terça-feira, 09 jun. 2026

Cristóvão Norte: 'Somos o país dos consultores'

Algarvio dos quatro costados, Cristóvão Norte sentiu saudades da AR, mas diz que lhe fez bem o afastamento. Considera a Costa da Caparica uma praia nortenha.
Cristóvão Norte: 'Somos o país dos consultores'

O Verão está a chegar e o Algarve continua sem o novo hospital. Será mais um ano de pesadelo para todos aqueles que precisarem de assistência hospitalar?

O Algarve precisa do novo hospital há muito tempo. É uma evidência. Por todas as razões que são tão óbvias que quase dispensam enumeração. Temos mais população, mais urgências, maior pressão sobre os profissionais e menos acesso para quem precisa de cuidados. Quem vive no Algarve conhece bem essa realidade. O concurso está lançado, o prazo é Agosto, e esse processo não pode parar. Estamos a cumprir com a nossa palavra. Ninguém poderia tolerar que a malfadada primeira pedra de Sócrates entrasse na terceira idade sozinha! Dito isto, o novo hospital não pode ser desculpa para adiar tudo o resto. Enquanto não chega, as pessoas continuam a adoecer, a esperar, a precisar de resposta. O novo hospital é indispensável. Como é reduzir as 100 mil pessoas sem médico de família – temos 5 USF - tipo C a avançar –, ou garantir que todos os doentes com cancro não têm que ir a Sevilha ou a Lisboa – o que no final de 2027 estará resolvido. É preciso dignidade. Saúde adiada é saúde negada.

Este ano, previsivelmente, não haverá falta de água na região. Quando a dessalinizadora estiver em funcionamento a realidade algarvia será outra? Haverá mais aposta na agricultura, além do turismo?

A dessalinizadora vai ajudar muito, mas, por si só, é uma mera caricatura do que se está a fazer. Está em curso uma vastíssimo programa de investimento que contém eficiência hídrica, aumento da capacidade de armazenamento, reutilização das águas residuais, recuperação de redes, usar tecnologia e planear com método. Eu chamo-lhe o plano Graça Carvalho, a quem já tive o privilégio de entregar a cidadania algarvia. Foi a brincar, mas simbolicamente é o que sentimos. Este plano é a refeição completa. Porém, isso não nos autoriza a desperdiçar água como se nada fosse. O Algarve tem de tratar a água como o sol, é um ativo estratégico. E devo dizer, a agricultura tem futuro no Algarve. O que se garante com este programa é que o Algarve tem liberdade para ter uma economia diversificada, em que não tem sempre a pistola apontada à cabeça e tem de escolher entre setores porque está estrangulado nas suas opções estruturais.

Há quatro anos dizia-nos que o PSD não estava a conseguir atrair os melhores da sociedade. Hoje já está?

Está melhor. Mas ainda estamos longe. Em boa verdade, acho que não é só o PSD. Os partidos têm uma tendência assustadora para falar para dentro. E, depois, há muita gente competente, livre, com vida feita, que não quer entrar na lógica partidária tradicional nem se expor à infâmia de partirem do pressuposto que não se é sério ou se está ao serviço de interesses inconfessáveis. Esse peso é muito desincentivador. Agora, o PSD tem de saber chamar essas pessoas e de atrair essas pessoas. Não apenas pelo PSD, pela democracia. Isso exige mudanças desde a organização dos partidos a modelos de eleição.

Na altura, era bastante crítico em relação ao que se estava a passar na Saúde e na Educação. Mudou alguma coisa?

Mudou a atitude, pelo menos. E isso não é tampouco quanto parece. Mas não seria razoável dizer que problemas acumulados durante anos desaparecem em poucos meses. Ganha-se pouco a dizer que o branco é preto e o preto é branco. Aliás, perde-se credibilidade e gera desconfiança e revolta. A mim, o que mais preocupa é quando as pessoas deixam de acreditar no sistema. É uma angústia, uma incerteza, um abandono que causam sentimentos compreensíveis, mas que não são os melhores para encontrar soluções. Quando uma família não tem médico, ou quando um aluno fica sem professor, são falhas graves que desalentam os cidadãos. Pessoalmente, acho que o ministro da Educação está a reformar todo o sistema de forma muito inteligente e que a ministra da Saúde tem uma tarefa terrível, mas que é uma mulher corajosa e com iniciativa. Pode não ser a observação mais popular, mas eu, da experiência que tenho, acredito nela.

Durante os dois anos e pouco que esteve fora da AR sentiu muita falta do Parlamento?

Senti. Gosto do Parlamento, do debate, do confronto, mas também muito do compromisso. Mas, devo dizer, só me fez foi bem. No Parlamento pode-se achar que tudo começa e acaba ali. Chamam-lhe bolha. E a bolha, por vezes, leva a que alguns julguem que o país não está nas empresas, nas escolas, nos hospitais, nas associações, nos cafés, nos clubes, nas famílias. Mas estão enganados. Voltei com mais distância. E a distância, às vezes, melhora a pontaria. Vamos ver se acerto na mouche!

Não somos o país dos assessores?

Somos mais o país dos consultores, das comissões, dos grupos de trabalho e das reuniões para marcar novas reuniões. Mas, não alinho em demonizações fáceis , um bom assessor ajuda a decidir melhor. Olhe, na Assembleia há a menos. Devia haver um corpo mais amplo e especializado tecnicamente na feitura de legislação. O problema é que Portugal reproduz máquinas burocráticas feitas à medida de complicar decisões. Há muitos labirintos e aparecem por todo o lado. A reforma do Estado tem muito para se atarefar. Às vezes, cumprida a lei, tem que se dizer, ‘é assim e ponto final!’ Oxalá, o ministro saiba desbravar a floresta!

Os subsídios de Bruxelas têm sido uma mais-valia ou a causa do atraso português, como escreveu Nuno Palma?

Foram uma enorme ajuda. Só quem não tem dois dedos de testa pode rejeitar esse facto. Portugal modernizou muita coisa com fundos europeus. Coisas que nunca teria feito num isoladamente sós; um mundo que hoje não existe. Mas também criámos vícios. É a maldição do ouro do Brasil. Veja-se, por vezes, anda tudo num corrupio de aviso em aviso, de candidatura em candidatura, de programa em programa. Temos que gastar, não vamos executar, vamos devolver dinheiro a Bruxelas. É curto se a estratégia nacional for preencher formulários a tempo. O dinheiro europeu tem de servir para transformar. O objetivo tem de ser gastar bem e ficar menos dependente no fim.

A sua vida tem sido dedicada à política. Não tem vontade de se aventurar pela vida privada?

Tenho. E estou sempre aberto a outros desafios. Agora, a política é uma parte muito importante da minha vida, mas só tenho interesse enquanto sentir que sou útil e estou a fazer coisas pela minha região e pelo meu país. Atenção: Sempre valorizei muito a minha liberdade pessoal e profissional. E já o mostrei vezes sem conta. A brincar costumo dizer: alguém que é deputado pode ser bom na sua missão, mas qualquer moção de censura de um dia para o outro o manda abaixo. Por isso, é dia-a-dia.

O que acha que falhou para não ter sido eleito presidente da Câmara de Faro?

Falhou o elementar. Houve quem tivesse tido mais votos do que eu. A democracia tem esta singularidade desarmante. Agora, mais a sério, podemos analisar o contexto, a campanha, os erros, o longo ciclo do PSD, mas é o que é. os eleitores decidiram de outra forma. Cá estamos, respeitando essa decisão e sempre a aprender. Seja como for, obviamente continuo a adorar Faro. E a achar que Faro tem um potencial extraordinário, bem maior do que aquilo que tem conseguido realizar. Desde o dia que tomei a decisão de ser candidato, chegava a meio do dia e já tinha 10 ideias novas. Adorei a experiência e estou a grato a todos os que fizeram esse caminho ao meu lado. O que mais custou, no fundo, não foi o resultado da eleição, foi não poder concretizar as ideias tão transformadoras e ambiciosas que delineamos para o futuro de Faro.

Alguma vez utilizou a chamada linguagem neutra? O wokismo não tem sido o principal responsável pela subida dos partidos populistas ou de extrema-direita?

Não uso linguagem neutra, acho eu. A língua portuguesa tem piada é como é, viva, com os seus sotaques, expressões idiomáticas. E isso é uma riqueza a preservar. Nem oito nem oitenta.. Há causas muito justas ligadas ao respeito e à dignidade das pessoas. Essa é a linha vermelha. Agora, o policiamento moral em que se treslê as intenções das pessoas em que cada frase leva a ressentimentos que depois alimentam movimentos em sentidos opostos. Tudo se tem que fazer com bom senso. É a moderação tão necessária à civilização.

Já se percebeu que sofre com os desaires do seu Sporting. E com os do Farense?

Sofro com os dois, com muita intensidade. E as alegrias também são gigantescas. O Sporting é uma paixão assolapada, o que vem geralmente acompanhado de azias, irritações, alegrias contagiantes que já não são compatíveis com um adulto maduro. O Farense é tanta coisa. É a minha identidade, a minha terra, a minha casa, onde joguei, onde fui dirigente. Faz parte de mim. Olhe, sábado lá estarei no Restelo, para um grande clássico do futebol português.

Confessou que está rendido ao ciclista Afonso Eulálio. Não estranhou o tão pouco destaque que foi dado ao homem que andou de camisola rosa durante vários dias?

Nem sei se estranhei. É um filme injusto várias vezes repetido. Um português andar de camisola rosa numa grande volta devia ter tido muito mais atenção. Eu vi algumas etapas e o Afonso Eulálio mostrou coragem, humildade e uma enorme capacidade de sofrimento. Como se diz na gíria velocipédica: chapeaux! O paradoxo é que andamos vezes sem contas atarefados a discutir polémicas menores e depois tão poucas linhas para coisas que nos inspiram e nos enchem a alma. Enfim…

O que é para si um dia perfeito de verão? O que não pode deixar de ter?

Ria Formosa e a suas ilhas. Preferencialmente, passeio de barco, praia com espaço, ria e mar ao mesmo tempo, quem se gosta e o tempo a passar sem preocupações. Não explico mais, ainda tem muito de santuário e, por vezes, temos que ser um bocadinho egoístas! O ideal era não me agarrar tanto ao telemóvel, pois parece ter uma desconcertante capacidade de se fazer necessário e eu ainda não aprendi a lidar convenientemente com isso. A ver se este ano se fazem progressos.

Imagina-se a ir a banhos numa praia nortenha?

A minha mulher é de Viana do Castelo. Há sacrifícios que nem o amor consente! As praias são bonitas, é verdade. Mas prefiro ficar a ver. Para mim, a Costa da Caparica é uma praia nortenha, veja lá o meu sentido de geografia balnear. No Algarve, nem sempre, mas em regra, somos nós e o mar e ficamos um só. No norte, é uma coisa tirada a ferros, parece que há um antagonismo, que o ser humano pode suportar a inclemência da natureza. É uma prova de coragem. Para este fim, não a tenho.

Qual o seu marisco e peixe preferidos?

Amêijoas. É de caras. Peixe? Provavelmente, robalo. Mas não é toda a gente que faz um bom peixe grelhado, com saladinha montanheira, batata, como deve ser. Normalmente, quanto mais simples melhor resultado se obtém. Se for assim, não é qualquer um que bate o Algarve.