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'Noite violenta na Grande Lisboa’: ‘Quatro esfaqueados e quatro baleados’; ‘Seis menores assassinados por familiares (só nos primeiros 16 dias de agosto)’; ‘Dupla armada rouba relógio de luxo a turista na Quinta do Lago’; ‘Rabo de Peixe, dezenas de populares atacaram agentes da PSP’; ‘Um homem de 69 anos foi brutalmente espancado por três ladrões’; ‘Abusa de criança e sai em liberdade’; ‘Vítima de assalto mata ladrão do Rolex’; ‘Gangue armado assalta duas ourivesarias em Almada e Seixal’; ou ‘Três assaltantes roubaram, com recurso a violência física, um saco com elevado valor em ouro de uma loja de penhores’; e ‘Sócio da discoteca Lust in Rio encontrado morto’ são apenas alguns dos crimes noticiados nos últimos dias. A estes podíamos juntar mais casos muito mediáticos das últimas semanas: o jovem que matou a mãe, em Algés; o rapaz que foi esfaqueado até à morte no Cais do Sodré; a turista sueca que foi baleada na Rua Augusta; o atropelamento em Albufeira que fez 16 feridos; além das agressões violentas a turistas na noite do Porto.
Quererá isto dizer que Portugal está mais inseguro e a criminalidade violenta está a aumentar? A PSP diz que não e dá, à Lusa, números, provisórios é certo, do corrente ano: «Na área de intervenção do Comando Metropolitano de Lisboa (que não corresponde ao Distrito) verifica-se um aumento da criminalidade geral na ordem dos 2,9% e uma diminuição da criminalidade violenta e grave na ordem dos - 0,4%» . Quanto ao Porto, a história não é muito diferente, aumento da criminalidade geral, mas diminuição da violenta: «Na área (não corresponde ao Distrito) do Comando Metropolitano do Porto verifica-se (provisoriamente) um aumento da criminalidade geral na ordem dos 10,9% e uma diminuição da criminalidade violenta e grave na ordem dos - 8,4%». O caso de Setúbal é ainda mais contraditório com o sentimento de insegurança: «Na área (não corresponde ao Distrito) do Comando Distrital de Setúbal verifica-se (provisoriamente) uma diminuição da criminalidade geral na ordem dos - 7,4% e uma diminuição da criminalidade violenta e grave na ordem dos - 13 %».
Estes são os únicos dados oficiais conhecidos até agora. Mas o que pensam outros atores envolvidos no fenómeno da criminalidade? Oiçamos o que diz um magistrado do Ministério Público que prefere o anonimato. «A criminalidade aumentou. Nós vemos isso nos DIAPs. Só para lhe dar um exemplo: em Setúbal, estão com uma carga processual enorme, e já não têm capacidade de fazer todos os julgamentos. Porquê? Porque as entradas de processos são tantas, que é difícil dar andamento ao expediente».
E qual a razão, no seu entender, para termos chegado a esta situação? «Porque a população portuguesa, aquela que é real, aumentou 15%. Nós temos um milhão e meio de imigrantes legais em Portugal. Logo, o litígio aumentou 15% necessariamente. Pelo menos 15%. E depois temos que falar de outras coisas, que é a criminalidade organizada, e que tem a ver com fenómenos a nível da Europa, nomeadamente no que diz respeito ao tráfico de droga».
Bélgica em situação de emergência nacional
Façamos uma pausa na criminalidade caseira e espreitemos o que se passa na Bélgica, segundo O Contacto: «O ministro do Interior belga, Bernard Quintin, declarou na quarta-feira que a Bélgica se encontra ‘numa situação de emergência nacional’ devido à mais recente onda de tiroteios registada na capital, Bruxelas. Anunciou, por isso, o reforço da presença policial na cidade e uma série de outras medidas para reforçar o combate à violência ligada ao tráfico de droga e ao crime organizado, depois de seis tiroteios em quatro dias em Bruxelas e 65 desde o início deste ano. ‘Após a nova série de tiroteios em Bruxelas, propus várias medidas concretas para reforçar o combate à violência relacionada com o tráfico de droga e o crime organizado. Estamos numa situação de emergência nacional. O combate ao crime organizado deve ser uma prioridade absoluta para todos os serviços e todos os níveis de poder’, escreveu Quintin numa mensagem publicada nas redes sociais».
Como facilmente se percebe, a criminalidade violenta está a ‘espalhar-se’ na Europa - não vale a pena falar de outros continentes, como o americano ou africano. E há um denominador comum, no que diz respeito à criminalidade violenta: o tráfico de droga. O Ministério Público, por quem passa toda a criminalidade violenta, seja investigada pela Polícia Judiciária, PSP ou GNR, tem uma leitura mais alargada do fenómeno. Um magistrado ouvido pelo SOL diz que as rotas do tráfico de droga se alteraram e que Portugal foi prejudicado por só muito recentemente ter legislado sobre as lanchas rápidas, algo que Espanha tinha mudado já há uns anos. «Temos cá em Portugal grupos organizados a tratar destas rotas. Obviamente com o apoio de alguns traficantes portugueses, que já são conhecidos, que já cumpriram penas prisão, e de alguns empresários que também já tiveram algumas ligações ao narcotráfico. Alguns deles estão em situação difícil económica, e como acham que não têm nada a perder, andam por esses caminhos tristes».
A mesma fonte recorda que no Minho se fabricavam muitas lanchas que depois recebiam os motores noutras zonas do país. Nas proximidades de Santarém, por exemplo, houve um caso que ficou bastante conhecido. Um agricultor que tinha um barracão que dava para o rio foi abordado por um homem que lhe ofereceu 15 mil euros por mês pelo aluguer da ‘barraca’. Quando começou a ver lanchas a entrar e sair do seu espaço a um ritmo alarmante, a casa onde vivia ficava perto do barracão, o agricultor questionou o homem que lhe tinha alugado o espaço e ouviu como resposta: «Oiça lá, pagamos-lhe 15 mil euros por mês. O senhor achava o quê?». O homem, como está bom de ver, teve que desaparecer e a rede de narcotráfico acabaria por ser desmantelada.
«A verdade é que esta criminalidade traz muita violência porque há muito dinheiro envolvido. Nós vamos ouvindo falar de execuções, mas não é nada que se compare com Espanha. Estas execuções são feitas por estrangeiros que vão ‘cumprir’ as suas missões aos países onde estão os seus alvos. Entram, matam ou agridem, e vão embora. É muito difícil detetar esta gente», acrescenta.
Gangues do Rolex usam a mesma tática
O tráfico de droga envolve cada vez mais estrangeiros que entram e saem dos países, além dos que habitam neles, sejam estrangeiros ou nacionais. Esta semana, em Portugal, foram noticiados dois assaltos dos denominados gangues do Rolex. Um na Quinta do Lago, que não mereceu grande destaque, e outro em Lisboa, na Avenida de Berlim. Vejamos o que disse a PSP, a primeira a chegar ao local, na terça-feira: «Pelas 13h09 alerta de roubo. Começou na Avenida Cidade do Porto momento em que a viatura da vítima (BMW de matricula portuguesa com 2 ocupantes - homem e mulher portugueses) foi embatido na traseira por Motociclo n.º1 (com 1 ocupante). Após a colisão, o condutor sai da viatura, é ameaçado pelo condutor da mota com uma faca. Momento em que se aproxima o motociclo n.º 2 (1 ocupante) que tinha na sua posse arma de fogo, que utilizou para ameaçar e conseguiu realizar o roubo, de 1 relógio ROLEX e 1 fio, ao condutor. Ao passageiro (mulher) roubaram 3 pulseiras e 1 relógio ROLEX. Total de 100 mil euros.
O condutor do BMW após o embate e roubo perseguiu os motociclos, tendo embatido com a frente na lateral num deles, provocando o despiste, tendo o seu condutor caído no solo na Avenida de Berlim junto RSB, local onde viria a ser declarado o óbito pela VMER. PJ foi ao local e efetuou diligências.
Foi possível recuperar todos os bens, exceto o relógio do passageiro (mulher). Arma branca apreendida que estaria na posse do suspeito que veio a falecer. Testemunhas/vítimas informam que suspeitos tinham sotaque brasileiro (vitima mortal sem identificação). Mota apreendida pela PJ, assim como o BMW da vítima para perícias». Esta é a versão da PSP, mas o Correio da Manhã, entre outros, tem outra versão dos acontecimentos. Segundo o diário, o homem que seguia no carro assaltado perseguiu os assaltantes e poucos metros depois terá sido confrontado com a ameaça com a arma de fogo. E terá sido aí que o assaltado terá batido numa das motos, provocando a queda do condutor, que terá sido depois atropelado por outro carro, vindo a morrer.
A Polícia Judiciária tomou conta da investigação e procura o outro assaltante, num jogo do gato e do rato. O fenómeno não é novo, mas faltam dados oficiais, o que tem levado alguns dos intervenientes a lamentar a falta de coordenação do Sistema de Segurança Interna. Só no último ano há registos de mais de duas dezenas de assaltos, tanto em Lisboa, como no Porto e no Algarve. Por norma, os membros destes gangues entram no país por via terrestre, e são maioritariamente brasileiros, venezuelanos, colombianos e alguns do Magrebe. Fazem os seus assaltos, depois de vigiarem as suas vítimas em esplanadas, lojas de luxo ou hotéis, e seguem o esquema traduzido pelo auto da PSP. De seguida, supostamente, saem do país, onde venderão o produto roubado. Voltando quando lhes apetece. O SOL sabe que a Polícia Judiciária tem uma brigada dedicada ao problema, e os seis inspetores estão a seguir as pistas que encontraram. Também a PSP tem os seus homens de olhos abertos, tendo ambas as forças já efetuado detenções de vários membros dos denominados gangues do Rolex. O JN ontem dava conta de que, entre abril e junho de 2024, quatro venezuelanos a residir em Madrid fizeram cinco assaltos no Porto e em Gaia. Acabariam por ser presos e condenados a cinco anos e quatro meses de prisão.
Em Lisboa, uma deputada e a família do chef Olivier contam-se entre as vítimas dos gangues do Rolex. Ao SOL, em janeiro do corrente ano, o superintendente Jorge Resende, chefe da área operacional do Comando Metropolitano de Lisboa, dizia que o fenómeno é antigo e que tinha parado um pouco em meados de 2024, tendo voltado em força em 2025. Resende dizia que a PSP investe na prevenção e que tem destacado várias valências para atacar os gangues do Rolex, nomeadamente através de homens à civil, da divisão de Trânsito e até do Corpo de Intervenção. «Continuamos a fazer um policiamento preventivo e em alguns casos de forma ostensiva, que é mais no sentido de dissuadir qualquer tipo de situação. Na última vez que nós fizemos uma detenção, até por parte do pessoal da divisão de trânsito, conseguimos a identificação de dois suspeitos que tinham também um motociclo furtado», dizia.
Regressemos ao início do texto. Qual a razão para tantas notícias de crime? E aqui as respostas vão quase todas na mesma direção. Há menos polícias, os sindicatos da PSP exigem uma remodelação que permita ter mais homens na rua, e motivados; enquanto outros, como o magistrado do Ministério Público ouvido pelo SOL, defendem outras razões: muitos dos crimes de violência doméstica, por exemplo, dizem respeito à maior comunidade sul-americana que vive em Portugal, o crime de importunação sexual, e não fala de violação, é da imigração indostânica, e por aí fora. «Há mais um milhão e meio de habitantes, é óbvio que tem de haver mais crimes, e as redes internacionais ajudam à ‘festa’. Sem excluirmos, como é óbvio, os portugueses», remata.