O café Cantinho de Alcântara anda num rebuliço. Desde que se soube que o prédio onde está localizado, na rua da Cruz a Alcântara, ia abaixo, por causa das obras do Metropolitano de Lisboa, que não se fala noutra coisa. Todos temem ficar sem casa - apesar de o Metro também oferecer realojamento. Gabriela Martins, a dona do estabelecimento, está por aqui há 40 anos. Tem clientela feita e garante que não consegue montar outro espaço com os 100 mil euros de indemnização que o Metro, agora dono do prédio, lhe quer dar. «Vai ser mais uma firma a fechar. E isto é o meu ganha-pão, não tenho outro trabalho», lamenta.
Os gastos extra já começaram. «Estamos a pagar a um advogado, é um dinheiro que eu não estava a contar gastar, porque isto tem de se dar muitas voltas e nós não sabemos o que havemos de fazer». Os vizinhos, garante, «estão todos indignados porque a Câmara, que era o senhorio, não contactou ninguém. O que a Câmara fez foi mandar cá um engenheiro, com pessoal do Metro, para nos dizer que isto tinha sido vendido».
Gabriela tem a esperança de com a ajuda do advogado conseguir chegar a um acordo para obter uma indemnização mais abonada. Caso contrário terá de fechar o café e ir para casa. «Tenho pena, porque ainda ficava aqui mais uns anitos».
O QUE MUDA EM ALCÂNTARA
Ali, depois de o prédio ir abaixo, irá nascer um espaço que fará parte do interface da futura estação de metro de Alcântara. O prolongamento da linha vermelha irá ter ainda estações em Campolide/Amoreiras, Campo de Ourique e Avenida Infante Santo.
Desta maneira, Lisboa ficará ligada pelo metro de ponta a ponta, entre o Aeroporto de Lisboa e Alcântara. Questionado pelo Nascer do SOL, o Metropolitano de Lisboa explica o que irá mudar em Alcântara. «A futura estação será implantada na zona do acesso à Ponte 25 de Abril, configurando-se como um interface desenvolvido em três níveis: um piso superior, onde funcionará o cais do Metro; um piso intermédio, correspondente ao átrio da estação; e um piso inferior, destinado ao cais do LIOS - Linha Intermodal Sustentável que assegurará a ligação ao concelho de Oeiras».
Haverá lugar a «uma intervenção profunda na sua envolvente urbana», continua o Metro. «No local do edifício em causa encontra-se prevista a respetiva demolição, a elevação da cota da praça para nível superior à cota de inundação e o subsequente rearranjo urbanístico, no quadro da reconfiguração global daquele espaço público».
Onde agora moram estas pessoas surgirá um parque para as paragens de autocarro e ligação à estação de comboios de Alcântara-Terra. «A solução projetada permitirá a criação de um interface modal estruturante, assegurando a articulação funcional entre os modos metro, rodoviário e ferroviário».
‘ELES QUEREM QUE ACEITEMOS AS INDEMNIZAÇÕES’
Bom para a cidade; difícil para quem mora no caminho do metro e vai ser obrigado a abandonar a atual residência. «Saímos, sim senhora, mas é se nos arranjarem casa», afiança Fátima Lopes, 73 anos, que vive há 46 anos nas águas-furtadas do edifício. «Vim tomar conta de um senhor que era inquilino da Câmara. Aliás, este prédio primeiro foi particular mas há quase 80 anos que foi passou a ser municipal. Depois o senhor pôs-me na ficha e eu fiquei com a casa. Aqui tive o meu filho e aqui o vi morrer, num desastre de carro, há 27 anos».
São muitas as lembranças destes que foram inquilinos da autarquia até ao dia 19 de fevereiro, data em que o Metro tomou posse do prédio e os seus contratos de arrendamento se tornaram inválidos. Da parte do município nem uma palavra. «Quando falo nisto as lágrimas vêm-me aos olhos, porque tenho quatro gerações neste prédio. A minha avó tinha três anos quando veio para aqui. Nasceu cá o meu pai, a minha tia, eu e os meus filhos. Há muitas memórias neste prédio», acrescenta Júlia Baptista, 66 anos.
«Não saímos. Deitem o prédio abaixo connosco cá dentro», afirma, convicta, Maria Adelaide António, 55 anos, a residente mais nova do edifício; a mais velha tem 90 anos e habita o rés-do-chão. «Foi o Metro que nos mandou uma carta, em dezembro, a dizer que o prédio ia ser expropriado. E que viria uma inspeção, para fazer uma avaliação às casas, para darem uma indemnização. Fizeram a fiscalização e disseram que nós tínhamos 15 dias para dizer se aceitávamos a indemnização ou não», revela Adelaide.
Sem rodeios conta como foi aquele dia, em que o funcionário do Metro chegou a Alcântara, para tomar posse administrativa do imóvel. «Foi extremamente mal-educado, arrogante, fez uma pouca-vergonha lá em baixo. Gritou com todos. Eles querem que nós aceitemos as indemnizações mas nós não aceitamos. Já dissemos que com as indemnizações que eles dão não saímos, queremos uma casa. Estão a oferecer cerca de 100 mil euros a cada inquilino».
Verba curta tendo em conta os preços praticados no mercado imobiliário atual. «E nós fazemos o quê com 100 mil euros? Compramos o quê? Uma rulote? Ele respondeu que com este dinheiro dá para dar uma entrada para uma casa. Só que eu tenho 55 anos, o meu marido tem 58, alguém nos dá um crédito habitação? E sou das moradoras mais novas do prédio. Agora imagine as outras».
Arrendar no mercado livre também não é opção para estas oito famílias com evidentes carências económicas. A revolta de Maria Adelaide dirige-se, de novo, para o funcionário do Metro que deu a cara. «Disse que não éramos obrigados a morar em Lisboa. E eu dei-lhe como resposta: ‘Olhe, o senhor não mora em Lisboa porque não quer, porque se eu tivesse o seu ordenado morava onde quisesse’. E ele não gostou. Olhe, temos pena».
CASAS FORA DE LISBOA: ‘NEM PENSAR!’
Seja como for, o ML garante que ninguém ficará na rua. A indemnização é apenas uma das opções. «Foi esclarecido que cada agregado poderá optar pelo recebimento da correspondente justa indemnização, a fixar nos termos legais, ou, em alternativa, manifestar interesse numa solução de realojamento em condições equivalentes, a assegurar pelo Metropolitano de Lisboa», garante a empresa ao Nascer do SOL.
A Junta de Freguesia de Alcântara fez uma reunião com os 20 moradores e está a acompanhar o processo. Entretanto, os antigos inquilinos municipais foram chamados aos serviços de habitação da autarquia na segunda-feira, 23, e terça, 24 de fevereiro. Júlia Baptista foi das primeiras a dirigir-se à Câmara. «Não adiantou grande coisa. A Câmara diz que quem é responsável é o Metro. Dizem que prédio foi expropriado e que eles estão na mesma situação que nós; que também ainda estão à espera para receber o pagamento pelo prédio. E que nós temos de esperar».
Uma espera que asfixia sobretudo pela falta de informação. «Não sabemos para que lado nos havemos de virar. A Câmara diz que está ao nosso lado mas que neste momento tem de ser o Metro a dar resposta à nossa situação. Eles (ML) mandaram uma carta a oferecerem o dinheiro. Respondemos que não estamos de acordo com aquele dinheiro e, já que eles falam em realojamento, queremos saber como, quando é onde é que são esses realojamentos».
Só que ao mesmo tempo que surge a hipótese de o ML realojar estas 20 pessoas há outra questão muito relevante para todos: como serão os contratos de arrendamento. Mais uma vez, o ‘mensageiro’ do Metro que esteve no prédio largou palavras das quais ninguém gostou. «Esse senhor disse que não há nenhum senhorio igual à Câmara e que nós ficaríamos durante um tempo com uma renda acessível e que, depois, as rendas iriam subir para valores de mercado. Isso está fora de questão para nós», enerva-se Júlia.
O contrato de arrendamento que agora foi rasgado, com a CML, era de dez anos com renovação automática. Júlia e os restantes moradores exigem condições idênticas. «Não é arranjarem-me uma casa e daqui a dez anos dizerem-me que tenho de ir para a rua. O meu ordenado nem sequer dá para uma renda. Se for o Metro a fazer um contrato de arrendamento estas cláusulas têm de ser muito bem escritas».
No meio do turbilhão de preocupações abre-se uma pequena esperança. «É o que as assistentes da Câmara dizem: na rua ninguém pode ficar. Esse indivíduo do Metro disse que em finais de março tínhamos de sair mas isso é da boca para fora. Não há nada assinado».
Júlia Baptista reforça que ninguém quer dinheiro; todos querem casa. «O Metro vai dar-me 110 mil euros, para a ajuda de uma renda. E depois? Daqui a uns cinco anos essa renda vai toda, porque arrendar uma casa custa mil e tal euros. Daqui a sete, oito, dez anos não tenho dinheiro para pagar a renda. E, a seguir, sou mais uma sem-abrigo que se junta a esses todos que temos por Lisboa fora», enfatiza.
Os moradores impõem outra regra. «Não aceitamos casas fora de Lisboa. Nem pensar!», prossegue Júlia. E dá exemplos concretos de casas municipais que estão vazias. «No bairro Maria Pia há nove casas vazias que davam para todos nós. Na Quinta do Jacinto também há casas vazias. Há pessoas aqui da rua, cujos prédios foram abaixo, que foram realojadas na Quinta do Jacinto. A Câmara tem muito por onde dar».
MOEDAS NÃO SE METE
Carlos Moedas não se compromete. Questionado sobre esta situação, afirmou que «as famílias sabem que estão protegidas». Para, logo de seguida, apontar: «É importante, do ponto de vista da transparência, que os lisboetas saibam que a responsabilidade é do Metro». E acima do Metro está o Estado. «O Metro, infelizmente, não é responsabilidade municipal. O Metro depende do Estado Central».
Só que, em tempos, de acordo com Maria Adelaide António, o município chegou a falar, informalmente, aos moradores da possibilidade de construção de um novo prédio, para alojar todos. «Ao princípio, quando começou a dizer-se que isto ia abaixo, a Câmara tinha dito que aqui, no cimo da rua, tem um terreno camarário, que está desocupado, e que queria construir um prédio, para os inquilinos deste edifício. Mas ficou tudo em águas de bacalhau», conforma-se.