quarta-feira, 13 mai. 2026

Diogo Ramada Curto. Livrar o país do museu de cera

1959-2026. Presença galvanizadora, a sua perda afunda-nos no castigo de um país sem história.
Diogo Ramada Curto. Livrar o país do museu de cera

Era pouco português, ou, então, era mais do que muitos, remetendo para uma condição ancestral, de indómita atitude, em conflito aberto e rejeição constante desse ritual de identificação com um país sujeito há muito a um processo de mortificação que vai apagando e transformando os seus contornos mais distintivos e espinhosos, preferindo abandonar-se ao fado de um desconsolo que se resigna, deixando correr por si a história, como uma narrativa que tudo tritura, para ser mais fácil de engolir, sem mastigar, para não nos sentirmos obrigados a correr atrás dela, a forçar-lhe um outro ritmo. Aborreciam-no as ortodoxias, os consensos preguiçosos, e via o seu papel como o de produzir antídotos, rechaçar os conformismos e a banalidade que nos inunda os dias. Ia a contrapelo, cativado pela possibilidade de trazer à baila as alternativas, dissidências, captar o grão da diferença, reaver a história enquanto campo em formação, aberto às disputas, aos contrastes, à dúvida e à crítica mais leal e desassombrada. Diogo Ramada Curto reconhecia como um vício mortal para um historiador esse ímpeto justiceiro de quem procura julgar o passado com categorias actuais e dar, sobre acontecimentos e comportamentos do passado, juízos moralistas nascidos da mentalidade de hoje. E, no entanto, procurava intervir nos debates culturais e políticos que marcavam a actualidade, sempre com um perspectiva informada, valendo-se daquele fervor dos arquivos, onde mergulhava como quem busca um ângulo novo e inesperado, para investir com aquele ânimo quase perverso de quem está empenhado em virar de pantanas um território que se desapaixonou do conflito, regendo-se pelos fins acomodatícios próprios de um país-museu-e-mausoléu, em que vamos de «comemoração em comemoração». «É o verniz cultural de uma elite política que lê pouco, que não conhece a Biblioteca Nacional, que deixa as instituições descapitalizadas, que não investe nessas mesmas instituições patrimoniais e que depois é capaz de alocar alguns milhões a comemorações que têm de se gastar à força toda e não fica nada.»

Ele compreendia bem como a nossa história se tinha deixado capturar pelos enredos de afirmação social de uma classe que tende a tornar-se subserviente face ao poder, esses organismos e instituições onde se formam tribos numa espiral recíproca de suspeita e desconfiança, deixando-se arrastar pelas sombras de velhos preconceitos de superioridade por parte de uns, mas também de desforra insistente por parte de outros. Muito consciente das fragilidades que provoca em nós o complexo de sermos pequenos, e que tendem a um acirrar dos antagonismos que nos leva a tornarmo-nos minúsculos, ele mostrou-se empenhado em inverter esse sinal, estimando não apenas o registo combativo, tantas vezes truculento, mas também aquele sentido gregário, procurando animar tertúlias, cercando-se dos mais novos, fossem eles investigadores ou académicos portugueses e estrangeiros, fossem outras figuras da cena intelectual portuguesa ou apenas de passagem. Entendia que  há uma necessidade urgente de regeneração, revitalização e cruzamento de saberes, num ambiente cultural onde a crítica, não por acaso, se tornou quase inexistente, sendo esse o efeito do regime paroquialista em que há um interesse em fazer valer os privilégios de casta, numa sociedade onde «todos são aparentados, tudo está ligado a tudo, como no país inteiro, que, apesar de ser um novelo de disputas, guerras de nervos, fome de poder e fomes, é como se fosse uma só família» (Curt Meyer-Clason).

Se morreu de forma inesperada, no último sábado, aos 66 anos, depois de ter sido internado há duas semanas, na sequência de complicações de uma doença autoimune aguda, e se logo a sua memória foi socorrida e a sua intervenção e perfil mereceram elogios vindos de quase todos os quadrantes, não se deve supor que o seu desaparecimento não tenha deixado de ser acolhido como um alívio ou até uma alegria por parte de muitos. Neste país, não faltam aqueles que estão sempre a afiar as facas, a apurar os venenos. Se a sua nomeação para director da Biblioteca Nacional de Portugal foi enquadrada «numa tradição de directores que foram também intelectuais intervenientes e influentes no seu tempo, de Jaime Cortesão, na I República, a, já no pós-25 de Abril, Oliveira Marques ou Vitorino Magalhães Godinho, este último, aliás, um dos reconhecidos mestres de Ramada Curto», como assinala Luís Miguel Queirós, devemos também notar como, sem surpresa, logo após o anúncio, a mais alta recomendação que lhe poderia ser feita veio da parte de um desses círculos dos nossos assanhados burocratas, um grupo de bibliotecários e arquivistas que veio levantar reservas, manifestando «estranheza e preocupação» diante desta escolha pelo facto de o currículo do historiador não mencionar «formação especializada na área da Ciência da Informação».

«Na sua breve passagem pela direcção da Biblioteca Nacional de Portugal, Diogo Ramada Curto – e sei do que falo – foi alvo de boicote sistemático à sua acção e de inúmeras desconsiderações pessoais e ataques em surdina por parte de uma personagem tão sinistra quanto incompetente, cujo nome nem sequer merece ser referido», diz João Pedro George em declarações ao SOL. Adiantando que tal figura, que se perfila para lhe vir a suceder na direcção da BN, «teve o desplante de aparecer no velório do Diogo, sendo naturalmente convidado a abandonar o local, gesto que foi prontamente apoiado pelos presentes.»

George deixa ainda um aviso à tutela: «A sua eventual nomeação para o cargo de director da BNP, além de um vil atentado à memória do Diogo, provocará a justa indignação de centenas de pessoas da academia, dos meios culturais, além dos milhares de amigos do Diogo, pertencentes a todas as idades e quadrantes ideológicos.»

Sem complacências para com ‘o esquema’, buscou fazer da história um modo de pensar constantemente os seus próprios pressupostos, e, para isso, seria necessário resgatar Portugal a essa condição das nações decapitadas, aquelas que, segundo uma concepção oitocentista, se destinaram a uma perpétua condição subalterna, deixando-se arrastar por processos históricos que não afecta nem compreende, colocando a um mesmo nível as concepções míticas e aqueles acontecimentos que, por não serem nunca confrontados, acabam por gerar divisões crescentes, fracturas políticas inconciliáveis.

Para Diogo Ramada Curto, era importante partir de uma perspectiva abrangente, aberta à diversidade e ao cruzamento de disciplinas, de forma a «alcançar outros níveis de leitura, relacionando a história com outras formas de conhecimento que vão da antropologia à sociologia, à ciência política». Sublinhava como a multiplicidade de abordagens tornava mais informadas, mais densas essas abordagens, sendo possível ir mais fundo de um ponto de vista explicativo. «Há que procurar manter vivo o projecto de que elas [as ciências sociais] servem para compreendermos a realidade, recorrendo para isso a instrumentos conceptuais, procedimentos analíticos e regimes de prova de diversa ordem. Sem derrapar em simplismos – nem os factos são um dado, nem a objectividade se decreta. É na prática analítica que os factos se constroem e que a objectividade se impõe. Donde, a necessidade de romper com os modelos pré-construídos, com as vulgatas pretensamente teóricas, com o pretensiosismo das modas tantas vezes evocadas a benefício de inventário, porque se constituem num obstáculo à própria análise. Donde, também, a necessidade de desmontar, através de análises críticas, a extrema politização que rodeia certos temas, mais do que outros, ou que afecta objectos considerados inócuos, como o da vida privada ou o da própria economia psíquica.»

 

Reconhecia que a História não é higiénica, e que muitas vezes certos erros são mais fiéis à sua profundidade obscura e superfície fugidia do que um excesso de escrúpulo, que pode tornar-se de tal modo cauteloso que se mostra incapaz de sustentar qualquer nova abertura. Havia, por isso, no seu trabalho uma componente não apenas experimental e ousada, desafiadora em relação às habituais grelhas de análise e àquele seguidismo de ideias tão característico da nossa academia, mas também um gosto de testar outras possibilidades, promover o confronto e o debate como ferramentas metodológicas, e desembaraçar-se desse prisma que reforça as hierarquias, que continua as lógicas de violência, dando sempre protagonismo a reis, imperadores, duques, príncipes, vitórias, conquistas, violências, rapinas, procurando reivindicar aquele lado de construção paciente e um tanto obscura, aquele efeito polémico de mergulhar nas contradições, dando espaço à perspectiva dos derrotados. Assim, e mostrando-se avesso a todo o tipo de nacionalismos, soube ir contra a corrente, aproximando-se por vezes dos métodos da micro-história, sendo que a sua figura tutelar, Carlo Ginzburg, foi um dos autores que ele fez questão de divulgar entre nós.

De resto, como assinalou Rui Tavares, Ramada Curto não só leu muito, como deu muito a ler. «Com Francisco Bethencourt, dirigiu colecções na editora Difel que publicaram autores como Carlo Ginzburg, Norbert Elias ou Clifford Geertz, e fez muito para que a geração seguinte tivesse leituras mais amplas, mais sólidas e mais internacionais do que era comum na academia portuguesa. Mais recentemente, voltou a fazê-lo com o Miguel Bandeira Jerónimo e o Nuno Domingos nas edições 70. Somos todos muito devedores do trabalho dele como editor, inevitavelmente menos lembrado por estes dias.»

O trabalho que desenvolveu, desde 1988, na direcção daquelas duas colecções de livros, deixava-o orgulhoso, não apenas pela excelência das dezenas de títulos que deu a conhecer, mas também por este se ter mostrado viável para os editores, provando que «há um público que quer ser informado, muitas vezes à revelia da cobertura que os jornais fazem». E adiantava que esta sua convicção não partia de uma noção romântica. «Tenho a melhor ideia acerca do interesse do público que não aceita mitos de uma memória colectiva que muitas vezes os poderes e os círculos oficiais tentam impingir a esse mesmo público.»

Se a história não é um tribunal que emita sentenças de absolvição ou condenação, conhecê-la serve mais, como notava ele, para nos libertarmos dela, das utilizações que dela são feitas com vista a extrair-lhe juízos de ordem moral. «Quando o historiador se arvora num guardião do passado, ao qual vai buscar lições, penso que não é muito dignificante. A minha maneira de pensar é mais dubitativa e experimental.»

E se, nos nossos dias, não faltam aqueles que, em lugar de uma verificação de factos e de uma pesquisa de fontes, de uma comparação de relatos, abrindo para uma perspectiva mais abrangente, mais vasta sobre um determinado tema ou período, preferem fazer dela uma arena onde se contrapõem arengas de acusação ou de defesa, movidas não tanto por interpretações ou sequer opiniões discordantes em relação ao alcance de um documento, mas antes por convicções ideológicas e apriorísticas, Ramada Curto bateu-se por uma perspectiva mais curiosa, investigando aqueles recantos abandonados, dando a sensação de que a História, ao passar, se esqueceu aqui e ali de muitíssimas coisas que, ainda cheias de vida, voltam à tona.

Assim, como o obituário do Público vincava, «nos seus trabalhos sobre o império português, recusou leituras centradas em exclusivo na antiga metrópole, privilegiando uma abordagem relacional, atenta às circulações e às assimetrias». «O império surge como um campo de tensões. Não há narrativa heróica, nem condenação simplificada, mas a exposição de um problema histórico a pedir análise rigorosa. É uma abordagem próxima da chamada história global que contribuiu para reconfigurar o modo como a história portuguesa passou a ser pensada nas últimas décadas. Na última entrevista que deu ao Público, disse: “O mais importante é não reduzir a história dos Descobrimentos a visões eufemísticas e parciais das quais fique excluída a violência, o saque, a destruição guerreira pejada de demonstrações de tenacidade, o tráfico e a exploração de escravos.”»

 

Com uma obra vasta, que nos últimos anos se concentrou sobretudo nos domínios da história global, em particular nas questões do colonialismo e da escravatura, Diogo Ramada Curto dedicou também uma atenção persistente aos problemas do livro, das bibliotecas e das práticas de leitura. Colaborou regularmente com jornais e plataformas colectivas, onde se afirmou como um polemista incisivo.

Natural de Lisboa, onde nasceu em 1959, frequentou o Colégio Militar e licenciou-se em História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, instituição onde viria igualmente a doutorar-se em Sociologia Histórica. Foi aí que desenvolveu a maior parte do seu percurso académico como professor catedrático no Departamento de Estudos Políticos. A diversidade dos campos em que ensinou e investigou, da história cultural e intelectual à história do império colonial português, passando pela sociologia histórica do livro e da leitura e pelos estudos da globalização, permite compreender a natureza do seu trabalho como uma reflexão histórica continuamente atravessada por interrogações do presente.

Professor catedrático na mesma faculdade, onde concluiu o doutoramento em 1995 com uma tese dedicada à cultura política em Portugal durante a dinastia filipina, foi também professor visitante em várias universidades estrangeiras, entre as quais a École des Hautes Études en Sciences Sociales, a Universitat Autònoma de Barcelona, a Universidade de São Paulo e as universidades Brown University e Yale University. Entre 2000 e 2008, ocupou a cátedra Vasco da Gama em História da Expansão Europeia no Instituto Universitário Europeu de Florença.

Discípulo de Vitorino Magalhães Godinho, integrou uma geração que contribuiu decisivamente para deslocar a historiografia portuguesa de um registo predominantemente descritivo para um campo de problematização crítica, atento às linguagens e às mediações. A atenção à cultura escrita, às formas de circulação dos textos, às suas apropriações e aos efeitos que produzem, constituiu um dos eixos estruturantes do seu trabalho.

De todo o seu trabalho, e perante a inevitável sensação de um défice, uma vez que não nos é possível deixar de pensar no muito que ele teria feito para sacudir e livrar o nosso espaço público do excesso de constrangimentos, pedantismos ridículos e todas esses limitações e obsessões da consciência confinada, deve ficar-nos o seu impulso para desafiar a estreiteza desta semicultura, através de uma postura igualmente empenhada e combativa. «O Diogo alimentava-se de lutas e de combates e era isso que o animava quando acordava cedo de manhã», nota o antropólogo Nuno Domingos, que além de seu aluno foi também seu amigo. Ramada Curto preferia ser desafiado a ser citado, “coisa rara no meio académico”, acrescenta. «O Diogo gostava de ser posto em causa e, por isso, as suas aulas não eram monólogos, com uma hierarquia definida, eram seminários, conversas. O conflito, tal como o Diogo o via, era produtivo, criativo, e devia ser integrado na dinâmica da investigação.»

O testemunho de João Pedro George vai no mesmo sentido. «O Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem, coisificarem, cristalizarem. Por mais cortantes que fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que agradar ou ser um professor popular. Depois de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode causar tanto impacto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.»