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Portugal foi atingido nos últimos dias por uma sucessão de três depressões atlânticas – Ingrid, Joseph e Kristin – que provocaram milhares de ocorrências em todo o território, incluindo cheias, quedas de árvores de grande porte e de diversas estruturas, cortes de eletricidade e de comunicações, desalojamentos e, pelo menos, seis mortes, segundo balanços da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.
A terceira depressão, Kristin, foi a que mais prejuízos trouxe, mantendo o país sob condições severas e esteve associada a vento muito forte e chuva intensa. Desta depressão há a lamentar quatro mortes no concelho de Leiria, mais uma em Vila Franca de Xira e outra em Silves.
Segundo dados da Proteção Civil, uma vítima é de Carvide e foi atingida por uma chapa metálica; outra, em Fonte Oleiro, foi encontrada em paragem cardiorrespiratória (PCR) numa obra; e uma outra vítima, também em Carvide, ficou presa na estrutura da habitação.
Os municípios mais afetados pelo temporal veem-se agora a braços com – ainda – incalculáveis prejuízos e as críticas à atuação tardia do Governo somam-se.
Um dos distritos mais afetados foi Leiria, tendo o autarca local pedido ao Governo para decretar estado de calamidade. «O primeiro apelo que fazia era que o próprio Governo equacionasse de imediato o estado de calamidade para podermos acudir a todos os prejuízos e recolher, na nossa região, os meios necessários para recuperar a vida normal do nosso concelho», disse Gonçalo Lopes, alertando para a dimensão dos estragos. «Temos espaços públicos virados de pernas para o ar. É algo que vai obrigar a um esforço muito grande de recuperação nos próximos meses. O impacto é semelhante àquilo que pode significar uma bomba dentro da nossa cidade, com destruição maciça».
Neste concelho, pouco resistiu. Desde o estádio Dr. Magalhães Pessoa ao terminal rodoviário. Em Pombal, por exemplo, as contas mostram que praticamente todas as casas foram afetadas pelo temporal.
Luís Montenegro, que tinha programado viagens para Andorra e Croácia, acabou por cancelá-las para visitar as regiões mais afetadas, tanto em Leiria como em Coimbra.
E o Governo, ainda que com ponderação inicial, não teve outra hipótese se não declarar estado de calamidade nos municípios mais afetados (um total de 60 até um de fevereiro, mas, como confirmou ontem o ministro Leitão Amaro, pode ser alargado).
Em Leiria, Luís Montenegro explicou: «Com isso [a situação de calamidade], não direi que elevámos nenhuma prontidão em termos de recursos e meios disponíveis, porque isso já estava a acontecer mesmo sem o decretar da situação de calamidade. O que começamos a desenhar são os mecanismos para, de uma forma mais célere, mais rápida, menos burocrática, podermos colocar todos os trabalhos de recuperação no terreno». E agradeceu a «excelente colaboração» dos vários agentes no terreno.
O primeiro-ministro prometeu ainda apoios financeiros para as zonas mais afetadas: «Estamos a incluir na resolução de situação calamidade o conjunto de instrumentos que estará a disposição de todos os municípios para podermos ter formas mais rápidas e expeditas para poder recuperar o essencial daquilo que é da nossa responsabilidade». Reconhecendo que estes apoios vão «comportar um esforço financeiro grande», Montenegro prometeu que «as pessoas não deixarão de ter essas ajudas».
Agradecendo ainda a onda de solidariedade dos portugueses, o primeiro-ministro recordou não poder estar em todos os sítios mas disse ter equipas um pouco por todo o país.
Coimbra foi outro dos distritos mais afetados. No aeródromo Municipal Bissaya Barreto o vento destruiu várias aeronaves (algumas dadas como irrecuperáveis) e um hangar de manutenção.
Também no Forum Coimbra, as rajadas fortes derrubaram árvores e estruturas externas no centro comercial.
De visita a este concelho, Luís Montenegro admitiu que os prejuízos eram mais elevados do que era esperado, revelando ainda já estar em contacto com Bruxelas. «Estamos já em contacto com a Comissão Europeia e com o gabinete da senhora presidente da Comissão Europeia para tentarmos desenhar e perspetivar formas de financiamento para ajudarmos a pessoas, as famílias e as empresas a superarem este momento», afirmou.
Montenegro voltou a declarar que «o mais importante é o bem-estar das pessoas».
Um dos casos mais falados foi na Figueira da Foz, um dos concelhos mais atingidos, com a queda da roda gigante instalada na cidade, danos no Hospital Distrital (vidros partidos e serviços condicionados) e ruas intransitáveis.
Face ao estado em que a cidade ficou, Pedro Santana Lopes, presidente daquela autarquia, manifestou o seu desagrado nas redes sociais. «Connosco ninguém contactou. Contactou, por telefonema e mensagem, António José Seguro. Dos atuais órgãos de soberania, ninguém. Mas não faz falta», lamentou, referindo também o contacto e disponibilização de meios por parte do presidente da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes. Uma ideia partilhada por Leopoldo Rodrigues, autarca de Castelo Branco, que lamentou o facto de não terem sido contactados pelo Governo e esperando estar inserido na situação de calamidade.
Os estragos da depressão Kristin foram também bem visíveis no distrito de Santarém, onde os municípios de Abrantes, Ferreira do Zêzere, Sardoal, Ourém e Tomar acionaram os respetivos Planos Municipais de Emergência. Várias infraestruturas caíram, há registo de várias árvores arrancadas pelo vento, estradas cortadas e nem o recinto do Santuário de Fátima escapou à força do vento.
Um pouco por todo o país o cenário foi um pouco semelhante, com escolas fechadas, telhados arrancados, árvores e sinais de trânsito no chão. Em Coruche, por exemplo, a ponte de Escusa, encerrada desde 2022, não resistiu ao temporal e cedeu. E em Ferreira do Zêzere vários caminhos ficaram interditos, casas destruídas e quase ninguém tinha rede ou eletricidade ao fecho desta edição. Face à situação neste município, o Exército mobilizou para aquela região um destacamento de engenharia, composto por quatro militares e três viaturas, para limpeza de estradas.
A depressão Kristin causou ainda danos significativos na infraestrutura de distribuição elétrica em Portugal continental, deixando centenas de milhares de clientes sem energia.
Durante a noite de terça-feira para quarta-feira, cerca de um milhão de clientes ficaram sem eletricidade, uma situação que foi sendo resolvida ao longo do dia de ontem mas que, em algumas situações, principalmente na região centro, ainda levou várias horas a resolver. Os cortes foram causados principalmente por vento muito forte, queda de árvores e danos nas linhas de distribuição, que interromperam a infraestrutura física de energia em vários pontos do país.
A REN viria depois a explicar que a passagem da depressão Kristin deixou fora de operação um total de 774 quilómetros de linhas de muita alta tensão da REN, o que corresponde a 7% de toda a Rede Nacional de Transporte de Eletricidade. «Várias das 10 linhas afetadas têm importância crítica, nomeadamente na ligação das Zonas Norte e Sul do Sistema Elétrico Nacional (SEN)», explicou.
Apesar de as equipas terem assegurado energia em vários locais, «a única exceção foram cortes de abastecimento de âmbito local junto à Subestação do Zêzere, que foi parcialmente destruída». A REN adiantou também que a tempestade derrubou um total de 61 postes de muito alta tensão e danificou muitos mais.
Também a E-Redes avisou que «a rede elétrica foi fortemente impactada» pelas condições meteorológicas que causaram causando vários danos na infraestrutura física de distribuição de eletricidade.
«As equipas da E-Redes identificaram 450 postes de Alta e Média Tensão partidos ou danificados, assim como 24 subestações, estando nesta altura oito por ligar», diz, explicando que as dificuldades de acessos ao terreno estão a condicionar a identificação de todos os danos causados, assim como a sua reparação.
A juntar à falta de luz, operadoras como a Vodafone e a MEO relataram falhas em serviços fixos e móveis, especialmente na região Centro do país.
Governo avalia consequências
«Estamos a fazer uma avaliação de tudo aquilo que são as consequências no terreno e de todos os instrumentos que podemos utilizar para uma reposição mais célere da situação e, portanto, para que possamos ter a normalidade completamente restabelecida». A garantia foi dada pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, no final de uma reunião na Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) em Carnaxide, Oeiras.
Antes, já o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, tinha prometido que o Governo vai «colaborar no regresso à normalidade». No entanto, alertou que «face à dimensão deste fenómeno, vai demorar ainda alguns dias na reposição de condições, sobretudo as de acessibilidade e devastação por derrubo de árvores».
Também o Presidente da República – que concordou com o estado de calamidade decretado pelo Governo – diz que vai visitar as áreas mais afetadas. E não foi o único: o candidato presidencial António José Seguro admitiu visitar, novamente sozinho, as zonas mais afetadas pela tempestade Kristin, manifestando-se «muito preocupado» com a situação «dramática e de urgência».
O também candidato presidencial André Ventura anunciou igualmente a visita a zonas mais afetadas e criticou a falta de prontidão da resposta do Governo.
Outras depressões
A depressão Kristin foi a última das três tempestades que assolou Portugal nas últimas semanas. A primeira depressão, Ingrid, marcou o início do episódio de instabilidade meteorológica e teve consequências graves. Foi registada pelo menos uma morte no Cadaval, depois de uma viatura ter sido arrastada por um curso de água. Houve ainda um ferido e 21 pessoas deslocadas das suas habitações em concelhos como Alcobaça, Cartaxo, Cascais e Peniche. A Proteção Civil contabilizou mais de 1.500 ocorrências associadas ao mau tempo, sobretudo inundações, quedas de árvores e danos estruturais.
Poucos dias depois, a depressão Joseph agravou o cenário, com chuva persistente e vento forte. Segundo a Proteção Civil, foram registadas mais de 1.100 ocorrências em poucas horas, incluindo 320 quedas de árvores, 281 colapsos de estruturas e 174 inundações. A tempestade levou ainda ao encerramento de mais de 20 estradas nacionais e municipais e obrigou ao realojamento de famílias afetadas por derrocadas, nomeadamente em Porto Salvo, no concelho de Oeiras. Durante o pico do mau tempo, foram também reportados cortes significativos de eletricidade, com dezenas de milhares de clientes sem fornecimento.
No conjunto das três depressões, o mau tempo deixou um rasto de destruição em várias regiões do país, mobilizando equipas de emergência para responder a milhares de pedidos de assistência, num dos períodos mais intensos deste inverno em Portugal.
Cheias e inundações
Mas ainda que o vento extremo pareça dar tréguas, o mesmo não se pode dizer das chuvas. Durante a depressão Kristin – e mesmo nas anteriores – foram registadas algumas inundações mas tudo parecia controlado. Agora, o cenário começa a mudar de figura.
Em Alcácer do Sal, por exemplo, o rio Sado galgou as margens e já está a fazer estragos e a causar preocupações, tendo até sido necessária a evacuação de um lar. Muitas zonas, na parte ribeirinha já estão intransitáveis.
O mesmo acontece em Viseu, onde também o rio Pavia saltou as margens e deixou várias zonas do espaço submersas e alguns percursos intransitáveis.
Em Sines – onde morreu uma pessoa –, as águas da ribeira galgaram a ponte e cortaram a estrada na Foz do Ribeiro, na freguesia de São Bartolomeu de Messines.
Estas são algumas das milhares de situações que já aconteceram ou que estarão para acontecer mas o Governo parece já estar avisado para as situações de maior perigo. Luís Montenegro avisou que, nos próximos dias, ainda vão existir «alguns riscos» associados à depressão Kristin. «Embora a depressão tenha passado, ainda temos, para os próximos dias, alguns riscos associados a níveis altos de chuva, a níveis altos de intensidade do vento, e sabemos que o que foi deixado por esta depressão fragiliza muita da capacidade de resposta», avisou. Nesse sentido, garantiu, o Governo está «a antecipar problemas», principalmente cheias e inundações, que «serão inevitáveis em algumas circunstâncias, dado que os terrenos não conseguem absorver mais águas».
‘Temos que nos adaptar’ e ‘planear melhor’
O especialista em água Joaquim Poças Martins considera que a sucessão de episódios de chuva intensa e fenómenos extremos em Portugal pode estar ligada às alterações climáticas. «Os dados que existem indiciam mais ventos extremos, mais secas severas e mais tempestades severas. Portanto, é plausível dizer que, de facto, há aqui mão das alterações climáticas nisso», afirma, sublinhando que a tendência aponta para «agravamento dos fenómenos extremos de falta de água e de água a mais, de água que falta e de água que destrói e que mata, e durante períodos mais prolongados».
Para o especialista, «está a haver uma alteração de padrão a que temos que nos adaptar», o que implica «planear melhor», «fazer algumas obras», «prevenir» e reforçar meios de proteção civil e bombeiros. Mas destaca também a necessidade de uma estratégia que tem faltado: «Recuos planeados». Poças Martins lembra que há locais onde as inundações são recorrentes e graves e alerta que «os seguros vão deixar de pagar os riscos repetidos», obrigando as populações a tomar decisões difíceis, sobretudo em zonas com «historial de mortes».
O especialista chama ainda a atenção para um risco emergente: a ocupação habitacional de caves em centros urbanos, incluindo por pessoas que emigraram para Portugal e «não têm a memória de inundações passadas». «Há risco de vida nessas situações, é um problema novo para que temos nos preocupar», afirma, referindo que existem «novos locais do país em que há risco de vida, e em que antes não havia».
Sobre a preparação do país, Joaquim Poças Martins considera que «ninguém está preparado para fenómenos extremos» e recorda que «as forças da natureza nunca ninguém as venceu». Ainda assim, defende que é possível mitigar muitos impactos através de soluções de engenharia e planeamento urbano, como «usar pavimentos que sejam porosos» e, sobretudo, «evitar construir em locais de risco». O problema, diz, é que «os sítios que antes pareciam seguros hoje não são» porque «o mar avançou» e «as cheias são mais severas».
Nesse contexto, insiste na importância do recuo planeado, defendendo que não basta investir apenas em obras ou infraestruturas: é necessário «ter dinheiro para ajudar as pessoas a mudarem de casa quando as suas casas estão irremediavelmente sob risco severo».
O especialista sublinha também o valor das medidas simples de prevenção, como a limpeza de sarjetas antes de períodos de chuva intensa. «Frequentemente, as inundações decorrem de entupimento das sarjetas», afirma, destacando: «Esse trabalho de prevenção que ninguém vê» é «da maior importância». Acrescenta que em muitas cidades existem zonas onde as cheias são frequentes e que, «com soluções de engenharia até relativamente baratas», é possível reduzir danos, como carros destruídos e água a entrar em lojas e habitações.
Apesar disso, reconhece que subsistem situações mais difíceis, como zonas habitacionais ocupadas de forma permanente em áreas inundáveis, ou regiões da Grande Lisboa e Setúbal afetadas por flash floods, cheias repentinas que já causaram mortes no passado e onde «ainda agora o risco de vida está lá». Para Poças Martins, retirar dezenas de milhares de pessoas dessas áreas exige «um planeamento muito forte e com muito dinheiro».