não há necessidade de mudar de hábitos.
No litoral e nas grandes cidades, onde as noites frequentemente ultrapassam os 20°C, a lógica inverte-se. Ventilar já não deve ser a técnica principal e a prioridade passa a ser selar a casa assim que a rua começa a aquecer, aproveitar a inércia térmica das paredes e recorrer ao ar condicionado de forma criteriosa.
Um problema que tende a agravar-se
Se a tendência de aquecimento das noites se confirmar nos próximos anos, os pequenos truques domésticos poderão deixar de ser suficientes. Projeções para o clima português apontam para um aumento no número de noites tropicais e de dias de calor extremo nas próximas décadas, o que deverá tornar cada vez mais relevantes temas como a proteção solar dos edifícios, a reabilitação térmica das habitações e a criação de refúgios climáticos nas cidades.