terça-feira, 18 ago. 2026

D. José Miguel Pereira: “Quando um filho diz querer ir para o seminário, costuma receber oposição”

‘Lançou’ a maioria dos novos padres enquanto reitor do Seminário dos Olivais. Agora, D. José Miguel Pereira, bispo da Guarda, fala dos desafios da Igreja e da sociedade em geral. ‘É preciso que o respeito pelo islão não seja em contraponto com um silenciamento das expressões religiosas e civilizacionais de matriz judeo-cristã’.
D. José Miguel Pereira: “Quando um filho diz querer ir para o seminário, costuma receber oposição”

Foi o responsável, nos últimos anos, pela formação de quase metade, ou mais, dos novos padres de diferentes dioceses. Que características lhe chamaram mais à atenção nos novos sacerdotes?

Os sacerdotes, mais antigos e mais novos, são filhos do seu tempo. Trazem, por isso, as características do mundo presente e da forma de ser Igreja neste tempo e nos lugares de proveniência. O tempo de Seminário imprime alguns eixos importantes na procura de formar padres para este tempo. Mas não é uma linha de formatação nem o único meio estruturante de formação dos futuros padres.

Assim, a primeira coisa que julgo ser de assinalar é que não sou capaz de traçar um perfil dos ‘novos sacerdotes’ pois não é homogéneo. A diversidade e a pluralidade de proveniências, experiências de Igreja, configurações familiares, visões políticas, ambiente sociais, profundidade de fé, capacidade de insight e vida interior, determinam a diversidade do perfil dos vários padres na transição do Seminário para o início da vida sacerdotal.

Depois, as primeiras experiências de serviço a que são enviados, as características das comunidades onde iniciam o seu trabalho, a tradição dos diferentes presbitérios onde são inseridos, as correntes teológicas, espirituais e sociopolíticas das amizades mantidas ou inauguradas após a ordenação, influenciam o perfil de padre que vão assumindo.

Na realidade, nem tudo é coerente (sem atribuir aqui uma valoração moral) nas identidades que se vão construindo; como acontece nos processos de amadurecimento psicoafectivo dos jovens de hoje, há uma junção de elementos, por vezes com alguma contradição entre si, que concorre para a construção da personalidade e do perfil de padre que se vai configurando desde a saída do Seminário.

Não é de estranhar que processos de aquisição e amadurecimento de alguns traços de personalidade vividos no Seminário por um determinado candidato, se aprofundem, estagnem, ou regridam após a ordenação. E não de forma linear mas com avanços, recuos, recomeços, perdas. Se nem de um candidato consigo traçar um perfil, muito menos dos ‘novos sacerdotes’.

Mas sem fugir à pergunta, enumero algumas características dos jovens de hoje que também se encontram em novos sacerdotes: mobilização generosa por causas, intensas e de duração concentrada e dificuldade de fidelização no que é continuado no tempo; desejo de participar, transformar, deixar marca, solidarizar-se; apelo pelo radical, exigente, significativo; naturalidade digital, criatividade e comunicação audiovisual, resistência a hábitos de leitura, pensamento mais informativo e tecnológico e menos especulativo; redes débeis de pertença, insegurança face à perda de laços, ao futuro, à tomada de decisões definitivas; intensidade dos processos identitários, recuperação da apologética de resistência e combate e desconforto face a posições tidas como consensos tíbios ou equívocos, recuperação de elementos formais e antigos de segurança e identificação (vestuário, devoções, hábitos e usos); retoma da preocupação pela verdade; sujeição a forte pressão de escrutínio e avaliação (social, mediática e digital), insegurança de desempenho, medo da rejeição, necessidade permanente de confirmação; relação ambivalente com a autoridade, alheia e própria: contestação e reclamação de normas claras, desconfiança e apelo de presença paternal, demissão e exercício autoritário; preocupação com o próprio bem e atenção à própria saúde mental.

No passado, não muito distante, as famílias numerosas e pobres procuravam enviar alguns dos filhos para os seminários. Hoje a realidade é diferente?

Muito diferente. Tirando muito raras excepções em que o filho vem para o Seminário porque o ambiente em casa assim o condicionou, na maioria dos que batem à porta do Seminário a possibilidade de vir a ser padre nasceu fora do núcleo familiar.

Ainda há algumas famílias onde a educação cristã de casa criou as condições para que, em experiências eclesiais paroquiais, de movimentos, de colégios católicos, de missões, de campos de férias, de núcleos universitários, a inquietação vocacional pudesse despontar. Talvez algumas avós ainda sejam importantes para a sementeira vocacional.

Mas na grande maioria dos casos é uma verdadeira abertura vocacional que leva ao Seminário, e que nasce por fortes experiências pontuais de fé, ou de novas relações ‘em Cristo’ vividas nos ambientes acima referidos, que não a família.

O mais comum nos núcleos familiares de casa, hoje, até é a oposição a que um filho bata à porta do Seminário. Hoje, determinadas famílias enviam um filho, mesmo menor, para outra terra para uma Academia de futebol de um grande clube, para um colégio militar, para uma experiência de intercâmbio escolar no estrangeiro (programas Intercultura-AFS no ensino secundário).

Mas quando um filho diz querer ir para o Seminário, o mais generalizado é receber oposição. Sobretudo se ainda for menor de idade, mas também quando já seja maior, tenha concluído um curso superior ou até esteja já profissionalizado. Muitos dos candidatos ao Seminário precisam de conquistar os pais para essa possibilidade. Alguns, até, tendo de passar por algum período de relação ferida com os pais.

Um jovem adolescente ou adulto que vai para o Seminário não tem de enfrentar apenas a imagem negativa sobre o padre a que se vê sujeito, muitas vezes, na comunicação mediática e na digital. Tem de enfrentar também alguma crítica interna em correntes eclesiais que contestam a sacramentalidade do padre, e não reconhecem os esforços de actualização na formação, feitos à luz do documento final do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade e das conclusões do Grupo de Estudo n.º 4 sobre a formação para o sacerdócio, saído do referido Sínodo. E tem de enfrentar, muitas vezes, a oposição sua própria família.

Disse que o trabalho dos seminaristas também passava pela troca de experiências ao almoço e que gostava muito desse momento. Calculo que agora as suas refeições sejam bem diferentes na Guarda do que eram no seminário dos Olivais. Sente falta da troca de ideias com os seminaristas?

Com os seminaristas, sinto. Mas não passei a tomar refeições sozinho. Tomo-as habitualmente com um ou os dois vigários gerais, e algumas vezes também com outros sacerdotes que tomam parte em reuniões de governo colegial/sinodal da Diocese. E também partilhamos o que vivemos, e debatemos alguns assuntos.

Mas reconheço que me é também estimulante e proveitoso manter a proximidade com os jovens nesse ambiente informal de conversa. Por isso, já tenho recebido uma ou outra vez, na casa episcopal, para uma refeição, os seminaristas da Guarda, e alguns seminaristas dos Olivais que passem em visita.

Também já tenho participado em algumas refeições nas actividades do Serviço Diocesano da Juventude, e do Centro de jovens universitários da Universidade da Beira Interior, e do Pré-Seminário. E já convidei grupos de crismados, acompanhados dos seus catequistas, a virem à casa do bispo para falarmos e tomarmos uma refeição (esta iniciativa ainda não passou do convite à realização).

Quais são os grandes desafios que tem na Guarda? Há adolescentes nas missas?

Peço desculpa se começar pelo óbvio, mas os grande desafios na Guarda, são os mesmos da Igreja nesta Europa Ocidental: o primeiro, a evangelização num mundo secularizado que perdeu a capacidade de escutar Deus e alimentar uma espiritualidade teologal (isto é, não apenas imanente mas capaz de relação viva com Deus). Voltar a propor a vida evangélica como salvação para um mundo que julga nada ganhar com ela, e apenas admite o religioso como fenómeno íntimo de cada um e expressão social de assistência ou de manifestações etnográficas.

Um segundo, é a revitalização da vida espiritual no que é especificamente cristão: a oração de escuta da Palavra de Deus, viva, actuante e transformante; a celebração semanal que comunica a vida divina e liberta do pecado, isto é, dos aprisionamentos duma vida autorreferencial, sem horizonte de eternidade.

Um terceiro é o da reconfiguração comunitária da sociedade, nesta Europa Ocidental fortemente marcado pelo apelo do individualismo, reforçado na era digital, e pela crise das instituições. Crise das instituições que, numa abrangência mais lata, chega a ser crise de confiança na humanidade, seja no sentido global, seja face aos vizinhos e comunidades imigrantes. E que vê crescerem rupturas familiares, polarizações, conflitos, guerras.

Mas para responder também a alguma especificidade da Diocese da Guarda, posso referir as prioridades que o caminho sinodal de escuta e discernimento, percorrido esta ano pastoral que agora termina, identificou: o cuidado com o primeiro anúncio e a catequese (infância, adolescência, idade adulta e catequese familiar); a oração e a espiritualidade, e o cuidado com a liturgia; a formação permanente e o alargamento da Escola Diocesana de Formação; o cultivo de uma Igreja sinodal e a reorganização da pastoral diocesana em chave de comunhão e com critérios pastorais comuns; a reorganização em unidades pastorais missionárias com equipas pastorais e atenção aos diferentes sectores de pastoral; o envolvimento dos jovens na vida da Igreja; a corresponsabilidade dos leigos; a pastoral de acolhimento; a pastoral da proximidade e do acompanhamento; o reforço da comunicação e o uso do digital na informação, formação e evangelização.

Numa Diocese do interior de Portugal, com a diminuição e envelhecimento da população, um desafio é também fomentar as potencialidades que aqui permanecem, superando inércias ou derrotismos que se possam instalar. É preciso que as quatro áreas urbanas (Guarda, Covilhã, Fundão e Seia) e as sedes de Concelho (cidades de Pinhel, Trancoso, Gouveia e Sabugal, e vilas de Belmonte, Manteigas, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Penamacor e Almeida), que ainda têm escolas (e ensino superior em três delas), potenciem a presença e participação dos adolescentes e jovens nos grupos e celebrações da Igreja.

Há padres responsáveis por várias paróquias?

Sim, há. Efectivamente as cercas de 360 paróquias existentes e os cerca de 60 sacerdotes (diocesanos e religiosos) que assumem responsabilidades paroquiais, isso o determinam. Nas nomeações do ano passado dispensei do ofício de pároco 6 sacerdotes com mais de 80 anos (muitos já perto dos 90), durante o ano mais 2, e nas que agora se aproximam poderão ter de ser dispensados mais 3.

Alguns dos sacerdotes têm a seu encargo mais de uma dezena de paróquias. Situação que tende acentuar-se nos próximos anos, dado o envelhecimento do Clero da Guarda e a necessidade de vir a dispensar alguns, por idade, do ofício de párocos.

Se a participação dos leigos no cuidado pastoral das comunidades decorre do seu batismo, a efetivação da sua presença nas equipas pastorais que hão-de guiar a acção pastoral nas Unidades Pastorais a criar, torna-se mais premente.

Qual a importância da Igreja na Guarda? Quais são as principais obras da Igreja na região? Emprega muita gente?

A Igreja da Guarda é uma Diocese com mais de 800 anos de história, com forte sensibilidade religiosa que ainda hoje marca a forma de ser das gentes da Beira, e que enriqueceu muitas outras terras do país e do mundo: primeiro com a ida de muitas crianças e adolescentes para seminários nas Dioceses e Missões portuguesas: Beja, Évora, Lisboa e outras; Missionários Combonianos, Missionários de São João Baptista, Missionários do Verbo Divino, Missionários Monfortinos e outros; depois com a migração do povo beirão para a zona litoral do país, para a Europa e para a América.

As principais obras sociais da Igreja na região são os lares e outras valências de apoio a idosos, com destaque para as Misericórdias e os Centros Sociais Paroquiais; as instituições residenciais de acolhimento de crianças e adolescentes; as creches, jardins de infância, actividades de tempo livre e escolas do ensino básico; um Conservatório de música; um Jornal semanário em papel.

Qual a razão para algumas pessoas da Guarda irem a Lisboa para se confessarem?

Desconheço esse fenómeno como prática corrente e em número significativo. Li a vossa entrevista a um sacerdote de Lisboa que dizia receber numa igreja da Baixa lisboeta pessoas da Guarda que lá se iam confessar. Como vão, concretamente a esse local, pessoas de muitos outros lugares do país. Mas não tenho notícia que constitua um fenómeno sociológico efectivo a ida de pessoas da Guarda a Lisboa para se confessarem.

Nas cidades da Guarda (igreja da Misericórdia) e da Covilhã (igreja de São Tiago) há oferta habitual de confissões. Noutros lados, reconheço que, por vezes, as pessoas preferem-se confessar a outros sacerdotes que não os párocos, pelo que decidem ir fora da paróquia procurar um sacerdote que os atenda de confissão. Se essa procura é, habitual e significativamente, a Lisboa, é assunto que desconheço.

O que o surpreendeu mais na realidade da região?

Não sei identificar. Como já tive oportunidade de dizer em outras entrevistas, dois traços positivos marcantes foram a dinâmica pronta das comunidades cristãs em se organizarem para oferecer lugares de acolhimento e formação a muitas crianças que, ao tempo, eram acolhidas nessas casas residenciais. Casas que hoje se mantém como respostas institucionais a crianças sinalizadas pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CPCJ) e pelos Tribunais de Família e Menores. O segundo traço foi o reconhecimento manifestado pela missão do bispo e a partilha generosa e regular de bens em espécie em favor da casa episcopal.

Menos positivamente, como também já tive oportunidade de referir, surpreendeu-me uma certa habituação a lugares e cargos, e alguma inclinação para o lamento pelos constrangimentos da interioridade (demografia, isolamento, clima, etc.), que pode gerar alguma inércia.

Como consegue arranjar dinheiro para manter a Sé Catedral, bem como as restantes igrejas?

Esse é um assunto que precisa de ser devidamente analisado na Diocese e nas Paróquias, para ver que respostas sustentadas se podem encontrar. De momento, apenas a generosidade e empenho dos párocos e leigos responsáveis das comunidades têm conseguido angariar forma de sustentar os edifícios e o funcionamento das paróquias.

Mas há património, não necessariamente igrejas, em risco de degradar-se por não haver como financiar a sua conservação. É preciso que leigos, competentes nas áreas da conservação e do financiamento, possam constituir-se em comissões de apoio às paróquias e à Diocese na administração do património, tendo em conta três finalidades: a função pastoral, a função social, e a função de sustentação das obras de apostolado e conservação da Igreja.

Quanto à Sé, especificamente, é meu desejo que ela assuma papel central na pastoral da espiritualidade, da cultura e do turismo da cidade e da diocese. Mais ainda agora, que parece estar a aproximar-se a hora da montagem e inauguração do novo órgão de tubos da catedral.

Deus permita que se venha a conseguir dar de novo ao Cabido a sua dimensão de oficio pastoral na igreja do Bispo, adaptada às circunstâncias de os cónegos não habitarem todos na cidade da Guarda. Mas que ninguém fique inibido de desempenhar uma importante função pastoral evangelizadora por o canonicato não ser reconhecido como ofício mas, erroneamente, como estatuto.

Por que é que deu tanta polémica a afirmação de que as pessoas tendem a humanizar os animais de estimação e que se entretêm mais com os dispositivos e a IA e que se esquecem que «só nós, seres humanos, temos coração»?

Julgo que a polémica deveu-se a duas dinâmicas alheias ao texto e contexto da homilia: a primeira foi a dinâmica mediática de audiências que levou a encontrar um título indutor de polémica e pouco condizente, não só com a o texto da homilia, mas inclusive com a peça escrita pelo jornalista da Renascença.

A segunda foi a dinâmica das redes digitais, onde tantas vezes se comentam os títulos ou os destaques sem se lerem os textos completos, e depois comentam-se os comentários, assumindo como pensamento do autor do texto original aquilo que ele nunca disse.

Sobre este assunto, tive oportunidade de responder privadamente, por email e por mensagem, a quem educadamente me interpelou, inclusive uma Associação de defesa e cuidado dos Animais, e no final todos reconheceram a bondade do pensamento expresso no meu texto, e a polémica desnecessária provocada pelo título e pelos comentários.

A intenção do texto não foi sequer criticar as sociedades. Foi antes alertar para a necessidade de o ser humano cultivar a dimensão espiritual, o tal coração no sentido usado pela Virgem Santa Maria, que o distingue, humaniza e completa; e o responsabiliza no cuidado do outro e da criação, a partir da relação com Deus.

Em nada se diminuiu o reconhecimento do afecto que se pode estabelecer com algum animal de companhia. Mas acentuou-se, como é doutrina comum da Igreja, que sem o cultivo da dimensão espiritual, mais facilmente se podem transferir para os animais, os chatbot’s e os robôs dinâmicas relacionais que só Deus e os seres humanos criados à sua semelhança podem oferecer.

O Papa Francisco não tinha dito o mesmo, de que era lamentável que se cuidasse mais dos animais de estimação do que dos velhos, por exemplo?

Sim. E di-lo o compêndio da doutrina social da Igreja que apresenta o ser humano como a única criatura que reflecte a “imago Dei” (imagem de Deus). Condição que também o responsabiliza no cuidado da casa comum e de todas as criaturas, respeitando a diversidade e especificidade de cada uma. Onde se inclui o reconhecimento da vida e senciência dos seres vivos complexos e o dever moral de promover o seu bem e o de toda a Criação.

Na diocese da Guarda tem 360 paróquias. Com a população sacerdotal tão envelhecida, consegue pôr em prática o elogio que lhe fez o patriarca de Lisboa, de que é «um pastor tão dedicado, com provas dadas na arte de bem apascentar o povo de Deus?

O elogio é fruto da estima do Patriarca de Lisboa, que agradeço e para com quem experimento igual sentimento. Já disse numa entrevista estar a aprender a ser bispo. Também havia referido querer ser um bispo próximo do povo e não de gabinete.

Tenho tentado fazê-lo. Por vezes até me sugerem que abrande o ritmo da agenda. Não desejo andar a correr, mas desejo ir onde o povo está, e estar com as pessoas nos seus lugares e vivências. Quando pedem a minha presença, logo respondo que irei com todo o gosto, basta que se acerte a visita com e por meio do pároco.

Preciso de tempo para rezar e ler, e de tempo para escrever. O mais é para estar com o povo: receber e visitar. Já foi possível encontrar uma equipa de casais de Nossa Senhora, na Covilhã, para acompanhar (ainda aguardo uma na Guarda). Já comecei a acompanhar em direção espiritual uma ou outra pessoa.

Mas também tenho de aprender que o meu lugar não é substituir-me aos padres. Há uma forma de acompanhamento que devo fazer por meio deles. Por isso estão nomeados pelo bispo. Devo ouvi-los, apoiá-los, confirmá-los; e ter presença direta quando eles mo pedirem. Não se trata de criar obstáculos entre o bispo e os fiéis. Sempre que alguém me pede conversa, atendo. Mas depois, o acompanhamento e alguma solução concreta não dispensará, pelo contrário, envolverá aqueles que têm a missão de acompanhar, enviados pelo bispo.

O que pensa do cisma provocado pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X?

É uma ferida na unidade da Igreja, ainda para mais repetida (para dois dos bispos que agora se ‘auto’excomungaram – porque a Igreja apenas reconheceu publicamente as consequências inerentes aos actos por eles praticados – é já a segunda vez que realizam o mesmo acto e se colocam fora da comunhão da Igreja).

O mais sério desta situação é que não se trata de uma situação teórica, de um debate de argumentos sobre quem tem ou não tem razão. Se fosse só isso, podia ser mais sério ou mais ligeiro, como acontece em tantas outras vezes com o debate teológico e com posições mais heterodoxas, mas não conduziria ao cisma.

O drama é que alguns actos de ministério envolvendo a administração dos sacramentos exigem a comunhão eclesial para serem válidos. É o caso da faculdade de assistir e confirmar os matrimónios e de absolver os pecados. São sacramentos de constituição ou restabelecimento de aliança: para estes actos serem válidos, não basta o ministro ter sido ordenado, é necessário estar na comunhão da Igreja para poder receber faculdade específica para tal.

Isto significa que os leigos que a eles recorram para receber estes sacramentos, não os recebem efetivamente. A realização do rito não passará de simulação. A união sacramental do matrimónio não acontecerá. A absolvição sacramental dos pecados e a graça santificante concedida pelo sacramento não será comunicada. Consequentemente, todos os outros sacramentos ficam impossibilitados de ser por eles recebidos.

E o que diz a Fraternidade? Que eles é que têm razão. De repente, aquilo que eles sabem também pertencer ao tesouro da Igreja que dizem defender, mas que neste caso rejeitam (a autoridade dada por Cristo à Igreja para ligar e desligar), pode ser por eles deitada fora, como se não tivesse consequência na vida dos fiéis que eles assistem. Já não se trata de um debate teológico. Trata-se de abandonar a Igreja e viver uma realidade paralela, simulada, sem alguns sacramentos e, em continuidade, sem possibilidade de vida sacramental.

O Vaticano tem ‘chamado’ mulheres para cargo importantes nos dicastérios. Estamos perante duas ideias inconciliáveis? De um lado, os hiperconservadores, do outro, os renovadores?

Julgo que a nomeação de mulheres para estas missões só erroneamente pode ser colocada como uma questão entre conservadores e renovadores. A questão é a de saber se as missões pertencem a funções exclusivas do ministério ordenado, ou se são funções que decorrem da condição baptismal e da competência carismática e ou técnica, inclusive em áreas de apoio directo ao exercício do ministério do Papa, ou dos bispos e dos padres.

Se for o segundo caso, a única razão a ter em conta é o discernimento eclesial determinada pessoa é a chamada e mais bem indicada por Deus para assumir determinado cargo.

O que quis dizer ao afirmar que «o Senhor não se deixa manipular e não se deixa comprar por interesses pessoais ou de grupos? É cada vez mais evidente o compadrio e a sobreposição de bem de alguns sobre o bem comum?

Creio que a própria homilia justificava as afirmações: nem a ‘chico-espertice’ e a ‘cunha’ infelizmente tão populares na sociedade portuguesa, nem a dominação e o abuso de poder de alguns que exercem cargos de responsabilidade, são dinâmicas de relação a usar com Deus para alcançar Dele o que se quer. Deus coloca-se noutro modo de relação e entrega-nos esse outro modos para convertermos as nossa relações humanas e sociais.

Quando estava no seminário dos Olivais dizia, a propósito dos jovens indianos que o frequentavam, que no passado fomos nós como missionários e que agora são os indianos que vêm como missionários. Não foi nesse sentido que o disse, mas pergunto se não se sente, na Europa, a uma contracruzada?

Julgo que em alguns sectores das sociedades europeias se sente. Mas também julgo que é um fenómeno complexo que precisa de uma abordagem profunda. Nem a exclusão dos povos muçulmanos por medo de uma islamização da Europa. Nem a submissão aos seus costumes e práticas que sejam contrários à ordem civilizacional europeia.

É preciso que o respeito pelo islão não seja em contraponto com um silenciamento das expressões religiosas e civilizacionais de matriz judeo-cristã.

Foi professor de Religião e Moral no externato Penafirme. Chegou a ‘apanhar’ André Ventura como aluno? Se sim, com que ideia ficou do líder do Chega?

Nunca fui professor do líder do Chega. Mas fui seu vice-reitor, vivi com ele cerca de dez meses na mesma casa, quando ele frequentava o décimo segundo ano. Como já referi noutras ocasiões, André Ventura deixou a mesma ideia que tantos outros que passaram fugazmente pelo Seminário: um adolescente, que entrou no Seminário marcado por algo que lhe abriu a possibilidade de ser padre, mas que não tinha raiz suficiente e se esfumou, seguindo ele outro caminho.

Na altura não se lhe via qualquer propensão para a política, ou para ser líder. Foi um entre iguais, com a sua identidade e com a sua capacidade de relação.

Na Guarda já se rendeu às iguarias locais, como os queijos e enchidos? Já engordou?

Sim, já me rendi. E tenho constantemente de dosear e agradecer delicadamente sem repetir, para não ganhar peso.

Qual o seu prato preferido da região?

Ainda estou a descobri-los, não tenho um preferido.

O vinho que usa na missa é da região?

Desconheço. Não é o bispo que trata de encomendar o vinho. Quando me deparo com ele, já está no cálice, nem lhe vejo o rótulo. E celebro em vários lugares, provavelmente com vários vinhos.