Covid-19. Lições, Desafios e Efeitos Duradouros da Pandemia

Seis anos após o registo dos primeiros casos de covid-19 em Portugal, as repercussões da pandemia ainda continuam a ser sentidas. Embora a comunidade científica tenha identificado a origem zoonótica do vírus, ainda persistem questões sobre as medidas adotadas, os impactos da hesitação à vacinação e os efeitos a longo prazo do vírus, especialmente no que diz respeito às consequências ainda pouco compreendido da covid longa. A virologista Maria João alerta para os desafios que ainda perduram.
Covid-19. Lições, Desafios e Efeitos Duradouros da Pandemia

Seis anos depois de terem sido conhecidos os primeiros casos de covid-19 em Portugal continuamos a assistir a discussões sobre as medidas adotadas, naquela altura, e as consequências a longo prazo deste vírus, sobretudo nos seus efeitos mais duradouros. Para já, junto da comunidade científica há uma certeza em relação à sua origem: «É um vírus de origem zoonótica e, apesar de haver várias teorias de que possa ter saído de um laboratório, a maior parte da comunidade científica acha que a transmissão do vírus foi feita de um animal para um humano, e disseminou-se a partir daí, o que é algo que acontece muito frequentemente», esclarece à VERSA a virologista Maria João Amorim, atualmente à frente do Católica Biomedical Research Centre, que tem acompanhado de perto a evolução do vírus desde o início da pandemia. 

E dá como exemplo o que se tem verificado em surtos de doenças como a Marburgo, Nipa e Ébola, que também partiram de animais, mas que, no caso da covid «dissipou-se rapidamente por toda a população», admitindo que «hoje em dia sabe-se que várias pessoas morreram de covid antes de ser dado o alerta, o que permite concluir que o vírus de calhar já estava a circular há mais tempo do que aquilo que se imaginava». É certo que a sua velocidade de propagação exigiu a mobilização da comunidade científica, no entanto, como em todas as pandemias, surgiram dificuldades. «Tivemos um pouco de dificuldade em perceber se o vírus estava contido ou não, reparámos demasiado tarde talvez para o facto de já estar espalhado por todo o mundo, mas na verdade quando se começaram a assistir aos primeiros casos percebeu-se que o vírus afetava as pessoas de maneira diferente, que as pessoas com mais idade tinham uma resposta pior à infeção viral», salienta.

Perante esta realidade, Maria João Amorim admite que «é natural» que hoje ainda existam uma série de dúvidas em torno das medidas implementadas, ou seja, se foram ou não exageradas. «Gosto de lembrar várias coisas. Por um lado, a ciência e a comunidade médica trataram bastante bem dos pacientes, portanto sabemos muito mais coisas do que aquelas que sabíamos da última vez que tivemos uma pandemia. Por outro, a comunidade médica, a comunidade científica e a Organização Mundial de Saúde tratam do que pode ser feito para combater uma determinada infeção, mas depois todas as políticas inerentes à parte social e política têm de ser enquadradas de uma forma mais abrangente e não nos podemos esquecer de uma componente essencial: o facto de estarem a morrer pessoas a um nível muitíssimo elevado iria levar a que os hospitais estivessem sobrecarregados, como aconteceu em Itália, e depois não haveria a capacidade para tratar os outros doentes – e mesmo assim já foi o que foi», acrescenta. 

"Ainda está a mudar a nossa vida"

A virologista admite que, seis anos depois, a covid-19 «ainda está a mudar a nossa vida». Dá como exemplo as reuniões online que entraram no nosso quotidiano e, em termos de saúde pública, diz que ainda continuam a ser feitos «ajustamentos», o que, no seu entender, é normal em qualquer pandemia. «Qualquer pandemia deixa marcas que são muito duradouras, implica fazer ajustes nos sistemas de saúde, ajustes de políticas, etc.».

Mas questiona: «Conseguimos aprender o suficiente para a próxima pandemia? Não sei, mas algumas coisas aprendem-se com certeza».

Por outro lado, vê com apreensão o aumento da hesitação em torno da vacinação, afirmando que sabemos que todas as vacinas têm um determinado benefício e um determinado custo, mas que o benefício é bastante superior ao custo que têm. «A vacina da covid tem a capacidade de diminuir a severidade da doença e, ao mesmo tempo, evitar coisas como a covid longa», sublinha, reconhecendo que «é necessário tentar perceber a hesitação face à vacinação depois de haver algo que achava que tinha sido tão bem sucedido: uma vacina que conseguiu restaurar as nossas vidas quase à normalidade».

Maria João Amorim recorda também surtos que já não existiam e que voltaram a estar na ordem do dia. Recorde-se que depois da rubéola, agora estamos perante surtos de meningite e não só. «Por exemplo, o sarampo, que associamos a uma doença da infância, é uma doença bastante grave e que levou a grande mortalidade infantil. Vejo o regresso destes casos com grande apreensão porque depois de termos esta doença, o nosso sistema imunológico quase tem de começar do zero para voltar a recuperar, há uma espécie de amnésia. Estamos a assistir a casos de pólio, até por causa da guerra, que são doenças muito graves, levam a paralisias e a um estado dos pulmões em que as pessoas tinham que estar metidas dentro de umas cápsulas metálicas», recorda. «São doenças que são absolutamente preveníveis, mas torna-se mais complicado por estarmos perante esta hesitação da vacinação», avisa.

E não hesita: «É difícil de perceber e confesso que não tenho capacidade de lidar com esse assunto, porque envolve mais a parte social». Uma questão que, de acordo com a responsável, ganha outras proporções com o acesso às redes sociais e à inteligência artificial. «Temos de ter em conta a componente computacional e toda a parte da AI, dos social media, dos TikToks, etc., que também entram na equação e que não consigo entender. Gostava de ver este assunto da hesitação face à vacinação um bocadinho mais debatido. Todos os medicamentos têm efeitos secundários. Só que neste caso em concreto tivemos uma população inteira a tomar uma coisa, ao mesmo tempo. Portanto, todos os efeitos secundários vieram ao de cima. Se toda a população tomasse estatinas, por exemplo, toda a gente iria ter um aumento terrível de doenças musculares», refere. 

"Um mar de incertezas"

Olhando para trás, Maria João Amorim admite que «trabalhar com um vírus que não é conhecido é andar sempre num mar de incertezas», uma vez que o conhecimento vai sendo adquirido à medida que se vai expondo e, a partir daí, vão sendo feitos estudos. 

A partir desse momento, é possível perceber como o SARS-CoV-2 poderá estar a alterar a sazonalidade de outros vírus respiratórios. «Sabemos muito bem, no caso da gripe, quando aparece um subtipo de gripe diferente depois de uma pandemia normalmente elimina um outro. Quando apareceu o H1N1 pandémico, eliminou o anterior H1N1», esclarece a virologista. 

E chama a atenção para o facto de várias infeções virais terem efeitos longos e que neste caso é mais visível porque houve muita gente infetada ao mesmo tempo. «Por exemplo, o síndrome da fadiga extrema é muito associado a doenças virais e as pessoas não sabem muito bem explicar. E aqui já sabemos que diferentes variantes têm impactos diferentes na longa covid, em que umas estão mais associadas a problemas neurológicos, como falta de olfato, outras estão mais associadas a cansaço. Portanto, há um diferente lex sobre o que é a covid longa. E nós agora estamos a começar a perceber melhor à medida que o vírus vai se adaptando mais à população humana. Isto é, que tipo de covid longa é que vai provocar e em que tipo de população», salienta.

Ainda assim, admite que «é muito difícil tratar sequelas mais prolongadas virais, exatamente porque são muito difíceis de gerir». Mas também aqui destaca a importância da vacinação. «Temos agora estudos que começaram a sair e que mostram que a vacinação da gripe protege contra doenças cardiovasculares. São estudos que estão muitíssimo bem feitos. Também a vacinação contra a zona pode reduzir em até 20% o risco de desenvolver demência. Uma coisa tão simples como uma vacina destinada para um efeito acaba depois por ter outros efeitos, até em outros órgãos que não aqueles órgãos que normalmente ataca como, por exemplo, os pulmões no caso da gripe, em que se observa que a vacina protege contra doenças cardiovasculares», acrescenta. 

"Há sempre o risco de uma nova pandemia"

Perante os contactos que existem com animais, e uma vez que os vírus são preponderantes nestes organismos, a virologista admite que «há sempre o risco de uma nova pandemia», dando como exemplo, a gripe das aves. Daí destacar a importância dos mecanismos de monitorização. «São instrumentos extremamente eficazes, que são feitos durante todo o ano, para se conseguir não só monitorizar o que está nos animais e as doenças que nos possam transmitir, como para se conseguir monitorizar as mutações que vão adquirindo e se se transformam ou não em vírus mais importantes ou mais capazes de se estabelecerem em humanos», salienta.

E acrescenta: «Há imensos vírus a circular em animais, mas são doenças que não percebemos, pois só damos importância às doenças quando já afetam os humanos».