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Os criadores de gado afetados pelos ataques de lobos acusaram esta sexta-feira o Governo de continuar sem apresentar medidas concretas para reforçar a proteção dos animais, apesar de estar em preparação um novo diploma destinado a aumentar a proteção do lobo-ibérico.
A posição foi assumida por Orlando Gonçalves, porta-voz da União de Produtores de Gado Lesados pelos Lobos (UPGALL), segundo o qual os agricultores estão “no limite da pouca paciência que lhes resta” perante aquilo que consideram ser a ausência de respostas para os prejuízos causados pela predação.
As declarações surgem após a ministra do Ambiente ter anunciado, no início deste mês, que o Governo irá apresentar em breve um novo decreto-lei para reforçar a proteção do lobo-ibérico. O documento está a ser preparado em articulação com o Ministério da Agricultura e foi referido durante a apresentação do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN).
Na ocasião, questionada sobre os receios manifestados por organizações ambientalistas relativamente a uma eventual redução da proteção da espécie, a governante garantiu que tal não acontecerá. “Podem ficar descansados”, afirmou.
A reação dos produtores foi imediata. A UPGALL considera que as mais recentes notícias sobre o reforço da proteção do lobo estão a gerar indignação junto das comunidades rurais que convivem diariamente com os ataques aos animais.
“As últimas notícias sobre a proteção do lobo colocam ao rubro quem vive o pesadelo constante deste tumor maligno da pecuária extensiva, fomentado e protegido pela psicose lupina”, refere o comunicado, citado pela agência Lusa.
Os agricultores recordam ainda que estiveram no Parlamento, a 13 de maio, para apresentar aos deputados da Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar aquilo que classificam como um “drama” vivido por muitos produtores. Na mesma ocasião, deixaram um convite aos parlamentares para visitarem o terreno e observarem a situação diretamente.
A deslocação foi proposta para o próximo dia 23, durante a tradicional marcação anual dos garranos na serra de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Segundo Orlando Gonçalves, também o ministro da Agricultura foi convidado a acompanhar a iniciativa.
“O efetivo era de cerca de mil, mas os criadores dizem que este ano talvez não encontrem 300”, afirmou o responsável, acrescentando que a associação recebe semanalmente fotografias de animais mortos ou gravemente feridos alegadamente em resultado de ataques de lobos.
A marcação dos garranos inclui a contagem das crias e outras operações de maneio dos animais que vivem em regime asselvajado. Contudo, os criadores alertam que, nos últimos anos, a atividade tem sido marcada por uma redução significativa dos efetivos.
A preocupação dos produtores surge numa altura em que estudos científicos apontam para a crescente importância dos garranos na alimentação do lobo-ibérico em algumas regiões do noroeste da Península Ibérica.
Investigadores concluíram que os cavalos garranos podem representar até 80% da dieta do lobo em determinadas áreas de Portugal e Espanha. De acordo com informação divulgada pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), esta espécie funciona como uma “presa tampão”, contribuindo para reduzir a pressão predatória sobre bovinos, caprinos e ovinos.
Ainda assim, os investigadores alertam que os próprios garranos enfrentam atualmente uma pressão crescente, o que levanta novas preocupações sobre a conservação desta raça autóctone e o equilíbrio dos ecossistemas onde coexistem com o lobo-ibérico.