Dorme cada vez pior? Estudo aponta para culpa das alterações climáticas

As noites cada vez mais quentes estão a afetar o descanso dos portugueses. Um novo estudo conclui que os habitantes de Lisboa perdem, em média, 40 horas de sono por ano devido ao calor, sendo quatro dessas horas diretamente atribuídas às alterações climáticas provocadas pela ação humana
Dorme cada vez pior? Estudo aponta para culpa das alterações climáticas

As alterações climáticas estão a agravar significativamente a perda de sono provocada pelas altas temperaturas, com impactos cada vez mais evidentes na saúde pública. Um estudo divulgado esta quarta-feira pela organização Climate Central conclui que, nos últimos 50 anos, a perda de sono causada pelo calor duplicou nas principais cidades do mundo, incluindo Lisboa.

A investigação analisou dados de 1.338 cidades e conclui que, entre 2020 e 2025, cada pessoa perdeu, em média, 56 horas de sono por ano devido às temperaturas elevadas durante a noite. Mais de 10% dessa perda está diretamente relacionada com as alterações climáticas provocadas pelas emissões de gases com efeito de estufa resultantes da queima de combustíveis fósseis e da desflorestação.

Lisboa perde 40 horas de sono por ano devido ao calor

No caso da capital portuguesa, os investigadores estimam uma perda média anual de 40 horas de sono devido às temperaturas elevadas. Dessas, quatro horas — cerca de 10% — são atribuídas ao impacto das alterações climáticas.

A comparação com outras cidades europeias mostra diferenças relevantes. Em Madrid, por exemplo, a população perde cerca de 30 horas de sono por ano, sendo cinco dessas horas (16%) consequência direta das alterações climáticas.

Segundo os autores, trata-se da primeira investigação que consegue quantificar diretamente o número de horas de sono perdidas devido ao aquecimento global, cruzando dados climáticos com estudos científicos sobre os efeitos das temperaturas noturnas na qualidade do descanso.

Noites mais quentes aumentam riscos para a saúde

A Climate Central alerta que o aumento das temperaturas durante a noite impede o organismo de arrefecer adequadamente após os períodos de calor intenso, comprometendo os mecanismos naturais de recuperação do corpo.

Os investigadores sublinham que este fenómeno está associado a um maior risco de acidente vascular cerebral (AVC), doenças cardiovasculares, agravamento da saúde mental e aumento da mortalidade.

Além disso, a redução da duração e da qualidade do sono afeta o desempenho cognitivo, prejudica o desenvolvimento infantil e pode contribuir para uma diminuição da esperança de vida.

Idosos, crianças e grávidas entre os mais vulneráveis

O estudo destaca que os impactos das noites quentes não são iguais para toda a população. Os idosos, crianças e mulheres grávidas encontram-se entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos das temperaturas elevadas durante a noite.

Também as famílias com menores rendimentos enfrentam riscos acrescidos, devido às condições habitacionais e à menor disponibilidade de sistemas de arrefecimento, como o ar condicionado.

Nas zonas urbanas, o conhecido efeito de ilha de calor agrava ainda mais o problema, fazendo com que as temperaturas permaneçam significativamente mais elevadas do que nas áreas envolventes.

Médio Oriente e Sudeste Asiático registam as maiores perdas

Os maiores impactos foram identificados no Médio Oriente, onde várias cidades da Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos perderam entre 55 e 87 horas de sono por ano devido às temperaturas noturnas extremas, com 12 a 16 horas diretamente relacionadas com as alterações climáticas.

No sul da Índia e em diversos países do Sudeste Asiático, a perda anual varia entre 78 e 91 horas, sendo entre oito e nove horas atribuídas ao aquecimento global.

A presidente da Associação Médica do Canadá, Courtney Howard, recorda, citada no estudo, que um adulto necessita de sete a nove horas de sono por noite para manter uma boa saúde física e mental.

Calor extremo também ameaça rendimentos e economia

O estudo surge poucos dias depois de outro relatório, divulgado pela organização não-governamental Adelphi Global, que alerta para os impactos económicos do calor extremo induzido pelas alterações climáticas.

Segundo essa análise, em cenários mais severos podem perder-se até 20 dias de trabalho por ano devido às temperaturas extremas, sobretudo em setores como a agricultura e a construção civil, aumentando o risco de perda de rendimento, despesas médicas e pobreza, especialmente entre as populações mais vulneráveis.