sexta-feira, 13 mar. 2026

Descobertos fósseis raros de baleias com 10 milhões de anos na Praia da Galé

Achado no litoral alentejano está entre os mais completos do Miocénico em Portugal e na Europa e pode revelar novos dados sobre a evolução das baleias
Descobertos fósseis raros de baleias com 10 milhões de anos na Praia da Galé

Uma equipa de paleontólogos confirmou que os fósseis encontrados na Praia da Galé, Grândola, correspondem a esqueletos parciais de duas baleias com cerca de 10 milhões de anos. Os especialistas consideram tratar-se de um dos achados mais completos do período Miocénico identificados em Portugal e na Europa.

A descoberta ocorreu em meados de fevereiro, depois de o mau tempo ter exposto vestígios fósseis a norte da praia, obrigando a uma operação descrita pela autarquia como “complexa” ao nível da escavação e remoção.

Operação científica envolveu três instituições de referência

Os trabalhos foram conduzidos por investigadores do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Após a escavação, os especialistas confirmaram a presença de dois esqueletos parciais pertencentes ao grupo Mysticeti — o mesmo que integra as atuais baleias de barbas.

Um dos exemplares inclui:

  • Um crânio e duas mandíbulas quase completas

  • Algumas vértebras e costelas

O segundo preserva:

  • Um crânio quase completo

  • Parte das mandíbulas

  • Diversas vértebras e costelas

  • Possíveis ossos dos membros anteriores e da cintura escapular

Baleias primitivas abundavam na costa portuguesa

Segundo a equipa científica, estes fósseis poderão pertencer a um grupo de baleias de pequeno a médio porte relativamente abundante na costa portuguesa há cerca de 10 milhões de anos.

Atualmente, o grupo Mysticeti inclui espécies como a Baleia-cinzenta e a Baleia-azul — esta última considerada o maior animal à face da Terra.

Os investigadores sublinham que o estudo destes exemplares poderá contribuir para aprofundar o conhecimento sobre: a evolução das baleias, a ecologia marinha do Miocénico e o modo de vida dos grandes vertebrados marinhos da época

Jazida com mais de 100 metros revela biodiversidade marinha

A descoberta insere-se na chamada Bacia de Alvalade, formação geológica que aflora no concelho de Grândola e que tem revelado uma impressionante diversidade fossilífera.

Além das baleias, foram identificados vestígios de:

  • Golfinhos

  • Tartarugas marinhas

  • Tubarões

  • Peixes ósseos

  • Possíveis aves

  • Invertebrados, incluindo bivalves

A jazida, com mais de 100 metros de extensão, é considerada uma das associações fossilíferas mais relevantes desta bacia geológica.

O Miocénico português é reconhecido pela abundância de fósseis marinhos, sobretudo nas regiões de Lisboa e Setúbal, com destaque para a Bacia do Baixo Tejo.

Fósseis seguem para laboratório e haverá protocolo de cooperação

Os vestígios deverão ser transportados nas próximas semanas para o laboratório do Museu da Lourinhã, onde serão realizados trabalhos de preparação, conservação e estudo científico aprofundado.

Para reforçar a preservação e valorização deste património natural, o Município de Grândola, o Museu da Lourinhã e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, através do Instituto Dom Luiz, estão a preparar um protocolo de cooperação.

O objetivo é garantir investigação continuada, divulgação científica e futura partilha deste importante

A descoberta coloca novamente o sul do país no mapa internacional da paleontologia marinha e poderá abrir novas linhas de investigação sobre os ecossistemas que existiam em Portugal há milhões de anos.