quarta-feira, 22 jul. 2026

Criadores de gado acusam Governo de ignorar ataques de lobos

A União de Produtores de Gado Lesados pelos Lobos acusa o Governo de reforçar a proteção do lobo-ibérico sem avançar com medidas eficazes para defender os rebanhos. Os criadores dizem estar “no limite da pouca paciência” perante o aumento dos ataques e a redução drástica dos efetivos de garranos no norte do país
Criadores de gado acusam Governo de ignorar ataques de lobos

Os criadores de gado afetados pelos ataques de lobos acusaram esta sexta-feira o Governo de continuar sem apresentar medidas concretas para reforçar a proteção dos animais, apesar de estar em preparação um novo diploma destinado a aumentar a proteção do lobo-ibérico.

A posição foi assumida por Orlando Gonçalves, porta-voz da União de Produtores de Gado Lesados pelos Lobos (UPGALL), segundo o qual os agricultores estão “no limite da pouca paciência que lhes resta” perante aquilo que consideram ser a ausência de respostas para os prejuízos causados pela predação.

As declarações surgem após a ministra do Ambiente ter anunciado, no início deste mês, que o Governo irá apresentar em breve um novo decreto-lei para reforçar a proteção do lobo-ibérico. O documento está a ser preparado em articulação com o Ministério da Agricultura e foi referido durante a apresentação do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN).

Na ocasião, questionada sobre os receios manifestados por organizações ambientalistas relativamente a uma eventual redução da proteção da espécie, a governante garantiu que tal não acontecerá. “Podem ficar descansados”, afirmou.

A reação dos produtores foi imediata. A UPGALL considera que as mais recentes notícias sobre o reforço da proteção do lobo estão a gerar indignação junto das comunidades rurais que convivem diariamente com os ataques aos animais.

“As últimas notícias sobre a proteção do lobo colocam ao rubro quem vive o pesadelo constante deste tumor maligno da pecuária extensiva, fomentado e protegido pela psicose lupina”, refere o comunicado, citado pela agência Lusa.

Os agricultores recordam ainda que estiveram no Parlamento, a 13 de maio, para apresentar aos deputados da Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar aquilo que classificam como um “drama” vivido por muitos produtores. Na mesma ocasião, deixaram um convite aos parlamentares para visitarem o terreno e observarem a situação diretamente.

A deslocação foi proposta para o próximo dia 23, durante a tradicional marcação anual dos garranos na serra de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Segundo Orlando Gonçalves, também o ministro da Agricultura foi convidado a acompanhar a iniciativa.

“O efetivo era de cerca de mil, mas os criadores dizem que este ano talvez não encontrem 300”, afirmou o responsável, acrescentando que a associação recebe semanalmente fotografias de animais mortos ou gravemente feridos alegadamente em resultado de ataques de lobos.

A marcação dos garranos inclui a contagem das crias e outras operações de maneio dos animais que vivem em regime asselvajado. Contudo, os criadores alertam que, nos últimos anos, a atividade tem sido marcada por uma redução significativa dos efetivos.

A preocupação dos produtores surge numa altura em que estudos científicos apontam para a crescente importância dos garranos na alimentação do lobo-ibérico em algumas regiões do noroeste da Península Ibérica.

Investigadores concluíram que os cavalos garranos podem representar até 80% da dieta do lobo em determinadas áreas de Portugal e Espanha. De acordo com informação divulgada pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), esta espécie funciona como uma “presa tampão”, contribuindo para reduzir a pressão predatória sobre bovinos, caprinos e ovinos.

Ainda assim, os investigadores alertam que os próprios garranos enfrentam atualmente uma pressão crescente, o que levanta novas preocupações sobre a conservação desta raça autóctone e o equilíbrio dos ecossistemas onde coexistem com o lobo-ibérico.